sábado, 5 de março de 2011

Memória e poeira











Joaquim Moncks*

O poeta é o natural caricaturista dos viventes bem sucedidos e faz a sua alegoria em cima do dinheiro que não acredita bem havido. É a seta que fere os todo-poderosos da ordem econômica de sua época. Acredita que pode virar pra melhor o estado de coisas. Este ser espiritual é o bobo-da-corte em qualquer idade... Tão inútil quanto diretamente inofensivo. A inutilidade imanente à Poesia faz com que ele seja tolerado como um cão desdentado que ladra a mais não poder. “... Deitei fora a máscara e dormi no vestiário/ Como um cão tolerado pela gerência/ Por ser inofensivo...”, lavrou F. Pessoa (Álvaro de Campos) em seu monumental “Tabacaria”, poema de 1928. A esse ser analítico compete a sátira bem ou mal-humorada dos costumes de seu tempo de viver. Nos momentos difíceis de falta de liberdade, os ditadores de plantão os condenam à morte ou ao exílio. E tentam safar da memória do povo os seus agora nem tão inúteis recados. E é no tempo do devir que ficarão alguns na memória de seus contemporâneos. De muitos nada restará. Nem poeira...

– Do livro O novelo dos dias (2010/11).

*joaquimmoncks@gmail.com