sábado, 5 de março de 2011

A morte de Deus, de Cristo e do homem











Márcio Almeida*


"Ai dos homens que matam a morte por medo da vida!" - Vinicius de Moraes

A Semana Santa é o evento em cuja ocasião o ser humano se reconhece insignificante dada sua finitude. Se ao morrer Cristo desencarna a própria eternidade do homem, morrer é o sentido da vida. A morte do homem Cristo sacraliza a vida eterna. O homem é mortal, ou seja, o homem é a morte que se espera. Frente ao impasse apocalíptico de a morte ser inapelável, invencível, então o que resta ao homem é morrer em paz – livrar-se do inferno da vida, da angústia da finitude, do sentimento de culpa que condena a vida a ser para sempre um eterno castigo. Daí poder se perguntar: ser eterno para quê? Porque a eternidade é a “certeza inacessível”, pois, pelo contexto religioso, a morte não deixa a vida para trás. Ela leva junto uma certeza: só Deus é insubstituível. Para haver eternidade é preciso crer na própria morte, pois para a vida eterna a morte é o próprio sentido da imolação de Cristo aos homens. Há que pensar, porém, em algo mais profundo do que a morte em função de uma “eternidade preguiçosa”, incapaz de provocar transformação universal. Porque o homem não nasce para simplesmente morrer em meio a um círculo vicioso, ou para, após morto, ser sêmen de nada. A menos que se pense como Pascal, para quem a morte é “soberba potência”, que “faz da eternidade um nada e do nada uma eternidade.”

A fé tem que justificar a eternidade do homem enquanto o homem vive, tal como fez Cristo. Porque Deus nada faz para o homem ser eterno. A morte é a possibilidade desse privilégio. “O medo da morte é a origem de Deus” (M.Blanchot). Por isso é preciso morrer bem, com decência, com ética, fiel a si mesmo, com uma predestinação feliz. A mesma divinamente decantada com  perfeição poética latina pelo Doutor Angélico São Tomás de Aquino em seu hino entoado no Sábado da Aleluia: "Oh culpa feliz que nos fez merecer tal e tanto redentor".

A morte de Cristo reafirma a grandeza da vida por superar a tragédia de tudo que limita e escraviza. Epicuro disse: “Se tu és, então a morte é.” A morte é assim a “purificação da ausência”. Ela é, a partir de Nietzsche, a potência do negativo, porque, ele diz na fala de Zaratustra, “o homem é algo que deve ser superado.” A morte é a “profundidade hiante”, de que fala Mallarmé, ou seja, a superação do que anula a resignação na luta do homem em meio às incertezas de sua vida ser um abismo para cima. Por isso Rilke escreveu ser preciso “reforçar a familiaridade confiante na morte a partir das alegrias e dos esplendores mais profundos da vida.” Annie Rottenstein pontua que há cerca de 60 mil anos a.C nasceu o homo sapiens sapiens com dupla sabedoria: a de saber transmitir o seu conhecimento e saber que vai morrer. E que por essas razões a consciência da morte tornou-se, para sempre, o eixo civilizador da humanidade, sendo também o que justifica os mitos e ritos como busca de respostas para explicar a ânsia de sentido.

Os efeitos da morte de Cristo hão que suplantar a ingenuidade dogmática de uma salvação do pecado, ainda que, segundo Atos, 2:23, a morte de Cristo obedeça a um determinado conselho e presciência de Deus. Para ser perfeito e reinar absoluto, sustentava Perseu, discípulo de Zenão, Deus nem precisa existir, pois Deus não pode ser maniqueísta como os homens, porque Deus não condena nem absolve - essas ações são típicas da mesquinhez humana baseadas em leis transgredidas a todo momento. A deslegitimação é o que provoca o caos na ordem de Deus, mas antes, no cotidiano humano.

No culto hebreu, havia um lugar chamado de propiciatório, onde o sacerdote colocava o sangue do cordeiro para implorar a Deus perdão para os homens de má vontade. Hoje, o propiciatório está no sangue derramado pelos crimes que matam inocentes nas ruas, na violência doméstica dos lares, nas guerras étnicas e religiosas. Está na realidade de quem morre simplesmente de fome, na pressão psicopata dos suicidas, na corrupção sacana dos sanguessugas que vivem (bem) sugando o sangue alheio. Está na imagem mórbida das prisões, cuja superlotação comprova os reflexos das (in)diferenças sociais. “Cada qual morrerá por sua própria maldade” (Jeremias, 31:30). Ao se tornar Redentor, cuja palavra significa o que resgata a dignidade da vida, Cristo cumpre uma missão humana, antropológica – a de ligar o homem ao homem – soteriológica – a de salvar a humanidade do caos absoluto. E, ao fazê-lo, segundo reflexão de Rilke, Cristo torna real “realizar a maior consciência possível de nossa existência.” 

É sagrado aquele que não se profana. Hegel tem razão: ”Com a morte começa a vida do espírito.” Sexta-Feira da Paixão: Deus está morto. Graças a Deus. Amém.

Ps.: além das Bíblias, quem estiver a fim de se enriquecer em nível de conhecimento a respeito da morte, recomenda-se ler: Como deixei de ser Deus, de Pedro Maciel; O espaço literário, de Maurice Blanchot; A morte do homem comum, de Philip Roth; Elegias, de Rainer Maria Rilke, Ecce homo, de Nietzsche; A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tostói; História da morte no Ocidente, de Philippe Aires; Biotanatologia e bioética, de Evaldo Dassunção; Morte, de William Butler Yeats; Igitur, de Mallarmé, entre outros.

*marcioalmeidas@hotmail.com