sábado, 5 de março de 2011

Muitos de nós











*Rafael Alves Cunha
                                              
No meio do caminho havia uma ratazana. Passou como um raio por uma senhora, fez um bêbado tropeçar, foi chutada por um estudante e, mesmo assim, alcançou a sarjeta. O odor transformava o banco do ponto de ônibus em um objeto sem utilidade. As pessoas se concentravam próximas ao semáforo. Nem tão perto da sarjeta que ficassem enjoadas, nem tão longe que, vez ou outra, não fossem obrigadas a prender a respiração.

Andamos por todas as ruas. Barzinhos, sebos, shoppings, lanchonetes, boates e puteiros. Talvez exista diversão no purgatório para quem tenha tempo para gastar. Nós, os passageiros da barca de rodas, nesta manhã de agosto, no carro 4062, não temos mais tempo. Já vendemos tudo. Trocamos nossas horas por palavras e ferramentas.

Estudar e trabalhar. Não nos diga que isso não é vida. Já sabemos: a vida está nas páginas do livro de autoajuda. Não é mais segredo para ninguém. É dádiva dos vitoriosos e um dia venceremos também.

Ônibus lotado, de segunda a sexta. Os semblantes amarrotados, olhos vazios. Ninguém olha pela janela, não há nada para se enxergar além de calçadas, mendigos e prostitutas.

Os nossos olhos emitem qualquer coisa fugaz, nascem e morrem a cada outdoor. As propagandas sempre falam de coisas e lugares feitos para nós e fora de nosso alcance. Essa distância aperta o peito. Vem a angústia, dá vontade de ser mais. 

Somos operários por nossa própria natureza.

Correria de olhos em livros, a despeito do trânsito empacado. Capital intelectual, não é o que dizem? Acompanhar as mudanças, aprender. Nem precisamos mais pensar em revoluções. Basta  criar a força positiva para ascender no sistema. Subiremos de classe como um foguete aos céus.

Estamos pareados, espalhados pelo corredor, pressionados contra a vidraça. Corpos lutando contra a Física, cada qual brigando por um lugar no espaço.

Desiguais em espírito, poderíamos criar um sistema igualitário?

Deixemos as cabeças abertas para receber o conhecimento. No despejo da terra fértil não deve vir tanto entulho.

A massa do bolo humano se torna maior a cada ponto. Antes do centro da cidade ninguém vai descer. A buzina adormece nos ouvidos. Não incomoda mais.

Só queremos chegar em casa logo. Só queremos que chegue a sexta-feira com todas as suas promessas. Agora estamos numa pior. Mas estamos anotando tudo o que eles estão dizendo. Para quem está sentado não é difícil fechar os olhos e dormir. Poucos de nós preferem encarar a estrada congestionada. Os que o fazem têm o olhar distante como um sonho. Quando estivermos lá em cima, olharemos dessa maneira para tudo o que estiver embaixo.

Rafael Alves Cunha é universitário e aprendiz de escritor. Reside em Belo Horizonte-MG. Contato: rafelalvescunha@yahoo.com.br.