sábado, 5 de março de 2011

Prova verde e amarela











Eduardo Sabino*


Quem fechava as provas não podia ser camisa dez. Ou o sujeito era passador de cola ou jogador de bola. Na escola valia a lei da lábia dos folgados. O resto era gado, gente que nasceu para ler, decorar e tirar dez. Para os malandros, era assim: quem driblava no recreio não podia entregar a prova lisa. Aí entrava o Caxias. Aquele cuja prova de Biologia sofria meiose, mitose e se multiplicava pelas carteiras. Rafael recusou o cargo na primeira semana de aula, quando se transferiu para aquele colégio. Jamais compartilhou uma resposta. Mesmo com os papeizinhos circulando, os cutucões nas costas. Quando saíram os primeiros resultados de Física, os malandros não aguentaram. Caíram no tapa com o amarradinho. Invocou Newton várias vezes: “ação e reação”. Quem batia, levava. Só assim conquistou respeito.

Queria mesmo era matar uma bola no peito, aplicar um balãozinho, estufar a rede. Tocar de letra, dar voleio, matar a sede. Atrás do aro dos óculos, um caso raro de paixão futebolística.

Sacro segredo, o coração redondo. Rafael brigou com os boleiros e caiu nas garras dos CDFs. Difícil falar de futebol perto dos novos amigos. E o risco de ser riscado? As imagens às vezes escapavam, e se pegava perguntando aos nerds se viram o que o Fenômeno fez no fim de semana. Nenhuma surpresa entre eles. Logo conversavam sobre os estragos do El Niño e as causas e efeitos das mudanças climáticas.

Rafael foi se fazendo sombra verde e amarela, dividida entre as leituras e os jogos de futebol da tevê.

Aula de Educação Física, um dia de vingança. Ou de pequenas alianças entre malandros e nerds.  Quem passava cola podia jogar. No gol. O professor não se importava. Trazia a bola e saía feito bala para treinar as meninas do time de vôlei.

Rafael fingia tranquilidade. Um livro selado. Enxergavam dele apenas o colorido da capa. Por dentro um reserva em final de Copa.

O grupinho de nerds se animava. “Vamos jogar algo que valha a pena, Rafael”. E dá-lhe dama, baralho, adedanha, jogo-da-velha. Jogava calado, de luto, quique a quique mais puto. Olhava de banda. A bola rolando... Aquela vontade de bater um tiro de meta com o cú do mundo.

O desejo de jogar virou entrelinha de prova: nas de Matemática, X e Y sempre batiam uma bolinha. Em Geografia, Rafael estacionava nos campos gramados. Nas de Química, calculava a vibração da massa depois de um gol. No teste de Geometria, pintou um ponto no ângulo reto (golaço!).

A salvação veio na degola do professor de Educação Física. Descobriram: ele economizava suor durante as aulas para gastar com as peladas. As do banheiro feminino.

Veio o professor substituto, o Jorginho. Chegou mudando as regras, pondo os malandros com as pregas na mão. “Todos vão jogar de agora em diante”. Os nerds recusaram a oferta, futebol não era o forte deles. Foram obrigados a jogar peteca. Mas Rafael não quis saber de rixa. Tirou os óculos, se aqueceu e entrou na quadra, onde o quadro não era dos melhores, arena de touro bravo.

Bola rolando, partiu para o ataque, mostrar que era artilheiro. Primeiro a marcação pesada, lambada na perna. Tomou falta até de jogador do próprio time.

Resistia. Lançava-se pela lateral, acompanhava os lances, jogador objetivo, mas sem meios. Rafael não recebia bola de ninguém, o toque só vinha em forma de porrada. Virou juiz, mas sem apito, cartões e autoridade. Um jogador-pássaro pedindo o passe, experimentando todas as posições, enquanto os outros, entre risos, encaminhavam a pelota para longe dele.

Mas São Garrincha escreve certo com pernas tortas. De repente a bola espirrou numa dividida e caiu no pé do nerd. Chegou devagar, mansa, para consolar o jogador fantasma. Parou na sola do pé direito, ali mesmo, como um cachorrinho piedoso.

Não sabia o que fazer com ela. Se a tocasse, não mais a teria. Os outros começaram a zombar, achando ser a paralisia nervosismo de perna-de-pau. “Toca aqui, toca aqui”. Todos os garotos pediam a redonda: os do seu time, os adversários, até os goleiros. E ele congelado. Estátua olímpica.

O primeiro oponente foi um valentão metido a bom, mas perneta. Rafael acordou. Protegeu com a direita, puxou com a esquerda: uma caneta. Aí veio o segundo, entrando fundo com a sola do pé. Chutou chão. O nerd levantou a bola, deu um chutinho e emendou o balão.

Dominou no peito, pôs no chão. Ergueu a cabeça, os olhos soltando fagulha. Pedalou pra cima de dois, passou costurando feito motoqueiro-agulha. No final do balé, o goleiro saiu da área. “Me dá essa bola, babaca!”. Passou lotado no drible da vaca. E o gol que o Pelé não fez, o nerd converteu. Depois do chute, de trivela, ela foi morrer no canto esquerdo.

Rafael abandonou o jogo, colocou os óculos. Subiu as arquibancadas para cair nas graças da torcida imaginária. Nem medalha de ouro ou taça, nem placa, nem diploma. O maior troféu de sua vida: aquela partida, o silêncio absoluto que assombrou os colegas.

*eduardosabino@caoseletras.com