sábado, 5 de março de 2011

Tímidos conceitos sobre eugenia











Fernando Portela*

“Cristiano, não”, disse, convicta, a mulher linda (moreno-clara, cabelos loiros caídos sobre os ombros, olhos verdes febris), à sua amiga Fran. E completou: “ele tem problemas na família.”

“Que problemas, Carla?”

Fran: quase tão bonita como a outra, na forma, mas, coitada, não emanava luz. A beleza de Carla era, podia-se dizer, exorbitante. Vestia um fuseau preto que lhe alongava ainda mais as pernas de passarela, e uma camisa aberta ao colo, deixando entrever pequeninos seios buliçosos, ao ritmo dos seus gestos inquietos. Carla falava com o corpo.

“O pai dele é alcoólatra, Fran. Não vou ter filhos de avô alcoólatra.”

“Mas, querida, acredito que você, como eu, tenha também alguns problemas de alcoolismo na sua família... Isso hoje é natural.”

“Não acho. Depois, sou eu que dou as cartas. Eu que financio. Eu que vou parir.”

“Tudo eu.”

“Tudo eu.”

Fran convidou a amiga a sentar-se. Estavam em uma sala de jantar muito ampla, de decoração rica e impessoal. Fran serviu-se de suco de laranja, tirada de uma jarra fina que melhor comporia uma vitrine elegante de Milão. Ofereceu à amiga, com um gesto. Carla não aceitou.

“Pois eu acho, Carla, que você ficou louca. Esse negócio de escolher pai é meio nazista... Isso é eugenia, amiga! Pô, não basta o cara ser bonito, ter um físico privilegiado, uma cabeça razoável?”

“Quem é assim? Se conhecer alguém com esse perfil me apresente.” A modelo continuava tensa. “Lembra do Dalton? Aquele empresário com quem saí no ano passado? Um dos irmãos dele sofria sabe de quê?” Fez uma cara de nojo. “Vitiligo!”

“Mas, Carla...”

“Você já pensou”, continuou a outra, interrompendo, “o meu filho bicolor?”

“Bem, se for por aí, Carla, você não ficará grávida. Todos nós temos um probleminha, uma herança genética menos feliz, um doidinho, ou alcoólatra, toda família é assim, Carla. Sabe, as famílias reais da Europa antiga? Tudo louco por causa de consanguinidade. No entanto, reinaram. Por séculos.”

A modelo levantou-se e decidiu se servir de um pouco do suco. E o fez com enorme graça, como se a simples ação de segurar um copo e virar uma jarra pudesse ser confundida com uma coreografia. A outra a admirou profundamente. “Não se pode ser linda e inteligente ao mesmo tempo”, pensou Fran.

“Eu não estou namorando ninguém da família real, querida”, disse Carla. “Só quero que o meu filho tenha as melhores chances. Você sabe, Fran, que algumas aves fêmeas escolhem os parceiros de canto mais complexo? É a chance dos seus filhos chegarem próximo da perfeição. Eu estou repetindo a Natureza.”

“Mas os machos, além de cantarem bem, são os mais bonitos fisicamente?”

“Isso eu não sei.”

“Então, Carla, se for assim, escolha aquele escritor com quem você andou saindo, sei lá, há dois anos.”

“O poeta. O Talarico.”

“Este! Um grande potencial artístico, um belo trinado. Não esqueça: você é uma ave seletiva.”

“Aquele cara era anormal.”

“Como, anormal?”

“Na hora do vamos ver pedia que eu gritasse.”

“O quê? Ele batia?”

“Não seria homem pra isso. Queria que eu gritasse que estava me afogando.”
“Aí ele salvava você.”

“Não, morria junto. Completamente louco. Dizia coisas sem sentido, ou, pelo menos, fora do meu entendimento. Muito metido.”

“A crítica adora o cara”, suspirou Fran.

Carla, imitando uma “Vênus tecno”, como a havia definido um colunista famoso, abandonou o copo pela metade em cima de uma mesinha e sentou-se na poltrona ao lado de Fran, que logo lhe passou as mãos nos cabelos – de uma suavidade táctil quase espiritual.

“Nossa, Carla, que coisa esse seu cabelo!... São aquelas algas marinhas?”

“Quer mudar de assunto, é? Fran, estou desesperada. Preciso de um filho. Estou na idade ideal e não tenho espermatozoide disponível.”

“Um estrangeiro, talvez?”

“Não sei. É mais complicado. A gente vive no Brasil. Como pode um pai ficar um oceano separado de um filho?”

“Ah, além de reprodutor você quer que o pai seja humano? Que vá ao parque com o moleque? Compre pipoca pra comer com ele no cinema?”

“Claro, Fran.”

Desta vez, Fran olhou para a amiga com muita pena.

“Querida, desista. Nem os tortos, os loucos e os idiotas são capazes disso, hoje em dia. Se conseguir um esperminha tipo correto já está muito bom.”

“Você só diz isso porque não foi feliz no seu casamento, Fran”, começou a choramingar a modelo, extraterrena até na maneira de enxugar os olhos com as costas das mãos. “Mas eu tenho certeza de que vou achar um homem que me faça feliz.”

Fran levantou-se, séria, e recolheu a jarra de suco de cima da mesa. Sempre se preocupava com a amiga, como se ela fosse uma filha quatro anos mais jovem do que ela. Enquanto entrava na cozinha futurista, Fran começou a pensar em Arlindo, seu ex-marido. Alto, bonito, bom-caráter, ela não se lembrava de doenças graves na família dele... Um pouco ingênuo, talvez, mas, não! Isso era uma impressão dela, exclusiva, talvez ele fosse apenas um homem doce. E, quem sabe, uma eventual ingenuidade o levaria a passear com um garoto num parque. Seus olhos brilharam. Arlindo, seu ex-marido, poderia ser, disparado, o melhor candidato!

Do livro “O homem dentro de um cão”, Editora Terceiro Nome (São Paulo, 2007).

*fatportel@gmail.com