<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717</id><updated>2011-11-27T15:20:20.623-08:00</updated><category term='NOVOS NOMES'/><category term='SOLO INSÓLITO'/><category term='CÂMERA SECRETA'/><category term='QUASE SEM MISTÉRIO - Alessandro Faleiro Marques'/><category term='A TELA E O CONTO - Fernando Portela'/><category term='ROENDO A PÁGINA - Cristiano Silva Rato'/><category term='A VERDADE DA MENTIRA - Paulo Lima'/><category term='PALAVRAS ENCALACRADAS - Márcia Barbieri'/><category term='ESTANDARTE - Eduardo Sabino'/><category term='DA BOCA PRA FORA - Joaquim Moncks'/><category term='ARLEQUINAL - Eduardo Sigrist'/><category term='A PRÁTICA NA TEORIA - Márcio Almeida'/><category term='Todas as postagens'/><title type='text'>Caos e Letras</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.caoseletras.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>220</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4456923493742073770</id><published>2011-03-05T16:02:00.000-08:00</published><updated>2011-03-05T16:02:46.357-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ROENDO A PÁGINA - Cristiano Silva Rato'/><title type='text'>O Consolador</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh3.googleusercontent.com/-Tn7zWTnQIqc/TXK6RVBrf-I/AAAAAAAABdE/Nh3jKCNBOrU/s1600/cristiano.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh3.googleusercontent.com/-Tn7zWTnQIqc/TXK6RVBrf-I/AAAAAAAABdE/Nh3jKCNBOrU/s1600/cristiano.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Cristiano Silva Rato*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paranoia – Cap. 1 do livro primeiro.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engraçado trabalharem meu canto. Na esquina afino o riso, rasgo o mau cheiro. Aperto sem perceber o &lt;i&gt;beque&lt;/i&gt; em minhas mãos. Os olhares tentam se sobrepor. A onda. Os pés mexem, ouvindo a música seca das botinas, ao passarem como marchas esquecidas e hinos de guerra. Proclamo agora a nova república. Proclamo agora o novo reinado. Proclamo agora. O feudo moderno. Líquido. Simulado. Instituo nesse momento, por força da maioria, o novo formato já utilizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parado, no ponto, observo um novo bêbado vomitando. A guerra já começou. As correntes começaram a arrastar-se demais. Tornaram-se lágrimas manchando murros. As ruas da cidade estão infestadas por todos os tipos de vigias. Nós somos o inimigo. Firo todos os dias, as notícias produzidas há mais de cem anos sentenciando nosso destino, escuridão. Passo pelo degrau. Escada abaixo. A mão se apóia, como se fizesse diferença com esse sangue escorrendo pelas veias. As ideias foram domadas. As imagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;*&lt;a href="mailto:cristpsilva@gmail.com"&gt;cristpsilva@gmail.com&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4456923493742073770?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4456923493742073770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4456923493742073770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/o-consolador.html' title='O Consolador'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh3.googleusercontent.com/-Tn7zWTnQIqc/TXK6RVBrf-I/AAAAAAAABdE/Nh3jKCNBOrU/s72-c/cristiano.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7657090819844176100</id><published>2011-03-05T16:00:00.000-08:00</published><updated>2011-03-23T18:26:28.248-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A TELA E O CONTO - Fernando Portela'/><title type='text'>Tímidos conceitos sobre eugenia</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh5.googleusercontent.com/-k0HDiSVDUTQ/TXK3oHDu_oI/AAAAAAAABdA/yqXxLQy8mxY/s1600/portela.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh5.googleusercontent.com/-k0HDiSVDUTQ/TXK3oHDu_oI/AAAAAAAABdA/yqXxLQy8mxY/s1600/portela.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fernando Portela*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cristiano, não”, disse, convicta, a mulher linda (moreno-clara, cabelos loiros caídos sobre os ombros, olhos verdes febris), à sua amiga Fran. E completou: “ele tem problemas na família.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que problemas, Carla?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fran: quase tão bonita como a outra, na forma, mas, coitada, não emanava luz. A beleza de Carla era, podia-se dizer, exorbitante. Vestia um fuseau preto que lhe alongava ainda mais as pernas de passarela, e uma camisa aberta ao colo, deixando entrever pequeninos seios buliçosos, ao ritmo dos seus gestos inquietos. Carla falava com o corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O pai dele é alcoólatra, Fran. Não vou ter filhos de avô alcoólatra.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, querida, acredito que você, como eu, tenha também alguns problemas de alcoolismo na sua família... Isso hoje é natural.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não acho. Depois, sou eu que dou as cartas. Eu que financio. Eu que vou parir.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo eu.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo eu.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fran convidou a amiga a sentar-se. Estavam em uma sala de jantar muito ampla, de decoração rica e impessoal. Fran serviu-se de suco de laranja, tirada de uma jarra fina que melhor comporia uma vitrine elegante de Milão. Ofereceu à amiga, com um gesto. Carla não aceitou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois eu acho, Carla, que você ficou louca. Esse negócio de escolher pai é meio nazista... Isso é eugenia, amiga! Pô, não basta o cara ser bonito, ter um físico privilegiado, uma cabeça razoável?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem é assim? Se conhecer alguém com esse perfil me apresente.” A modelo continuava tensa. “Lembra do Dalton? Aquele empresário com quem saí no ano passado? Um dos irmãos dele sofria sabe de quê?” Fez uma cara de nojo. “Vitiligo!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, Carla...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você já pensou”, continuou a outra, interrompendo, “o meu filho bicolor?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bem, se for por aí, Carla, você não ficará grávida. Todos nós temos um probleminha, uma herança genética menos feliz, um doidinho, ou alcoólatra, toda família é assim, Carla. Sabe, as famílias reais da Europa antiga? Tudo louco por causa de consanguinidade. No entanto, reinaram. Por séculos.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A modelo levantou-se e decidiu se servir de um pouco do suco. E o fez com enorme graça, como se a simples ação de segurar um copo e virar uma jarra pudesse ser confundida com uma coreografia. A outra a admirou profundamente. “Não se pode ser linda e inteligente ao mesmo tempo”, pensou Fran. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não estou namorando ninguém da família real, querida”, disse Carla. “Só quero que o meu filho tenha as melhores chances. Você sabe, Fran, que algumas aves fêmeas escolhem os parceiros de canto mais complexo? É a chance dos seus filhos chegarem próximo da perfeição. Eu estou repetindo a Natureza.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas os machos, além de cantarem bem, são os mais bonitos fisicamente?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso eu não sei.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, Carla, se for assim, escolha aquele escritor com quem você andou saindo, sei lá, há dois anos.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O poeta. O Talarico.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Este! Um grande potencial artístico, um belo trinado. Não esqueça: você é uma ave seletiva.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquele cara era anormal.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como, anormal?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na hora do vamos ver pedia que eu gritasse.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O quê? Ele batia?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não seria homem pra isso. Queria que eu gritasse que estava me afogando.” &lt;br /&gt;“Aí ele salvava você.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, morria junto. Completamente louco. Dizia coisas sem sentido, ou, pelo menos, fora do meu entendimento. Muito metido.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A crítica adora o cara”, suspirou Fran. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carla, imitando uma “Vênus tecno”, como a havia definido um colunista famoso, abandonou o copo pela metade em cima de uma mesinha e sentou-se na poltrona ao lado de Fran, que logo lhe passou as mãos nos cabelos – de uma suavidade táctil quase espiritual. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nossa, Carla, que coisa esse seu cabelo!... São aquelas algas marinhas?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer mudar de assunto, é? Fran, estou desesperada. Preciso de um filho. Estou na idade ideal e não tenho espermatozoide disponível.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um estrangeiro, talvez?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei. É mais complicado. A gente vive no Brasil. Como pode um pai ficar um oceano separado de um filho?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, além de reprodutor você quer que o pai seja humano? Que vá ao parque com o moleque? Compre pipoca pra comer com ele no cinema?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro, Fran.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, Fran olhou para a amiga com muita pena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Querida, desista. Nem os tortos, os loucos e os idiotas são capazes disso, hoje em dia. Se conseguir um esperminha tipo correto já está muito bom.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você só diz isso porque não foi feliz no seu casamento, Fran”, começou a choramingar a modelo, extraterrena até na maneira de enxugar os olhos com as costas das mãos. “Mas eu tenho certeza de que vou achar um homem que me faça feliz.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fran levantou-se, séria, e recolheu a jarra de suco de cima da mesa. Sempre se preocupava com a amiga, como se ela fosse uma filha quatro anos mais jovem do que ela. Enquanto entrava na cozinha futurista, Fran começou a pensar em Arlindo, seu ex-marido. Alto, bonito, bom-caráter, ela não se lembrava de doenças graves na família dele... Um pouco ingênuo, talvez, mas, não! Isso era uma impressão dela, exclusiva, talvez ele fosse apenas um homem doce. E, quem sabe, uma eventual ingenuidade o levaria a passear com um garoto num parque. Seus olhos brilharam. Arlindo, seu ex-marido, poderia ser, disparado, o melhor candidato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Do livro “O homem dentro de um cão”, Editora Terceiro Nome (São Paulo, 2007).&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*&lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:fatportel@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;fatportel@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7657090819844176100?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7657090819844176100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7657090819844176100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/timidos-conceitos-sobre-eugenia.html' title='Tímidos conceitos sobre eugenia'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh5.googleusercontent.com/-k0HDiSVDUTQ/TXK3oHDu_oI/AAAAAAAABdA/yqXxLQy8mxY/s72-c/portela.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8159450904616813497</id><published>2011-03-05T15:59:00.000-08:00</published><updated>2011-03-09T09:58:32.554-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='PALAVRAS ENCALACRADAS - Márcia Barbieri'/><title type='text'>Morte no subúrbio: conto em 6 atos</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh3.googleusercontent.com/-DUiAUYbgHzU/TXK2DAsgZ-I/AAAAAAAABc8/E1Xt375jTgw/s1600/marcia_barbieri.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh3.googleusercontent.com/-DUiAUYbgHzU/TXK2DAsgZ-I/AAAAAAAABc8/E1Xt375jTgw/s1600/marcia_barbieri.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;Márcia Barbieri*&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ato 1&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de três meses adiando, começo a réplica de Lucien Freud. Gosto de pintar durante a noite, as sombras deformam os objetos. Homem nu com um rato na mão. Essa tela me excita. Corpo sonolento, membro descansado. Vertigens. Mil coitos interrompidos. Espermas engarrafados. Água rasa. O rato estrangulado entre os dedos. Abro o zíper. Pau duro. Vejo a polpa branca das jabuticabas percorrendo e saciando o desejo do tronco. Encosto a ponta da língua. Amargo. Porra e vermelho carne escorrem pelos meus punhos em apuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ato 2&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me convidou para sair. Éramos confidentes, embora apenas ela falasse por horas, não conhecia sobre nenhum assunto, no entanto, palpitava sobre todos. Era evidente, todo dia me devorava com o olho obsceno da bunda. Fingia não ver, todos viam, não tive como fugir, dissimulei interesse. Ninguém aceita que um homem não coma uma mulher e toda mulher sonha ser bem comida pelo macho que ela escolhe. Em casa, minha mãe perambula pelos cômodos, quer saber se voltarei para dormir. Talvez. Os corpos se saciam rapidamente, apenas o amor tem esse inconveniente de partilhar camas e noites. Tripas de anjos e meninos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ato 3&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfio minha língua em seus lábios. Remexo por dentro dela. Tudo tão diverso. Não me contento. Há sinos repicando em seu útero fértil de puta sagrada. Todos os meus íntimos relógios – anti-horário. Desprezo seus seios, anseio materno. Coloco-a de quatro com força. Volto à infância. Sangue coagulado nos meus joelhos. Muro coberto de cacos de vidro. Os vitrais assumem os mais diversos disfarces. Caio trepando nas árvores. Esfíncter. Quintal de sonhos e merda. Levo-a para casa. Vejo uma triste ternura cambaleando em seus cílios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ato 4&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo me dizia que ele sentia o mesmo que eu. A mesma dor, a mesma vontade de entrega. Quando estávamos perto Ele suava como um animal que traz do nascimento o aniquilamento inevitável da morte. Touros se debatendo nos matadouros. Caio. Não podia mais me enganar, era evidente, desde a primeira vez que o vi. Um anjo barroco do subúrbio. Eu precisava saber. Eu tinha que escutar da boca dele. E escutei: “Você tá louco porra, eu sou homem!!!! Gosto de mulher, sai pra lá bicha du caralho!”. O desafeto é monstruoso. Um peixe engolindo – estuprando o mar. Ventríloquos mudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ato 5&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha maior tortura foi confessar meus crimes aos pés encardidos do seu ouvido. Olhos de cão em agonia. Babas de raiva - hidrofobia. Não posso mais fingir, omitir o que sou para agradar os delírios de perfeição dos outros. Eu sinto tesão por homens. Reprimi por muito tempo essa vontade quase inata. Não dá mais. Eu me iludi com o Caio, mas isso não muda quase nada. Não altera muita coisa. Vou para o Bar da Lôca e faço muito sexo, sem falsos pudores, como sempre sonhei, sem mutilações. Enquanto como outros homens, penso no Caio. O amor é andrógino, um mar povoado de cavalos marinhos. Suas mãos, seus cascos, um resto de sol, cavalgam no meu sexo. Lembro-me o quanto era difícil espantar as moscas que se distraíam ao redor dos seus olhos de cavalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ato 6&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso mais morar aqui. Vou embora. A penumbra agora ocupa o espaço vazio do quarto. A pouca luz que entra pela veneziana escapa pelo buraco da fechadura. Não há grande diferença entre jaulas e janelas. Iago. Iago. Repito exaustivamente até formar um nó cego na garganta. Espero o eco devolver uma imagem sinuosa de mim mesmo. A mala, as frutas esmagadas, o cachorro enterrando ossos. Os olhos da jabuticabeira encravados na minha carne gasta. Pego uma tela. Natureza morta. Hoje eu sei: a saudade é uma morte camuflada e morremos todos os dias na gordura solitária do ralo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;b&gt;&lt;a href="mailto:marcia_barbieri@hotmail.com"&gt;marcia_barbieri@hotmail.com&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8159450904616813497?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8159450904616813497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8159450904616813497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/morte-no-suburbio-conto-em-6-atos.html' title='Morte no subúrbio: conto em 6 atos'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh3.googleusercontent.com/-DUiAUYbgHzU/TXK2DAsgZ-I/AAAAAAAABc8/E1Xt375jTgw/s72-c/marcia_barbieri.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-903094472882362617</id><published>2011-03-05T15:56:00.000-08:00</published><updated>2011-03-10T09:41:48.587-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ESTANDARTE - Eduardo Sabino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Prova verde e amarela</title><content type='html'>&lt;a href="https://lh3.googleusercontent.com/-VK7AAqkzb3U/TXKzbfsH7MI/AAAAAAAABc4/p7VT3-KqrMU/s1600/eduardo.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh3.googleusercontent.com/-VK7AAqkzb3U/TXKzbfsH7MI/AAAAAAAABc4/p7VT3-KqrMU/s1600/eduardo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduardo Sabino*&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem fechava as provas não podia ser camisa dez. Ou o sujeito era passador de cola ou jogador de bola. Na escola valia a lei da lábia dos folgados. O resto era gado, gente que nasceu para ler, decorar e tirar dez. Para os malandros, era assim: quem driblava no recreio não podia entregar a prova lisa. Aí entrava o Caxias. Aquele cuja prova de Biologia sofria meiose, mitose e se multiplicava pelas carteiras. Rafael recusou o cargo na primeira semana de aula, quando se transferiu para aquele colégio. Jamais compartilhou uma resposta. Mesmo com os papeizinhos circulando, os cutucões nas costas. Quando saíram os primeiros resultados de Física, os malandros não aguentaram. Caíram no tapa com o amarradinho. Invocou Newton várias vezes: “ação e reação”. Quem batia, levava. Só assim conquistou respeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria mesmo era matar uma bola no peito, aplicar um balãozinho, estufar a rede. Tocar de letra, dar voleio, matar a sede. Atrás do aro dos óculos, um caso raro de paixão futebolística. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacro segredo, o coração redondo. Rafael brigou com os boleiros e caiu nas garras dos CDFs. Difícil falar de futebol perto dos novos amigos. E o risco de ser riscado? As imagens às vezes escapavam, e se pegava perguntando aos nerds se viram o que o Fenômeno fez no fim de semana. Nenhuma surpresa entre eles. Logo conversavam sobre os estragos do El Niño e as causas e efeitos das mudanças climáticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael foi se fazendo sombra verde e amarela, dividida entre as leituras e os jogos de futebol da tevê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula de Educação Física, um dia de vingança. Ou de pequenas alianças entre malandros e nerds.&amp;nbsp; Quem passava cola podia jogar. No gol. O professor não se importava. Trazia a bola e saía feito bala para treinar as meninas do time de vôlei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael fingia tranquilidade. Um livro selado. Enxergavam dele apenas o colorido da capa. Por dentro um reserva em final de Copa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupinho de nerds se animava. “Vamos jogar algo que valha a pena, Rafael”. E dá-lhe dama, baralho, adedanha, jogo-da-velha. Jogava calado, de luto, quique a quique mais puto. Olhava de banda. A bola rolando... Aquela vontade de bater um tiro de meta com o cú do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desejo de jogar virou entrelinha de prova: nas de Matemática, X e Y sempre batiam uma bolinha. Em Geografia, Rafael estacionava nos campos gramados. Nas de Química, calculava a vibração da massa depois de um gol. No teste de Geometria, pintou um ponto no ângulo reto (golaço!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A salvação veio na degola do professor de Educação Física. Descobriram: ele economizava suor durante as aulas para gastar com as peladas. As do banheiro feminino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio o professor substituto, o Jorginho. Chegou mudando as regras, pondo os malandros com as pregas na mão. “Todos vão jogar de agora em diante”. Os nerds recusaram a oferta, futebol não era o forte deles. Foram obrigados a jogar peteca. Mas Rafael não quis saber de rixa. Tirou os óculos, se aqueceu e entrou na quadra, onde o quadro não era dos melhores, arena de touro bravo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bola rolando, partiu para o ataque, mostrar que era artilheiro. Primeiro a marcação pesada, lambada na perna. Tomou falta até de jogador do próprio time.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resistia. Lançava-se pela lateral, acompanhava os lances, jogador objetivo, mas sem meios. Rafael não recebia bola de ninguém, o toque só vinha em forma de porrada. Virou juiz, mas sem apito, cartões e autoridade. Um jogador-pássaro pedindo o passe, experimentando todas as posições, enquanto os outros, entre risos, encaminhavam a pelota para longe dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas São Garrincha escreve certo com pernas tortas. De repente a bola espirrou numa dividida e caiu no pé do nerd. Chegou devagar, mansa, para consolar o jogador fantasma. Parou na sola do pé direito, ali mesmo, como um cachorrinho piedoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia o que fazer com ela. Se a tocasse, não mais a teria. Os outros começaram a zombar, achando ser a paralisia nervosismo de perna-de-pau. “Toca aqui, toca aqui”. Todos os garotos pediam a redonda: os do seu time, os adversários, até os goleiros. E ele congelado. Estátua olímpica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro oponente foi um valentão metido a bom, mas perneta. Rafael acordou. Protegeu com a direita, puxou com a esquerda: uma caneta. Aí veio o segundo, entrando fundo com a sola do pé. Chutou chão. O nerd levantou a bola, deu um chutinho e emendou o balão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dominou no peito, pôs no chão. Ergueu a cabeça, os olhos soltando fagulha. Pedalou pra cima de dois, passou costurando feito motoqueiro-agulha. No final do balé, o goleiro saiu da área. “Me dá essa bola, babaca!”. Passou lotado no drible da vaca. E o gol que o Pelé não fez, o nerd converteu. Depois do chute, de trivela, ela foi morrer no canto esquerdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael abandonou o jogo, colocou os óculos. Subiu as arquibancadas para cair nas graças da torcida imaginária. Nem medalha de ouro ou taça, nem placa, nem diploma. O maior troféu de sua vida: aquela partida, o silêncio absoluto que assombrou os colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;*&lt;/b&gt;&lt;a href="mailto:eduardosabino@caoseletras.com"&gt;&lt;b&gt;eduardosabino@caoseletras.com&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-903094472882362617?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/903094472882362617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/903094472882362617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/prova-verde-e-amarela.html' title='Prova verde e amarela'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh3.googleusercontent.com/-VK7AAqkzb3U/TXKzbfsH7MI/AAAAAAAABc4/p7VT3-KqrMU/s72-c/eduardo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4984639336837295069</id><published>2011-03-05T15:55:00.000-08:00</published><updated>2011-03-05T15:55:43.656-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='DA BOCA PRA FORA - Joaquim Moncks'/><title type='text'>Memória e poeira</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh5.googleusercontent.com/-W5eLCWoutK8/TXKnDuJE3GI/AAAAAAAABc0/ub7nhGLUotg/s1600/joaquim.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh5.googleusercontent.com/-W5eLCWoutK8/TXKnDuJE3GI/AAAAAAAABc0/ub7nhGLUotg/s1600/joaquim.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Joaquim Moncks*&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta é o natural caricaturista dos viventes bem sucedidos e faz a sua alegoria em cima do dinheiro que não acredita bem havido. É a seta que fere os todo-poderosos da ordem econômica de sua época. Acredita que pode virar pra melhor o estado de coisas. Este ser espiritual é o bobo-da-corte em qualquer idade... Tão inútil quanto diretamente inofensivo. A inutilidade imanente à Poesia faz com que ele seja tolerado como um cão desdentado que ladra a mais não poder. “... Deitei fora a máscara e dormi no vestiário/ Como um cão tolerado pela gerência/ Por ser inofensivo...”, lavrou F. Pessoa (Álvaro de Campos) em seu monumental “Tabacaria”, poema de 1928. A esse ser analítico compete a sátira bem ou mal-humorada dos costumes de seu tempo de viver. Nos momentos difíceis de falta de liberdade, os ditadores de plantão os condenam à morte ou ao exílio. E tentam safar da memória do povo os seus agora nem tão inúteis recados. E é no tempo do devir que ficarão alguns na memória de seus contemporâneos. De muitos nada restará. Nem poeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;– Do livro &lt;i&gt;O novelo dos dias&lt;/i&gt; (2010/11)&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;b&gt;&lt;a href="http://joaquimmoncks@gmail.com%20/"&gt;joaquimmoncks@gmail.com &lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4984639336837295069?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4984639336837295069'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4984639336837295069'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/memoria-e-poeira.html' title='Memória e poeira'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh5.googleusercontent.com/-W5eLCWoutK8/TXKnDuJE3GI/AAAAAAAABc0/ub7nhGLUotg/s72-c/joaquim.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7464250381398678270</id><published>2011-03-05T15:54:00.000-08:00</published><updated>2011-03-05T15:54:24.353-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SOLO INSÓLITO'/><title type='text'>Do corpo e da alma</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh3.googleusercontent.com/-23rZ0_7zDlw/TXKke_ottqI/AAAAAAAABcw/2tW8jAJucoY/s1600/jose_carlos_sibila.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh3.googleusercontent.com/-23rZ0_7zDlw/TXKke_ottqI/AAAAAAAABcw/2tW8jAJucoY/s1600/jose_carlos_sibila.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;José Carlos Sibila*&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Honório Junqueira era o nome dele. Todo mundo conhecia Seu Honório naquela cidadezinha. Mais afazeres não tinha, vivia de uma considerável herança de família e como a sorte não chega pouco, ainda ganhava um bom dinheiro com o leite da fazenda que era vendido em toda a região. O leite vinha da vaca, que engordava com o capim que vinha da terra. Tudo assim, de mão beijada. Mas não era pessoa de grande ostentação. Vivia recluso em seu casarão. O povo dizia que dentro daquela casa velha, que de idade já ia para mais de cem, tinha pelo menos umas&amp;nbsp; trinta pessoas, mas ele jurava que ali só vivia ele e sua esposa, Dona Cota, como era conhecida por todos. O sobrenome dela, antes de ser Junqueira, ninguém sabia. E ela nem fazia questão de informar. Dizem que nem ela mesma sabia. - Pra que mais nome - dizia ela - se os dois que tenho são mais que suficientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o fato é que Dona Cota tinha viajado até a capital para fazer um tratamento de saúde. Era a maldita asma, que piorava com a mudança do tempo e a insistência da poeira que cobria a cidadezinha de meia dúzia de ruas de terra batida. Nos dias que a boiada passava ou que a jardineira 1929 vinha trazer comerciantes, então é que a asma da esposa do Seu Honório ia mesmo ficar ruim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro dias de viagem até a capital, com outros tantos para voltar, mais os dez que lá ficou, somaram dezoito na matemática do esposo. Mas só na matemática, pois que na solidão e na saudade os dezoito pularam para a eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o dia da volta havia chegado. Seu Honório fez exceção ao seu recato e chamou até uma bandinha para tocar na porta de entrada do casarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os músicos, que eram todos das redondezas vinham chegando, cada um carregando seu instrumento. A tuba foi a primeira e foi logo se afinando. Sem mais tardar o surdo respondeu. A flauta logo ajuntou e o violino não se fez de rogado. Os pratos estalaram e as notas começaram a animar a entrada do edifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro só mesmo Seu Honório, apreciando alegremente o burburinho, tentando acalmar sua ansiedade pela chegada da esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo corria como o certo estabelecido até que se ouviu uma voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estou gostando dessa gentarada aqui não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Honório quase caiu da cadeira de balanço, que insistia em enxergar a estrada no horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem falou isso? Resmungou com raiva pela insolência do intruso e medo daquela voz que lhe soou familiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Fui eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas eu quem homem de Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eu, Honório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas Honório sou eu. E não me lembro de ter mais alguém com esse nome aqui na cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai me desculpar - acrescentou a voz - mas eu sou Honório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Honório do que? - Perguntou Seu Honório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Honório Junqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas o que está acontecendo? Você entrou aqui sem ser convidado, fica escondido que eu não te vejo com os olhos, usa meu nome e ainda quer o nome da minha família?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo isso que você falou é meu, não seu- respondeu o outro Honório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Olha aqui seu atrevido. Cai fora logo que eu estou esperando minha esposa e não quero ninguém para estragar minha satisfação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado de fora, os músicos e os mais chegados viam apenas o Seu Honório falar sozinho, gesticulando e esbravejando sabe-se lá com quem. O certo é que já começavam a ficar com medo, pois na cidade não havia um único vivo que não achava que na casa tinham uns que eram mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você que vá esperar em outra parada, pois aqui é o meu lugar de espera e a recepção hoje quem vai fazer sou eu. - falou aquela voz que parecia tão doméstica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem você está esperando?- questionou Seu Honório -.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você, a quem está esperando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha esposa, que há muito tempo não vejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E eu estou esperando a minha, que há muito tempo também não vejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vai me dizer que ela viajou para tratamento médico?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Asma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas quem foi tratar da asma foi a minha- esbravejou Seu Honório de tal forma que na rua não ficou mais ninguém e a boataria pegou carona no vento e subiu cidade afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A asma é democrática, não pertence a uma pessoa só.&amp;nbsp; respondeu a voz mantendo a serenidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas aqui nessa casa só uma pessoa tem asma e é uma mulher e essa mulher é minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas se a casa é minha por que sua mulher viria ter asma na minha casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Olha aqui - falou Seu Honório tentando se acalmar - A asma é da minha mulher, a mulher é minha, a casa é minha e faça-me um favor, ou você vai embora ou me arranja uma idéia que me explique o que está acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só pode ser uma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois falaram juntos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Estamos falando da mesma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O nome da minha é Cota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O sobrenome da minha é Junqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas esse é o sobrenome da minha Cota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E Cota é o primeiro nome da minha Junqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então nós dois estamos casados com a mesma mulher há mais de trinta anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É desajuizado. Se fosse uma amante ainda vá lá. Mas ela viveu comigo como esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E comigo também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas como pode, enganar a dois homens durante mais de trinta anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E embaixo do mesmo teto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Honório fez uma longa pausa e de súbito resolveu olhar pela janela. Virou-se para os dois lados da rua e não viu mais ninguém, nem mesmo os músicos. Como se tivesse achado o acontecido voltou-se para o seu interlocutor invisível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Descoberto. Você é um fantasma. Não sobrou ninguém na rua, nada, só as moscas e uma cadela vira-lata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então só pode ser isso, Fantasma. Você é um fantasma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Fantasma eu não sou, pois ainda não morri. Vai lá no cemitério e procura o túmulo de Honório Junqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei que com esse nome eu não vou encontrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro, e é porque eu ainda não morri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, não é por isso. É porque Honório Junqueira sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Como pode ser você se sou eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Espera- falou o invisível- Você pode me ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Se tivesse você sob meus olhos já tinha te matado- Respondeu Seu Honório-.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu estou te vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso só pode ser uma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Exatamente, então eu devo ser sua alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E eu o seu corpo. Bem, isso resolve o nosso problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Cotinha não me traiu. Ela é minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De jeito nenhum. É a alma que manda no corpo, portanto a Cotinha é minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou corpo, é minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ela é da alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois continuaram naquela discussão e nem perceberam que Dona Cota Junqueira havia chegado e ao ver que seu marido gritava com alguém que ela não podia ver e dava socos no ar tentando atingir o invisível, saiu correndo e foi se juntar aos outros habitantes que estavam todos na igreja rezando pelas almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;b&gt;José Carlos Sibila é roteirista e diretor do longa-metragem Eva e de vários curtas-metragens, incluindo &lt;i&gt;O Grito da Terra&lt;/i&gt;, um vídeo ficcional com a temática dos sem-terra. Autor de peças teatrais, entre as quais &lt;i&gt;Teto de Lona&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Proteu&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;A eleição da mãe de Jesus&lt;/i&gt;, que já foram encenadas. Autor dos livros &lt;i&gt;Criaturas (Editora Nativa) &lt;/i&gt;e&amp;nbsp; Personagens (Virtuallibrii), entre outros. &lt;i&gt;E-mail&lt;/i&gt;:&lt;a href="http://jcsibila@yahoo.com.br/"&gt; jcsibila@yahoo.com.br&lt;/a&gt;.&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7464250381398678270?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7464250381398678270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7464250381398678270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/do-corpo-e-da-alma.html' title='Do corpo e da alma'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh3.googleusercontent.com/-23rZ0_7zDlw/TXKke_ottqI/AAAAAAAABcw/2tW8jAJucoY/s72-c/jose_carlos_sibila.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2382259108646153746</id><published>2011-03-05T15:53:00.000-08:00</published><updated>2011-03-10T05:52:49.152-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A PRÁTICA NA TEORIA - Márcio Almeida'/><title type='text'>A morte de Deus, de Cristo e do homem</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh4.googleusercontent.com/-Pv-7ttkNEE4/TXKfzlrPxXI/AAAAAAAABcs/OM0qZiw7Zx4/s1600/marcio_almeida.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh4.googleusercontent.com/-Pv-7ttkNEE4/TXKfzlrPxXI/AAAAAAAABcs/OM0qZiw7Zx4/s1600/marcio_almeida.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;Márcio Almeida*&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;"Ai dos homens que matam a morte por medo da vida!" - Vinicius de Moraes&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A Semana Santa é o evento em cuja ocasião o ser humano se reconhece insignificante dada sua finitude. Se ao morrer Cristo desencarna a própria eternidade do homem, morrer é o sentido da vida. A morte do homem Cristo sacraliza a vida eterna. O homem é mortal, ou seja, o homem é a morte que se espera. Frente ao impasse apocalíptico de a morte ser inapelável, invencível, então o que resta ao homem é morrer em paz – livrar-se do inferno da vida, da angústia da finitude, do sentimento de culpa que condena a vida a ser para sempre um eterno castigo. Daí poder se perguntar: ser eterno para quê? Porque a eternidade é a “certeza inacessível”, pois, pelo contexto religioso, a morte não deixa a vida para trás. Ela leva junto uma certeza: só Deus é insubstituível. Para haver eternidade é preciso crer na própria morte, pois para a vida eterna a morte é o próprio sentido da imolação de Cristo aos homens. Há que pensar, porém, em algo mais profundo do que a morte em função de uma “eternidade preguiçosa”, incapaz de provocar transformação universal. Porque o homem não nasce para simplesmente morrer em meio a um círculo vicioso, ou para, após morto, ser sêmen de nada. A menos que se pense como Pascal, para quem a morte é “soberba potência”, que “faz da eternidade um nada e do nada uma eternidade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fé tem que justificar a eternidade do homem enquanto o homem vive, tal como fez Cristo. Porque Deus nada faz para o homem ser eterno. A morte é a possibilidade desse privilégio. “O medo da morte é a origem de Deus” (M.Blanchot). Por isso é preciso morrer bem, com decência, com ética, fiel a si mesmo, com uma predestinação feliz. A mesma divinamente decantada com&amp;nbsp; perfeição poética latina pelo Doutor Angélico São Tomás de Aquino em seu hino entoado no Sábado da Aleluia: "Oh culpa feliz que nos fez merecer tal e tanto redentor". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte de Cristo reafirma a grandeza da vida por superar a tragédia de tudo que limita e escraviza. Epicuro disse: “Se tu és, então a morte é.” A morte é assim a “purificação da ausência”. Ela é, a partir de Nietzsche, a potência do negativo, porque, ele diz na fala de Zaratustra, “o homem é algo que deve ser superado.” A morte é a “profundidade hiante”, de que fala Mallarmé, ou seja, a superação do que anula a resignação na luta do homem em meio às incertezas de sua vida ser um abismo para cima. Por isso Rilke escreveu ser preciso “reforçar a familiaridade confiante na morte a partir das alegrias e dos esplendores mais profundos da vida.” Annie Rottenstein pontua que há cerca de 60 mil anos a.C nasceu o &lt;i&gt;homo sapiens sapiens&lt;/i&gt; com dupla sabedoria: a de saber transmitir o seu conhecimento e saber que vai morrer. E que por essas razões a consciência da morte tornou-se, para sempre, o eixo civilizador da humanidade, sendo também o que justifica os mitos e ritos como busca de respostas para explicar a ânsia de sentido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os efeitos da morte de Cristo hão que suplantar a ingenuidade dogmática de uma salvação do pecado, ainda que, segundo Atos, 2:23, a morte de Cristo obedeça a um determinado conselho e presciência de Deus. Para ser perfeito e reinar absoluto, sustentava Perseu, discípulo de Zenão, Deus nem precisa existir, pois Deus não pode ser maniqueísta como os homens, porque Deus não condena nem absolve - essas ações são típicas da mesquinhez humana baseadas em leis transgredidas a todo momento. A deslegitimação é o que provoca o caos na ordem de Deus, mas antes, no cotidiano humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No culto hebreu, havia um lugar chamado de propiciatório, onde o sacerdote colocava o sangue do cordeiro para implorar a Deus perdão para os homens de má vontade. Hoje, o propiciatório está no sangue derramado pelos crimes que matam inocentes nas ruas, na violência doméstica dos lares, nas guerras étnicas e religiosas. Está na realidade de quem morre simplesmente de fome, na pressão psicopata dos suicidas, na corrupção sacana dos sanguessugas que vivem (bem) sugando o sangue alheio. Está na imagem mórbida das prisões, cuja superlotação comprova os reflexos das (in)diferenças sociais. “Cada qual morrerá por sua própria maldade” (Jeremias, 31:30). Ao se tornar Redentor, cuja palavra significa &lt;i&gt;o que resgata a dignidade da vida&lt;/i&gt;, Cristo cumpre uma missão&lt;i&gt; humana&lt;/i&gt;, antropológica – a de ligar o homem ao homem – soteriológica – a de salvar a humanidade do caos absoluto. E, ao fazê-lo, segundo reflexão de Rilke, Cristo torna real “realizar a maior consciência possível de nossa existência.”&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sagrado aquele que não se profana. Hegel tem razão: ”Com a morte começa a vida do espírito.” Sexta-Feira da Paixão: Deus está morto. Graças a Deus. Amém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ps.: além das Bíblias, quem estiver a fim de se enriquecer em nível de conhecimento a respeito da morte, recomenda-se ler: &lt;i&gt;Como deixei de ser Deus&lt;/i&gt;, de Pedro Maciel; &lt;i&gt;O espaço literário&lt;/i&gt;, de Maurice Blanchot; &lt;i&gt;A morte do homem comum&lt;/i&gt;, de Philip Roth; &lt;i&gt;Elegias&lt;/i&gt;, de Rainer Maria Rilke, &lt;i&gt;Ecce homo&lt;/i&gt;, de Nietzsche; &lt;i&gt;A morte de Ivan Ilitch&lt;/i&gt;, de Liev Tostói; &lt;i&gt;História da morte no Ocidente&lt;/i&gt;, de Philippe Aires; &lt;i&gt;Biotanatologia e bioética&lt;/i&gt;, de Evaldo Dassunção; &lt;i&gt;Morte&lt;/i&gt;, de William Butler Yeats; &lt;i&gt;Igitur&lt;/i&gt;, de Mallarmé, entre outros.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;b&gt;&lt;a href="mailto:marcioalmeidas@hotmail.com"&gt;marcioalmeidas@hotmail.com&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2382259108646153746?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2382259108646153746'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2382259108646153746'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/morte-de-deus-de-cristo-e-do-homem.html' title='A morte de Deus, de Cristo e do homem'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh4.googleusercontent.com/-Pv-7ttkNEE4/TXKfzlrPxXI/AAAAAAAABcs/OM0qZiw7Zx4/s72-c/marcio_almeida.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-6372048610034069338</id><published>2011-03-05T15:52:00.000-08:00</published><updated>2011-03-17T10:29:58.223-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='QUASE SEM MISTÉRIO - Alessandro Faleiro Marques'/><title type='text'>Tiririca, o Sério</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh4.googleusercontent.com/-sUu73kYWtJY/TXKcZSCsWVI/AAAAAAAABco/L-aCeB8WPyI/s1600/alessandro_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh4.googleusercontent.com/-sUu73kYWtJY/TXKcZSCsWVI/AAAAAAAABco/L-aCeB8WPyI/s1600/alessandro_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Alessandro Faleiro Marques*&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez pela costumeira falta de foco, incompetência ou por “ordens superiores”, a imprensa nacional e até a estrangeira estão apontando excessivamente os holofotes para o deputado federal que mais ganhou votos no Brasil, o Dr. Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca. Nos últimos dias, as jocosidades diárias ganharam fôlego depois de o Dr. Tiririca estrear na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Logo ele, dizem alguns, suspeito de ser analfabeto e ter de passar por um exame para comprovar o conhecimento da língua que ele e nós usamos desde pequeninos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Carta de 1988 reforçou o direito de cidadãos se candidatarem a cargos eletivos, respeitados alguns requisitos. Jornalistas, comentaristas e pseudointelectuais estão com as lentes viradas para um único lado. Doutor Tiririca, sustentado pela norma legal e moral, apenas exerceu seu direito. Candidatou-se e foi votado. A maioria de nós tem essa prerrogativa. Por parte desse artista, não houve coação de eleitores, abuso de poderes econômico e político, sequer tinha a ficha suja (pelo menos até agora).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que fazer chacota do parlamentar, os palpiteiros, profissionais ou não, deveriam começar a analisar quem o mandou para Brasília: as centenas de milhares de eleitores paulistas, muitos certamente nascidos nos mais diversos cantos deste País. Gente que desconhece a importância do processo democrático e vota por votar. Pela democracia é que estamos assistindo ao sangue jorrar em várias partes do mundo, em especial no Oriente Médio e Norte da África. Brincar com ela é zombar, e isso não tem graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua Excelência disse que defenderá os direitos dos palhaços e apoiará a causa dos circos. Lembro-me de que o caos em que se encontravam esses locais de diversão foi tema até de um Globo Repórter. Alguém tem dúvidas de que o espetáculo circense é uma louvável face de nossa cultura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Questiono os motivos de não haver o mesmo rigor com outros políticos, inclusive os escolhidos em outros tempos. Os palácios por este Brasil estão cheios de “artistas”. De dono de castelo encantado a driblador, dos que se acham deuses, grandes dançarinos ou cantores aos sonhadores (talvez estes sejam até necessários), dos mágicos aos vilões. Numa democracia, deve-se lembrar de quem foi votado e de quem votou, e ambos devem cobrar e serem cobrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doutor Tiririca, à Vossa Excelência os meus respeitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*&lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:faleimar@hotmail.com"&gt; &lt;b&gt;faleimar@hotmail.com&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-6372048610034069338?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6372048610034069338'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6372048610034069338'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/tiririca-o-serio.html' title='Tiririca, o Sério'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh4.googleusercontent.com/-sUu73kYWtJY/TXKcZSCsWVI/AAAAAAAABco/L-aCeB8WPyI/s72-c/alessandro_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-6028625590423185060</id><published>2011-03-05T15:50:00.000-08:00</published><updated>2011-03-05T15:50:42.653-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='NOVOS NOMES'/><title type='text'>Muitos de nós</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh5.googleusercontent.com/-b-uTuSSz5ew/TXKOIN4euBI/AAAAAAAABck/EhpDPUmDBls/s1600/rafael_cunha.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh5.googleusercontent.com/-b-uTuSSz5ew/TXKOIN4euBI/AAAAAAAABck/EhpDPUmDBls/s1600/rafael_cunha.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;*Rafael Alves Cunha &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;No meio do caminho havia uma ratazana. Passou como um raio por uma senhora, fez um bêbado tropeçar, foi chutada por um estudante e, mesmo assim, alcançou a sarjeta. O odor transformava o banco do ponto de ônibus em um objeto sem utilidade. As pessoas se concentravam próximas ao semáforo. Nem tão perto da sarjeta que ficassem enjoadas, nem tão longe que, vez ou outra, não fossem obrigadas a prender a respiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andamos por todas as ruas. Barzinhos, sebos, &lt;i&gt;shoppings&lt;/i&gt;, lanchonetes, boates e puteiros. Talvez exista diversão no purgatório para quem tenha tempo para gastar. Nós, os passageiros da barca de rodas, nesta manhã de agosto, no carro 4062, não temos mais tempo. Já vendemos tudo. Trocamos nossas horas por palavras e ferramentas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudar e trabalhar. Não nos diga que isso não é vida. Já sabemos: a vida está nas páginas do livro de autoajuda. Não é mais &lt;i&gt;segredo&lt;/i&gt; para ninguém. É dádiva dos vitoriosos e um dia venceremos também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ônibus lotado, de segunda a sexta. Os semblantes amarrotados, olhos vazios. Ninguém olha pela janela, não há nada para se enxergar além de calçadas, mendigos e prostitutas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nossos olhos emitem qualquer coisa fugaz, nascem e morrem a cada&lt;i&gt; outdoor&lt;/i&gt;. As propagandas sempre falam de coisas e lugares feitos para nós e fora de nosso alcance. Essa distância aperta o peito. Vem a angústia, dá vontade de ser mais.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos operários por nossa própria natureza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correria de olhos em livros, a despeito do trânsito empacado. Capital intelectual, não é o que dizem? Acompanhar as mudanças, aprender. Nem precisamos mais pensar em revoluções. Basta&amp;nbsp; criar a força positiva para ascender no sistema. Subiremos de classe como um foguete aos céus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos pareados, espalhados pelo corredor, pressionados contra a vidraça. Corpos lutando contra a Física, cada qual brigando por um lugar no espaço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desiguais em espírito, poderíamos criar um sistema igualitário? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos as cabeças abertas para receber o conhecimento. No despejo da terra fértil não deve vir tanto entulho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A massa do bolo humano se torna maior a cada ponto. Antes do centro da cidade ninguém vai descer. A buzina adormece nos ouvidos. Não incomoda mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só queremos chegar em casa logo. Só queremos que chegue a sexta-feira com todas as suas promessas. Agora estamos numa pior. Mas estamos anotando tudo o que eles estão dizendo. Para quem está sentado não é difícil fechar os olhos e dormir. Poucos de nós preferem encarar a estrada congestionada. Os que o fazem têm o olhar distante como um sonho. Quando estivermos lá em cima, olharemos dessa maneira para tudo o que estiver embaixo.&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;Rafael Alves Cunha é universitário e aprendiz de escritor. Reside em Belo Horizonte-MG. Contato: &lt;a href="mailto:rafelalvescunha@yahoo.com.br"&gt;rafelalvescunha@yahoo.com.br&lt;/a&gt;.&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-6028625590423185060?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6028625590423185060'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6028625590423185060'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/03/muitos-de-nos.html' title='Muitos de nós'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh5.googleusercontent.com/-b-uTuSSz5ew/TXKOIN4euBI/AAAAAAAABck/EhpDPUmDBls/s72-c/rafael_cunha.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2826622155089688872</id><published>2011-02-06T14:33:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:33:35.215-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Pires</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7nRhjKmFI/AAAAAAAABZY/oaMTxtSiO1g/s1600/carla.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7nRhjKmFI/AAAAAAAABZY/oaMTxtSiO1g/s1600/carla.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Carla Giffoni*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é um pires. Um pires que não faz parte de nenhum conjunto. Não tem como família nenhum bule de café, nenhuma xícara ou açucareiro. Não é sequer par de um pequeno bule de leite. Não tem ninguém para lhe fazer companhia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um pires bonito. Não excepcional. Isso não. Mas é um simpático pires que está ali na feira&lt;em&gt; hippie&lt;/em&gt;, dessas que vendem quinquilharias antigas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pires solitário com ar de quem não foi criado na pós-pós-&lt;em&gt;mudernidade&lt;/em&gt;. Nasceu num mundo em que o conceito de &lt;em&gt;designer&lt;/em&gt; sequer tinha sido pensado. Um mundo artesanal em que o bonito era bonito e pronto. A feiúra não era nunca considerada como sendo bela, e as pessoas carregavam certezas absolutas que mudavam instantaneamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Branco, com pequenos detalhes dourados, esses aspectos lhe dão um jeito de nobreza decadente. Não é um pires feminino, desses que as mulheres da elite econômica usam ao se reunirem com as amigas para tomar chá e falar das últimas modas na Europa enquanto a guerra campeia nas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, ele certamente não é um pires que se sirva para esses fins. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe com seus ares de aristocrata empobrecido não tenha sido par de um conjunto cujo dono fosse um grande intelectual? São conjecturas que ninguém tem certeza se são verdades ou mentiras. Mas olhar aquele pires, tristemente solitário, faz qualquer pessoa levantar suas suspeitas. Afinal o que aconteceram aos seus pares?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem foi seu dono?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde vem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para onde vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntas que fazem parte da natureza do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pires não dá respostas. Mas é possível imaginar sua existência solitária, seu jeitão encalhado a olhar quem passa com a certeza de que dificilmente será comprado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ainda fosse um prato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não. É apenas um simples pires com um passado desmemoriado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém falará: Getúlio Vargas bebeu nesse pires. Ou, princesa Isabel comeu nesse pires. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste é a sina de quem é pires na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nasceu para ser par, mas a existência lhe fez uno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem poderá dizer seu destino?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será vendido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficará encalhado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou algum gato mais desavisado passará por ali, esbarrando nele e levando-o ao chão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil pedaços quebrados. Fragmentos de uma história que ninguém contou se perdendo entre os paralelepípedos da rua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;*Carla Giffoni tem&amp;nbsp;16 anos de experiência como jornalista atuando nas Editorias de Política, Polícia, Cultura e Cidades, revistas, &lt;em&gt;sites&lt;/em&gt;, jornais e emissora de TV. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo. Aluna do curso de Letras/Formação de Escritor da PUC-RJ. Contato: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:carlagiffoni@yahoo.com.br" target="_blank"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: #cc3300;"&gt;carlagiffoni@yahoo.com.br&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2826622155089688872?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2826622155089688872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2826622155089688872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/pires.html' title='Pires'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7nRhjKmFI/AAAAAAAABZY/oaMTxtSiO1g/s72-c/carla.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2724696042285932613</id><published>2011-02-06T14:32:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:32:18.361-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A TELA E O CONTO - Fernando Portela'/><title type='text'>Pequenos milagres sem registro</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7ku7OJ82I/AAAAAAAABZU/d9IIeDpX8PA/s1600/portela.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7ku7OJ82I/AAAAAAAABZU/d9IIeDpX8PA/s1600/portela.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fernando Portela*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Martha Gallego Thomaz&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns meses antes, eu nem teria me concentrado e posto a mão sobre a cabeça da criança, pedindo a Deus que a fizesse retornar à vida. Não ousaria. Mas a expressão da menina, que devia ter uns oito anos e parecia muito mal, me comoveu. Esquálida, largada no catre, revirava os olhos como se ensaiasse a própria morte. O pai, um desempregado, chorava baixo; a mãe e a avó, muito alto – a avó me pareceu histérica; os irmãos, todos mais velhos do que a menina, brincavam de alguma coisa dentro do barraco imundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o meu toque, a menina fechou os olhos (“morreu”, eu imaginei), ficou assim uns dez minutos, aspirando pesadamente, depois acalmou a respiração, os olhos se abriram e ela, até com uma certa agilidade, se sentou na cama. Olhou para mim e para os pais, sorriu e disse: “estou boa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso: foi uma grande surpresa, tanto para mim quanto para os pais da criança, vizinhos e amigos. Era o terceiro milagre. Eu conseguira reviver um velhinho, um mês antes, quando ainda andava pelo Paraná. Ele se engasgara com um pedaço de bife, coitado, talvez pela ansiedade com que engoliu a comida, coisa rara. Estava roxo e já não respirava, quando cheguei. Levantei-lhe meio corpo, no seu colchão fedido, bati-lhe nas costas, ele cuspiu longe o pedaço de carne, teve um ataque de tosse, e voltou, reclamando. “Cadê meu prato? Cadê meu prato?” Eu e os circundantes não pudemos deixar de rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E há três dias, nessa mesma estrada que dá acesso aqui, à favela, fiz levantar um sujeito destroçado, dentro de um fusca, que uma jamanta havia jogado longe e nem parara para conferir. A mãe dele me pediu intercessão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu Thomaz”, ela disse, agarrando-me pelo braço, “eu já soube da sua fama, sei que o senhor cura os doentes e faz com que os mortos voltem à vida. Meu filho não se mexe dentro do carro dele, destruído lá na estrada. A mulher dele está grávida do segundo neném, é uma moça doente, e eu não tenho como sustentá-los. Eu sei que ele saiu bêbado com o carro, mas é um bom rapaz e merece uma chance.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode deixar, dona, se Deus quiser ele se salva.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas é o senhor quem tem de fazer a intermediação.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz parecia, realmente, um monte de carne sangrenta, preso às ferragens do fusca. Me concentrei e pedi. “Jesus, quantas vezes o senhor não fez isso durante sua passagem pela Terra? Atenda aquela mãe e faça este rapaz voltar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, o que era carne sangrenta virou apenas ferimentos profundos, o rapaz se mexeu e conseguiu se livrar dos ferros. As pessoas que estavam perto, inclusive o guarda rodoviário que já chamara a ambulância, fizeram o sinal da cruz. “Quem é você?”, o guarda me perguntou, a expressão atemorizada. “Um andarilho”, respondi. “Meu nome é Thomaz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, foi a vez de curar a menina quase morta na favela. A avó perturbada ajoelhou-se aos meus pés e agradeceu, soluçando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor é o nosso milagreiro!”, ela gritava, e eu me senti contrafeito, pois as pessoas começaram a me tocar e a pedir graças. Duas mocinhas queriam casar, um rapaz implorou apenas um emprego, “qualquer coisa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu preciso ser forte, Senhor, para suportar essa prova”, disse a mim mesmo, sentindo medo. “Sou imperfeito demais para imaginar que posso, de fato, ser veículo de um poder divino.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, as pessoas foram se afastando, ainda reverentes, e eu fui obrigado a me livrar, com um empurrão, de um sujeito seboso que me veio pedir reza para ganhar uma empreitada. “Sai de mim, cara!”, foi apenas o que disse, mas o homem, com um hálito pesado de bebida, afastou-se meio assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez eu metesse medo, mesmo, por causa da minha aparência. Precisava tomar um banho, conseguir umas roupas melhores. O policial rodoviário só deixou que eu chegasse próximo do fusca acidentado por causa da pressão dos populares. “Que é que esse mendigo vai fazer aqui? O que ele vai mudar no cadáver?”, perguntava o policial, quase rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado de fora do barraco, onde deixei a menina ressuscitada conversando com os pais, quedavam-se os meus quatro seguidores: Tomilho, Anacleto, Ramiro e a moça Vivinha. Eu não quis que eles andassem atrás de mim, chamando-me de mestre, mas eram andarilhos como eu, não tinham destino, esperança ou família. E aceitavam rezar e rezar, que era só o que eu pedia que fizessem, para acabar com o sofrimento das pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem anda pelas estradas sabe que só existe sofrimento, dos postos de gasolina aos pequenos sítios, passando pelas cidadezinhas: todo mundo precisa de médico, os adolescentes ainda não acreditam em aids, bandidos e vítimas de bandidos são uma mesma família, interligados por ignorância e carência. Até os religiosos são mais sofridos à beira dessas estradas do nosso país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vivinha”, eu puxei o assunto, uma vez mais, para a moça tão bonita, e tão meiga, que começara a nos seguir na semana passada, “você não tem de vir conosco. Você pode não se sentir bem. Nós somos respeitadores, disso não tenha dúvida, mas somos homens e não temos onde pernoitar, nem para onde ir…”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu vou com vocês”, respondeu com um sorriso. Ela parecia muito segura das suas opções, sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá bom, então vamos seguir”, eu disse, fazendo um gesto com a cabeça para que retomássemos o caminho. Havia dias em que andávamos mais de vinte quilômetros sem parar. Chegava uma hora, na verdade, em que as pernas se mexiam automaticamente, e nos entregávamos aos nossos sonhos. Sequer ouvíamos o ronco dos motores nas estradas. Eu queria que os outros não sofressem, mas Tomilho só pensava na Argentina. “Um dia vou chegar lá, e ver aquelas vacas muito gordas, com aqueles peitos enormes. Um argentino vai-me deixar mamar diretamente naqueles peitos.” Anacleto nos dizia que o sonho dele era esquecer o passado, mas não sabíamos nada dele, nem eu perguntei. E os outros dois, o Ramiro e a Vivinha, nunca revelaram qualquer detalhe das suas vidas. Eu temia um pouco pela moça. Anos atrás, logo que comecei a andar pelas estradas, acercou-se de mim uma outra mulher, mais velha e não tão meiga como a Vivinha, mas com uma grande disposição de ajudar os outros, sobretudo os bichos que sobreviviam aos atropelamentos. Andamos, juntos, durante mais de três meses. Dormimos lado a lado, mas nem eu nem ela, que dizia chamar-se Ercília, tocamos um no outro. Naquela época eu já me considerava um monge moderno, e já havia tomado minha profissão de fé. A castidade fazia parte dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, lá íamos nós, eu na frente e Ercília a uns vinte metros, acompanhada de mais de dez cachorros apaixonados, quando duas picapes muito grandes frearam, cantando pneus, bem adiante de nós, no acostamento. Homens jovens e bem vestidos pularam para fora dos dois carros. Queriam Ercília. Nem me assustei. Eu já havia visto de tudo naquela vida. Vira homens ricos, em carros importados, que estupravam andarilhas. Caminhoneiros que nos torturavam só para se divertir. Quando acontece algo assim – como aqueles rapazes pulando das picapes – a gente sempre oferece a Deus nossa hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É ela, pai!”, gritou um dos rapazes, apontando Ercília pra um homem muito alto, de cabelos completamente brancos. Os outros cercaram a moça, que tentou fugir, fazendo com que um automóvel, desviando-se dela, quase provocasse um acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pegue! Pegue!”, gritava um rapaz para outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minha filhinha!”, o homem mais velho se aproximou, chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos irmãos de Ercília, que não tinha este nome, e que de vez em quando fugia da família para andar pelas estradas, ainda tentou me bater, como se eu tivesse algo a ver com as opções dela. Ela gritou que eu era apenas um amigo, e o pai se aproximou de mim, ainda choroso, e agradeceu por ter tomado conta da “minha menina”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sua filha é uma pessoa muito boa, ajudou todo mundo na estrada”, eu depus, sereno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ercília chorou muito ao se despedir de mim, e acabou levando um dos cães, o mais feio e doente, junto com a família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu temia que Vivinha fosse um caso idêntico e dobrei minha vigilância sobre os outros, para que não lhe destinassem nenhuma iniciativa sexual. Cheguei a conversar com eles sobre o assunto, e eles reiteraram fidelidade e obediência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por mais que o senhor não queira”, disse-me Ramiro, “o senhor é o nosso mestre e nós vamos fazer tudo o que o senhor mandar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Será que, um dia, nós também vamos poder curar os doentes, e reviver os mortos, como o senhor?”, quis saber Tomilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se preocupem com nada disso”, eu lhes disse, “dentro de pouco tempo iremos para o sacrifício, vocês e eu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como, mestre?”, Anacleto assustou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vocês acreditam que os verdadeiros donos deste mundo, os líderes religiosos, a polícia, os políticos e os bandidos vão permitir que um andarilho, ou um mendigo, e seus amigos, consigam produzir milagres?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o senhor começou a fazer isso…”, ponderou Tomilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas não tenho certeza se vou continuar… Não seria lógico, não há clima para fenômenos, ninguém quer saber de milagres e só os pobres acreditam neles. E mesmo os pobres, hoje em dia, querem mais é morrer. Cumprir a missão neste planeta está cada vez mais difícil. E nós somos privilegiados, somos andarilhos, vivemos para nós mesmos. O que vocês fariam se fossem o pai daquela família, a da menina quase morta, e vissem seus filhos abandonados, não por ela, mas pela sociedade que teria a obrigação de cuidar de todos? Diga-me, Tomilho: estou errado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caía uma noite linda na estrada, um céu repleto de estrelas graúdas, como só aparecem nos céus do interior, ainda convivendo com um sol vermelho que se deitava por trás das montanhas de uma reserva de mata atlântica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está errado, mestre. O pai desesperado contou com o senhor. Nós também contamos com o senhor. O nosso maior privilégio é estar aqui, agora. Não importa que ninguém ligue para os milagres. Eles, em si, valem a pena. Aliviam dores, fazem sorrir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andamos quase três quilômetros, em silêncio, para que eu respondesse. A noite havia chegado completamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez você tenha razão, Tomilho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos sorriram, discretos, mas Vivinha soltou risadas de criança, deu uns saltos, e a sua alegria iluminou o breu da estrada, como se ela fosse uma pequena lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do livro &lt;em&gt;O homem dentro de um cão&lt;/em&gt;, Editora Terceiro Nome (São Paulo, 2007).&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*fatportel@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;fatportel@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2724696042285932613?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2724696042285932613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2724696042285932613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/pequenos-milagres-sem-registro.html' title='Pequenos milagres sem registro'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7ku7OJ82I/AAAAAAAABZU/d9IIeDpX8PA/s72-c/portela.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-5898176562041651391</id><published>2011-02-06T14:31:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:31:17.041-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ARLEQUINAL - Eduardo Sigrist'/><title type='text'>A fonte da juventude</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7jNyA9BBI/AAAAAAAABZQ/x4Oo8silYoQ/s1600/sigrist.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7jNyA9BBI/AAAAAAAABZQ/x4Oo8silYoQ/s1600/sigrist.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sigrist*&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho, protegido por um chapéu de palha, estava sentado em um tronco apodrecido, à beira do rio. A mão trêmula segurava a vara de pescar, e os dedos finos confundiam-se com o bambu que pendia sobre a água. Tal como a vara, que se ligava ao fundo do rio por um fio transparente, assim também o pescador parecia sustentado por cordéis invisíveis que vinham do céu, a mover seus frágeis braços de títere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devido à falta de chuva, o rio estava baixo, longe da mata. Um ano antes, o velho pescara um pouco mais acima, sob a sombra de um angico-branco. Hoje não havia onde se esconder. Resignado, suportava o castigo infligido pelo sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castigo merecido. Afinal, como o genro lhe dissera, ele não era um vagabundo, que passava o dia todo sem fazer nada? Vagabundo! Dispensado pela madeireira, não conseguira encontrar outro emprego, mas ainda vivia na colônia de funcionários, perto da mata, juntamente com a filha, o genro e a Amélia, a netinha. Havia uns dois anos que moravam juntos, desde que ele conseguira indicar o Osmar para um cargo de operador de motosserra. Arrumou-lhe emprego, ofereceu seu cubículo para eles morarem, e agora era tratado como um malandro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois ia lhe mostrar quem era o velho Moraes. Não conseguia mais trabalhar na mata, mas o céu lhe dava a força necessária para pescar. A Amélia adorava lambari frito. Se ela não fosse tão pequena e se o calor não queimasse tanto, ele a teria trazido para a pescaria. Mesmo assim ela ficaria feliz e correria ao encontro do avô, no final da tarde, a gritar: “Oba! Lambaí!” Sim, ele levaria milhares de peixes, que matariam a fome da família pelo resto da vida. Por isso trouxe todas as espigas de milho que havia encontrado no armário. Se atrás de cada grãozinho viesse um lambari esfomeado, a boia estaria garantida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os peixes, no entanto, não queriam aparecer. Nem um beliscão. Com a boca seca, Moraes abaixou a cabeça até o rio e sorveu um gole de água. Ao levantar os olhos para o céu, viu as nuvens negras que começavam a se formar lá adiante. Na cidade já devia estar chovendo. Era um bom sinal. Já estava na hora de vir a chuva. A própria mata parecia sofrer com a estiagem. Seu verde estava desbotado, cor de sede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Moraes, embora satisfeito com a visão, agitava os braços, como se quisesse espantar as nuvens. A chuva era bem-vinda, mas não para agora. Já que demorara tanto para chegar, que esperasse pelo menos até o final da pescaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando a atenção para a vara, ele continuava esperançoso, embora não houvesse o menor sinal de peixe naquele rio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu Deus, faz um milagre aqui. Sou velho, já sofri demais, mereço a misericórdia dos céus. Mas aí de cima só vem esse fogo. Ah, meu Jesus, vem aqui embaixo sentir o peso dessa cruz em forma de brasa, a martirizar tua gente. Vem aqui e me traz uma rede cheia de peixes. Sou teu filho tanto quanto Simão Pedro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um barulho ecoa atrás dele. Passos vão se aproximando epifanicamente. Atônito, ele não se vira. “És tu?” Espera de olhos fechados a consumação do milagre e em oração agradece a dádiva celeste. Ao passarem ao lado dele, fazendo um ruído de algo que pisa na água, os passos cessam. O velho abre os olhos: um filhote de veado bebe calmamente água no rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio decepcionado, logo o homem se encanta com a beleza do animal e estranha o fato de um bicho tão arisco estar próximo assim dele. Deve ter confundido seu esqueleto com um galho de árvore seco. A pouca distância, Moraes não se mexe, temendo assustá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bebe, filho. É toda sua a água da fonte da juventude. Bebe para preservar sua mocidade pelo resto da vida. Não se torne um caco velho, inútil, como eu. Bebe, e depois sai por aí, a pular e nos alegrar com sua beleza tão cara. Que Deus o preserve da velhice, porque a velhice é só a espera da morte. É pensar nela a todo instante e até desejá-la. Mas você é só um bicho, não tem pensamento. Não pensa na morte. Ah, deixa eu tocar seus lustrosos pelos, respirar um pouco da sua juventude.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meio caminho, quase já apalpando o corpo do animal, a mão de Moraes para e recua. Uma mancha enegrecida, abaixo das costelas, revela um ferimento grave, talvez provocado pelo tiro de um caçador, a exalar um cheiro podre. Um calafrio percorre o corpo de Moraes, que solta um lamento alto, a praguejar contra o céu e contra os homens. Em vez de fugir, o veado levanta a cabeça e fixa os olhos no velho. Olhos pequenos, lamuriosos, denunciando uma terrível dor. Não é dor física. É a dor de saber que, tão cedo, a vida vai se apagando em seu interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhando penosamente, o animal se afasta do rio. Vai devagar, cabeça baixa, até chegar perto da trilha que atravessa a floresta. Ali, senta-se com esforço, entregue à esperança de que o vigor de sua juventude consiga poupá-lo de uma morte prematura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pescador permanece um bom tempo paralisado, absorto. As nuvens já cobrem todo o céu, e o azul dá lugar ao cinza. O homem nem percebe a ausência do sol, pois dentro dele a escuridão já se instalara antes de as nuvens tomarem conta do dia. Pensa no veado a morrer, pensa na morte que não poupa pessoas nem animais, jovens nem velhos. Desperta do torpor somente quando algo molhado lhe escorre pela testa. A chuva o traz de volta à vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vara, enroscada num buraco a seus pés, começa a balançar. Deve ser o impacto de um pingo de chuva. Mas o bambu se enverga de maneira diferente, brusca. O velho, a princípio desconfiado, levanta sua arma e vê um lambari de rabo vermelho a balançar na ponta do anzol. Finalmente! O céu enviou-lhe a chuva e, com esta, os peixes. Apressado, ele coloca o danado no samburá e lança a fisga de volta à água. Logo, sente outro peixe a puxar a linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que a chuva aumenta, Moraes vai enchendo de peixes o saco. Ele não se importa com a roupa encharcada. Depois de tanto tempo debaixo do sol, sem pegar nada, quer aproveitar ao máximo esse momento de fartura. Sem dúvida, era um milagre. Quanto mais água caía, mais peixes eram fisgados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o temporal se enfurece tanto que o velho resolve ir embora. Já tinha peixes demais no saco, era melhor não abusar da ajuda de Deus. Ele cogitou tirar a peixeira da cintura e limpá-los ali mesmo. Pensando bem, como teria apenas uma hora de caminhada pela floresta, dava tempo de chegar em casa e prepará-los lá, antes que estragassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrumou a tralha, desceu do tronco e foi em direção à mata. Perto da trilha, notou que o veado ainda estava lá. Sem forças para fugir da chuva, o animal continuava deitado, com a água a lavar aquela grossa gosma que saía do ferimento. Por alguns segundos, conseguiu levantar a cabeça e olhar o homem que passava apressado. Sem coragem para encarar aquele olhar súplice, Moraes embrenhou-se pela trilha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho era difícil, em determinados trechos, com muita lama e pedras escorregadias. Mesmo assim ele foi bem, só temendo pela hora em que chegasse ao final da mata, onde havia um córrego manso que descia da serra, mas que formava uma enxurrada violenta quando chovia forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o esforço seria recompensador. A filha e a neta ‒ e até o genro ‒ ficariam felizes. Naquela idade, sua única preocupação era com a felicidade da família. Ele sempre se lembrava do próprio pai, homem sábio e trabalhador que, todas as noites, na hora do jantar, falava da importância da família, da fidelidade à família. Dizia que era função do patriarca impedir a infelicidade da família, que a infelicidade era uma maldição de Deus contra os ímpios e desonestos, mas que as pessoas boas e justas viveriam em comunhão tanto na terra como no céu, todas fariam parte da grande família celestial. O pai morreu cedo, e Moraes saiu de casa para ganhar a vida. Não teve chance de estudar, mas guardou esses ensinamentos como um código de conduta que jamais poderia quebrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi pensando em seu pai que ele chegou ao riacho. Fortalecidas pela tempestade, as águas corriam por cima de uma frágil pinguela, parecendo que levariam tudo para dentro do mato. Mas Moraes sabia que, para fazer sua família feliz, precisava aguentar a fúria da correnteza. Agarrado ao samburá e à vara de pescar, deu o primeiro passo, experimentando a rigidez da tábua. Seguro de que conseguiria passar sem problemas, foi andando mais um pouco. Já estava no meio do caminho quando ouviu um estalo e sentiu a madeira ceder sob os pés. Sem ter onde se segurar, foi carregado pelas águas ferozes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou com o corpo dolorido, jogado em uma das margens, vários metros abaixo do local onde caíra. Ainda segurava com firmeza o samburá e a vara. Não sabia quanto tempo ficara ali. Com certeza passara várias horas desmaiado, pois o céu estava bastante escuro e algumas estrelas se destacavam entre as últimas nuvens. Uma dor na cabeça o alertou de que havia se ferido, provavelmente nas tábuas da pinguela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao levantar-se, Moraes avistou as luzes da sede da madeireira. Sua casa estava próxima. Era só pegar a estrada de terra e em poucos minutos estaria protegido. Infelizmente já era tarde, a Amélia devia estar dormindo e não viria recepcioná-lo. Ao chegar lá, ele iria direto para a cozinha, limpar os lambaris antes que estragassem. Não sabia quanto tempo estivera desacordado, então era melhor não arriscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu a porta mansamente para não acordar ninguém. Colocou o samburá na pia e sentou-se, sentindo muita dor na cabeça. O corpo todo latejava. Exausto, já que o desmaio mais servira para maltratar seu corpo do que para lhe dar um pouco de descanso, Moraes acabou dormindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhou. Sonhou que era jovem e pescava sentado sobre o mesmo tronco de árvore. O sol corava sua pele lisa e o encorajava a puxar os reluzentes lambaris que vinham se enroscar no anzol. Amélia também estava lá, a galopar em cima do viçoso filhote de veado e gritar: “Lambaí, lambaí!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou com o grito do genro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Onde andou, velho safado? Todo sujo, deve ter enchido a cara e dormido na rua. Vagabundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda era madrugada, Osmar acordava muito cedo para ir trabalhar. O resto da família continuava dormindo. Moraes, sabendo que seria melhor não responder nada, apenas apontou o saco de peixes sobre a pia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então finalmente fez algo de útil! Mas o que é isso? Peixe podre! Tão podre como essa sua carcaça enrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irado, Osmar lançou o saco no chão, espalhando seu conteúdo. Aturdido, Moraes não acreditava. Abaixou-se e conferiu. Realmente, todos os peixes estavam sem brilho e com um cheiro de matéria em decomposição. Não querendo acreditar, começou a colocá-los de volta no samburá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora não adianta mais querer limpar. Já apodreceram. O que você queria era que eu limpasse tudo, né? Eu, que passo o dia todo dando duro no serviço. Tem cabimento? Velho inútil. Pois vai aprender uma lição!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Osmar agarrou a vara de pesca, agitou-a no ar e, com toda a força, golpeou as costas do velho: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Safado! Pois vai aprender a trabalhar. Toma aqui, vagabundo – Osmar gritava e açoitava o corpo prostrado do sogro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha e a neta acordaram com o barulho e, chorando, tentaram debalde acalmá-lo. Ele não se comovia, e continuava a bater.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha, Sílvia, o que virou aquele milho que seria nosso almoço! Comida de peixe podre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moraes se contorcia no chão. Ao tentar proteger-se dos golpes, sentiu algo cutucando sua cintura. A peixeira! Sim, a arma poderia acabar com seu martírio, livrá-lo para sempre daquele ser abjeto. Moraes nunca matara ninguém, sempre fora um homem pacífico, tanto é que, até aquele dia, aguentara as injúrias de Osmar. Mas dessa vez era demais, não suportaria tamanha humilhação. Buscando sua última gota de energia, retirou a peixeira e, erguendo-se, ficou pronto a ferir o genro. Esforço vão. Osmar havia acabado de bater a porta e ir para o serviço. Empunhando a faca, Moraes cambaleia e também sai atrás dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã estava clara, nem sinal de nuvens no céu. O sol voltara a lançar seus raios sobre a terra, mas agora uma ligeira aragem atenuava o calor. A chuva trouxera de volta o verde característico da mata. Tudo recendia a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rio amanhecera barrento. O tronco de árvore, parcialmente submerso, servia de porto para uma garça, cujas penas brancas também estavam amarronzadas. Faminto, sem conseguir encontrar nenhum peixe naquela água suja, o pássaro bateu as asas e partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No céu, pequenas manchas negras maculavam o azul. Dessa vez, não eram as nuvens que voltavam. Eram os urubus. Após perceberem comida na beira da mata, preparavam-se para pousar e se banquetear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debaixo do angico, o corpo gelado e duro do veado se oferecia para saciar a fome daquelas criaturas. Elas, no entanto, não arriscavam uma aproximação. Ao lado do animal morto, Moraes, brandindo sua espada, afugentava os inimigos. Acariciava a cabeça de seu Pátroclo e ria da estupidez das aves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bichos tolos. Não enxergam que você é somente um filhote e tem toda a vida pela frente. Mas estou aqui para proteger sua mocidade. Vai, levanta daí, meu filho, e mostra para eles que está vivo e forte. Levanta e me acompanha pela verde mata, pelo caminho só conhecido por nós, que bebemos a água da fonte da juventude.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosigrist@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosigrist@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-5898176562041651391?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5898176562041651391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5898176562041651391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/fonte-da-juventude.html' title='A fonte da juventude'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7jNyA9BBI/AAAAAAAABZQ/x4Oo8silYoQ/s72-c/sigrist.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-5144395739755586800</id><published>2011-02-06T14:30:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:30:19.736-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ROENDO A PÁGINA - Cristiano Silva Rato'/><title type='text'>Holofotes</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7hpc8-hZI/AAAAAAAABZM/q39N_OHGVeI/s1600/cristiano.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7hpc8-hZI/AAAAAAAABZM/q39N_OHGVeI/s1600/cristiano.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cristiano Silva Rato*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que&amp;nbsp;queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas&amp;nbsp;perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*cristpsilva@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;cristpsilva@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-5144395739755586800?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5144395739755586800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5144395739755586800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/holofotes.html' title='Holofotes'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7hpc8-hZI/AAAAAAAABZM/q39N_OHGVeI/s72-c/cristiano.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-5938355560656391545</id><published>2011-02-06T14:29:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:29:14.116-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='QUASE SEM MISTÉRIO - Alessandro Faleiro Marques'/><title type='text'>O cavalo que era burro</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7eMOuZVTI/AAAAAAAABZI/brMSWqEZzm0/s1600/alessandro.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7eMOuZVTI/AAAAAAAABZI/brMSWqEZzm0/s1600/alessandro.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alessandro Faleiro Marques*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele quadrúpede ali, de boca requebrante a moer o capim. Quem o vê nem imagina o que o bicho já fez pelo bairro, talvez pela cidade. Não sabe, mas hoje é o último expediente dele (e do dono) no serviço de entrega de uma loja de materiais de construção. Enfim saiu a aposentadoria. Não sabe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre pronto, do seu jeito, acha que ainda hoje carregará mais algum peso no veículo atrelado ao dorso. Meio cansado, meio disponível, rói o milho que acaba de ganhar do velho homem, com quem trabalhou uns bons anos. Parece estranhar o quitute raro, afinal não estava muito acostumado com algo além do capim cortado nos lotes vagos pelo caminho, cada vez mais raros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inverbalizado, sente que o dono está estranho, falando mais baixo, bem diferente dos roucos gritos pré-chicote, outrora mais vigorosos. Ganha um inédito afago de dois homens, os mesmos de sempre, que costumam colocar na carroça aquilo que ele deve carregar. Também, hoje, conversam leve. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mamífero orelhudo, meio censurado pelas viseiras, viu as ruas dali se alterarem. Aos poucos, foram sumindo os atoleiros e alisando-se o piso. O antigo silêncio, algumas vezes quebrado por algum moleque, cantar de galo ou martelar, foi dando lugar ao ruir de motores, depois às sirenes e até aos estalares estranhos aos seus ouvidos. Estes últimos, notava sem muita pretensão, eram quase sempre seguidos de gritos, de mais roncos mecânicos e, logo em seguida, de apitos de emergência. Nunca escondeu de ninguém ser os estampidos cheirando a enxofre os mais a incomodá-lo, sendo responsáveis pelos quase acidentes e açoites mais nervosos do velho que agora o dá outra espiga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não sabe, mas deveria ganhar uma estátua ou pelo menos uma placa lá na pracinha, cuja grama lhe já foi mais abundante. É o último dia. Ninguém reconhece, mas o cavalo é quem ajudou a construir a comunidade. As viseiras o impedem de entender isso. Coitado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;a href="mailto:faleimar@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;faleimar@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-5938355560656391545?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5938355560656391545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5938355560656391545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/o-cavalo-que-era-burro.html' title='O cavalo que era burro'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU7eMOuZVTI/AAAAAAAABZI/brMSWqEZzm0/s72-c/alessandro.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2029605889028820344</id><published>2011-02-06T14:26:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:26:48.004-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A PRÁTICA NA TEORIA - Márcio Almeida'/><title type='text'>Súmula sobre poesia de vanguarda, poesia concreta e poema-processo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Leitura de &lt;em&gt;Flash&lt;/em&gt;, de Oscar Kellner Neto&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU26kShd3gI/AAAAAAAABY8/Laqgb9UEjyk/s1600/marcio_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU26kShd3gI/AAAAAAAABY8/Laqgb9UEjyk/s1600/marcio_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcio Almeida*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo de 45 anos de luterária pelas vanguardas brasileiras, como poeta e como crítico, foi possível concluir que a pífia recepção às experiências marcadas pela ousadia, a ruptura, a inventiva, pelo radical estranhamento deu-se, entre outros fatores, em razão da falta de uma pedagogia poética que esclarecesse, no sentido adorniano, a razão de ser do poema anticonvencional, aquele que antes de tudo superou os cânones acadêmicos, a teoria estabelecida historicamente, as tradições dos estilos de época, e se impôs como produto de transformações culturais, tecnológicas, poéticas e teóricas em relação às linguagens das artes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sugerir fosse a poesia concreta uma “arte popular”, por utilizar meios de comunicação de massa, Décio Pignatari, por exemplo, estaria convicto na época de que a recepção popular seria tão eficiente quanto a concedida a meios massivos como a televisão e o rádio, o que, a bem da verdade, só fez por ampliar o dissídio entre uma arte erudita, como era o caso dos concretos, da popularesca telenovela. Do mesmo modo, ao propor “espantar pela radicalidade”, difundir que “o poema-processo não é poesia”, “exclui a informação estética”, “é uma intervenção semiológica” e subentende a necessidade de um “contra-estilo”, o movimento do poema-processo lograria êxito confinado a autores que aderiram, em diversas regiões do País, mas o povo se manteria à margem de uma recepção convincente ou mesmo em nível de consumo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um país cuja população ainda tem 20% de analfabetos, no qual 60% dessa mesma população não leem, e, quando leem, não têm capacidade de discernimento de conteúdos, onde até o preço do livro é forte concorrente contra a criação do hábito de leitura, mormente de poesia, e a própria academia, por interesses especificamente acadêmicos, tem a propensão de manter a produção de vanguarda em segundo plano, entre outros entraves, convencer um determinado leitorado a vler e consumir vanguarda é um desafio merecedor inclusive de estudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obstante o crescimento anual de universitários prevalece no Brasil a leitura do gosto baseado na Antiguidade Clássica com seus quadros de cavalete, seus conjuntos de câmera barrococós, seus incensos e pomânderes beletristas e midiáticos, seus &lt;em&gt;strip-teases&lt;/em&gt; subjetivos, românticos, parnasianos e simbolistas e, quando atrevidos, dados a um realismo cheio de neuras oriundas da própria convenção social via família caracterizada pelo politicamente correto. Ou, no viés paralelo, algumas poucas admissões mais ousadas provenientes de poetas oriundos da cultura popular, do folclore ou da linha vagina-frustrada, da metafísica de fim-de-tarde em &lt;em&gt;shopping center&lt;/em&gt; escópico, da autoajuda &lt;em&gt;new age&lt;/em&gt;, do letramento musical de um roquinho cocô que espraia no &lt;em&gt;rap inclusivo&lt;/em&gt;, de uma marginália não raro inconsequente, e mesmo das experiências mais sérias que sacudiram a pasmaceira, o besteirol, a mesmice de um país dado a convenções, cujos líderes muito fizeram para digladiar entre si por valores hoje insustentáveis como a leveza do ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil é um país onde não se assimilou que vanguarda é algo que se supera no dia seguinte. Como um &lt;em&gt;tsunami&lt;/em&gt; que obriga a reconstrução do ser pelo próprio ser a partir do quase nada, não fossem as lições do passado servirem de exemplo para não se repetir o que, se funcionou, não faz mais sentido. Não depois de Walter Benjamin, do computador. E da globalização. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cotidiano da universidade da vida – botecos, puteiros, feiras, mercados, supermercados, campos de futebol, associações comunitárias, festas domésticas, entre muitos outros&lt;em&gt; loci&lt;/em&gt;, a simples menção de poesia de vanguarda leva à entropia, à aporia, ao constrangimento e à indiferença pelo que é assumido, desde a origem, como vanguarda, o novo produzido pelo novo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um poema de vanguarda, neste contexto, é um ET cultural, pior, perfeitamente dispensável do conhecimento popular. Não faz falta. E, na maioria das vezes, nem sentido. Ledo Ivo engano o de Oswald de Andrade, quando até com certo otimismo anunciou: “O povo ainda vai comer do meu biscoito fino.” Talvez o mestre tenha se esquecido de que o povo prefere mesmo é broa. E de fubá. Para piorar, é irrefutável que uma parte dos brasileiros ainda passa fome, e que o poema realista cobrou engajamento político que poucos assumiram o compromisso de produzir. O populacho um dia ainda vai consumir poesia de vanguarda? Ou a questão vai, de novo, bater na esparrela da discussão inócua entre elitista X popular? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao povão é desejável consumir somente quadrinhas, trovinhas, sonetos, ditados, provérbios, repentes, música sertanoja, reuniões brahmicas zecapagodinhescas, receitas de amor à moda Vinicius de Moraes, baladas robertocarlianas nas baladas caretas das emoções banais, ou, quando muito, no ápice da “tolerância”, algumas canções-recados SCANKaradas, incursões progressivas de um U-2, as&lt;em&gt; top-musics&lt;/em&gt; de celular tipo Lady Gaga e Amy Winehouse, &lt;em&gt;revivals &lt;/em&gt;de gostos em cãs/ções com Paul McCartney e Lou Reed, as declarações patriótico-jocosas de Lula, o&lt;em&gt; reality show&lt;/em&gt; ao vivo do confronto bélico entre bandidos X polícia, as alocuções cínicas dos políticos fichas-OMO e imundas, os discursos de padres pré-pedófilos e pastores altamente faturantes, as loas de réquiem&lt;em&gt; &lt;/em&gt;por balas perdidas, as utopias da fé dos classificados de "graças alcançadas”, a leitura &lt;em&gt;must&lt;/em&gt; da gente-ibope de Caras, as cartas-cobrança de bancos, os esperançosos cartões de loteria? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que houve mesmo dissídio entre povo e poesia. Qualquer pessoa pode fazer o &lt;em&gt;test drive&lt;/em&gt; poético: basta perguntar a alguém se ele(ela) sabe de cor algum poema. O povão sempre tem na ponta da língua um poemeto qualquer que lhe diz respeito por afinidade que não foge à regra: ou porque o teor do poema é sôfrego, incluindo a lírica de corno, ou é humorístico, incluindo a veia piadística do brasileiro. Se um ou outro, não importa, o que interessa constatar publicamente tem dois vieses: 1º - o povo gosta de poesia desde que o poema &lt;em&gt;fale&lt;/em&gt; a sua linguagem e seja por ele identificado como uma arte capaz de sublimar o trágico e de enaltecer a bobagem. Isso é típico da índole brasileira; 2º - o povo desconhece por completo o que seja poesia de vanguarda, vanguarda, experimentalismo e, portanto, não dá valor algum àquilo que nem sabe se existe. Em consequência, o óbvio: quem lê poesia são poetas, e, no limite, especialistas que de certa forma vivem disso, como críticos, resenhistas e acadêmicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O povo somente toma conhecimento de situações poéticas de vanguarda quando, muito esporadicamente, se vê envolvido por um &lt;em&gt;happening&lt;/em&gt;, mais comum há décadas, uma performance de rua, ou um acontecimento inusitado que ele vê &lt;em&gt;en passant&lt;/em&gt; sobretudo em cidade grande. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem mesmo agora que as vanguardas históricas e suas sucedâneas “da hora” chamam mais a atenção mesmo de gente &lt;em&gt;up to date&lt;/em&gt; – salvo se o mesmo público universitário ou de uma classe média que geralmente se entedia com tudo em tempo veloz – parece ser injustificável ou desnecessário falar em vanguarda. Fica, contudo, o hiato, o buraco negro entre uma produção de vanguarda e uma recepção retrógrada, ou, por baixo, lenta e nem sempre antropofagicamente deglutida, como queriam Oswald de Andrade e outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa sociedade líquida exposta às contradições de crises permanentes, tudo é vanguarda: o&lt;em&gt; day after&lt;/em&gt; foi amanhã. O 11 de setembro foi só um ensaio. A guerrilha oriunda das favelas é apenas a cota diária da neura entre a incompetência e o abuso, a provocação e o enfrentamento. A Riolência (J. Simão) é só um cartão-postal do cenário megalopolitano prestes a se generalizar no mundo. O&lt;em&gt; bulling&lt;/em&gt; é o atrevimento infanto-aborrescente para treinar a violência “de menor”. O Oriente Médio já sofreu demais – e fez sofrer muito – para só brincar de fazer rojões nucleares. “A questão, Thomas Friedman &lt;em&gt;dixit&lt;/em&gt;, não é o que mudou, mas reconhecer o que não mudou.” Vanguarda será o que exterminará mais rápido? O que transferirá a História para outro planeta? O que garantirá a tecno-imortalidade? O já desgastado contato de 3º grau? O cara a cara com Deus ao vivo e a cores? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Poesia com(o) pressuposto de vanguarda&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O novo, na vanguarda, é a ruptura com o existente e renovação dos processos que tornam as artes contemporâneas de si mesmas. Vanguarda é projeto que rompe com a tradição e afirma o novo com o novo. Novo = experimental – predomínio de processos técnicos de criação contra os parâmetros cristalizados da subjetividade e da natureza psicológica do artista/poeta. Vanguarda pressupõe superar o &lt;em&gt;status&lt;/em&gt; &lt;em&gt;quo&lt;/em&gt; do existente na criação poética ou a ordem estabelecida. Vanguarda, historicamente, se estabeleceu com a ideia de movimento, de produção numa lógica &lt;em&gt;work in progress&lt;/em&gt;. Vanguarda não se permite favorecimento dos poderes oficiais. Vanguarda é sobretudo urbana. Vanguardas históricas transformaram-se em aporias (becos sem saída), anacronismo, sem condições de manterem-se vanguardas ou de superar a mercantilização estética e o&lt;em&gt; kitsch&lt;/em&gt; de massa, quando elas tornaram-se “expressão necessária da alienação na sociedade capitalista avançada” (Adorno). Vanguarda subentende em condição &lt;em&gt;sine qua non&lt;/em&gt; fazer crítica. Vanguarda institui uma situação contraditória: ao fazer a ruptura com a tradição, instaura a tradição do novo (H. Rosenberg), que no encadeamento da continuidade sucedânea dos movimentos permitiu fazer-se por semelhanças, oposições e conflitos. Vanguarda pressupõe utilização de novos materiais de produção, novos meios de recepção, novas técnicas de leitura e praticar a crítica do seu próprio processo de produção. Vanguarda tem a ver com a reflexão de Ferreira Gullar: “A necessidade de transformação é uma exigência radical para quem vive numa sociedade dominada pela miséria e quando sabe que essa miséria é produto de estruturas arcaicas. Grosso modo, somos o passado dos países desenvolvidos e eles são o espelho de nosso futuro.” Vanguarda, na acepção brasileira, tem a ver com a “estética do fragmento, as intenções antilíricas e um certo gosto pela desarticulação do poema” (A. Cândido). E caracteriza-se também pela “supressão dos nexos sintáticos e consequente descontinuidade do discurso: substituição da ordem temporal, não linear; substituição da metáfora pela paranomásia” (idem). Vanguarda tem por problema seu próprio conflito de criação: ela se supera, ou então não é vanguarda: “O paradoxo da poesia moderna (do Modernismo ao Concretismo) está em que a sua importância independe e transcende de seu eventual sucesso estético; ela criou uma situação literária depois da qual a poesia nunca mais seria a mesma” (W. Martins). E nunca mais foi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Poesia concreta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem duas referências fundamentais: &lt;em&gt;Teoria da poesia concreta&lt;/em&gt; (de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari) e &lt;em&gt;Noigandres 5&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia concreta surge como proposta para radicalizar a construção proveniente das linguagens geométricas. Elimina o intuicionismo, a transcendência, impõe-se com a racionalidade estética, almeja superar o atraso tecnológico do subdesenvolvimento nacional nos anos 50. Se comparada, &lt;em&gt;O plano-piloto da poesia concreta&lt;/em&gt; tem a ver com o plano-piloto da construção de Brasília: “o esforço de produzir uma obra de arte total, ultramoderna, funcional, artificial, com o rigor matemático, valorização do espaço.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O modelo instaurado pelos poetas concretos pressupõe uma produção que trabalhe com as seguintes questões: a consciência utilitária; a abertura da poesia à cultura dos meios de comunicação; a mudança do espaço de fruição do poema; a mudança da relação sujeito/objeto; a necessidade de construir um paideuma; a concepção de uma historiografia própria, na qual se inclui a revisão da literatura brasileira, com base na eficiência de certos procedimentos; a crise do verso; e a antidiscursividade” (Iumma Maria Simon). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os poetas concretos propõem noções como “não linear”, “descontínuo”, “simultâneo”, “espaço”, e superam três correntes da crítica presente nos anos 1950: “o velho impressionismo baseado nas livres associações psicológicas dos intérpretes, como Sérgio Milliet; a crítica sociológica do grupo de Antonio Cândido, da revista Clima, dos anos 1940; e um início de &lt;em&gt;new criticism&lt;/em&gt; norte-americano, trazido para o Brasil principalmente por Afrânio Coutinho.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia concreta, conforme Décio Pignatari, é “uma arte geral da linguagem, propaganda, imprensa, rádio, televisão, cinema, uma arte popular”; ela tem “a importância do olho na comunicação mais rápida, desde os anúncios luminosos até as histórias em quadrinhos”, e “a necessidade do movimento” numa “estrutura dinâmica”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como também exposto em &lt;em&gt;Nova poesia: concreta&lt;/em&gt; (1956), lê-se que “a poesia concreta acaba com o símbolo, o mito, com o mistério, o mais lúcido trabalho intelectual para a intuição mais clara”, para “acabar com as alusões, com os formalismo nirvânicos da poesia pura, a beleza ativa, não para a contemplação”, porque, na poesia concreta”, “o poema é forma e conteúdo de si mesmo, o poema é”, e é “a ideia-emoção”,”faz parte integrante da forma, vice-versa, ritmo: força relacional.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema concreto tem táticas e estratégias baseadas em autores como Joyce, Cummings, Kurt Schwitters, Mallarmé, Pound, Fenollosa, Webern, Cage, Paul Klee, Mondrian, Eisenstein, além de João Cabral de Melo Neto e da própria construção poético-crítico-construtiva dos poetas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, pela vertente paulista, por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Didático, o concretismo, conforme o &lt;em&gt;Plano-piloto para a poesia concreta&lt;/em&gt; (1958) – pretende falar a linguagem de um novo tempo. Diante do horizonte técnico da sociedade industrial, dos novos padrões da comunicação não verbal, da linguagem publicitária, do &lt;em&gt;out-door&lt;/em&gt;, do cartaz, o poema deve livrar-se da “alienação metafórica”, para ser projetado como um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo Gilberto Mendonça Teles, “o nome poesia concreta exprime ao mesmo tempo a linguagem e a metalinguagem, produção crítica e teórica que informou grande parte da poesia brasileira das duas últimas décadas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O programa do poema concreto “aspira a ser: composição de elementos básicos da linguagem, organizados ótico-acusticamente no espaço gráfico por fatores de proximidade e semelhança, como uma espécie de ideograma para uma dada emoção, visando à apresentação direta – presentificação – do objeto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema-processo, por sua vez, faz ruptura com a história da Literatura, com a historiografia genérica, detona com a palavra como único meio de escrita, prioriza os signos não verbais, impõe-se como antiobra em regime &lt;em&gt;work in progress&lt;/em&gt;, em que o poema é mesmo processo, portanto contínuo em suas leituras e propostas de invenção de séries que incluem o leitor como co-autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Propõe-se o poema-processo “espantar pela radicalidade”, ou seja, romper com o passado, eliminar a superficialidade da criação poética com a introdução de procedimentos técnicos das vanguardas, propondo a dinâmica nas estruturas. Segundo Moacy Cirne, um dos seus principais teóricos, o poema-processo não é poesia: “Desde sua origem (1967), sabe-se que o estágio poético, característico da poesia tipográfica (poesia concreta, inclusive), não lhe é próprio como referência intersemiótica. A poesia, em sendo subjetiva, com toda a sua carga de emocionalidade, não interessa ao projeto significante do poema-processo. A prática do poema-processo não leva em conta, portanto, a possibilidade abstrata da poesia: o poema-processo é o produto físico elaborado pelo poeta-artista.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para este poetautor, o poema-processo não é para-literatura, exclui a informação estética, redimensiona a informação semântica, é experimental, critica a ideologia, é uma intervenção semiológica, inscreve-se como produção cultural, dinamiza a relação produção/leitura.” É uma síntese com certeza referencial para se deglutir o poema-processo, não obstante poder-se questionar posicionamentos teóricos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim: o poema-processo é sempre um desafio de criação de linguagem matemática, de recepção pelo leitor/consumidor, de superação de sua matriz/origem/raiz/referência primordial, de estabelecimento de VERsões lógicas de contra-estilo posto que “contra o objeto único”; de experimentalismo semiológico, de “formação conjuntural”, de “operação das probabilidades” poéticas ou da “quantificidade do reprodutível”, da “produtividade com um sentido social fundado na prática” (WDP, 1982, p.98); de vanguarda que se supera a cada nova VER/são, de proposição de um código do futuro-já. E que, com a criatividade do poeta e os recursos eletrônicos, não tem limite, senão o de sua própria superação instantânea ante a leitura de cada receptor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esclarecimento importante: “O projeto, portanto, não é um provocador de versões (novos poemas); é um planificador de novos conjuntos de signos concretizados pelo mecanismo estético-informacional da obra” (WDP, 1982, p.96). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Flash&lt;/em&gt; – a vanguarda da vanguarda&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se pode mensurar o livro-poema &lt;em&gt;Flash&lt;/em&gt;, de Oskar Kelnner Neto, pelo que ficou somente da referencialidade das vanguardas históricas, uma vez que o poeta paulista-mineiro agregou experiências eletrônicas a uma obra &lt;em&gt;work in progress&lt;/em&gt; como pouquíssimos lograram criar, sobretudo com resultados factíveis de leitura na pós-modernidade. Além deste diferencial, o experimentalismo kelnneriano inclui um &lt;em&gt;revival&lt;/em&gt; consciente das vanguardas estético-pictóricas, sob influência de o poeta ser também artista plástico ativista, donde uma nítida influência cubo-futurista em seu trabalho, com participação vigente em salões nos quais, via de regra, arrepia comissões julgadoras, não obstante alcançar certa distinção por sua ousadia e criatividade que difere do academicismo premiado pela mesmice. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oskar Kelnner Neto se supera a cada ciclo de criação, em cada VER/são poético-visual, fiel que é ao poema-processo quando já não se fala nem se admite mais rótulos de gênero ou classificações que pouco ou nada falam ao leitorado contemporâneo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, justiça seja feita – e bem feita! – o poeta é merecedor de ampla visibilidade pós-moderna com o reconhecimento mais amplo possível de sua produção ao longo de 4 décadas, superando nesse interregno “estilos de época” que vão do concretismo, pós-concretismo, poesia visual ao poema-processo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre outros que mantiveram essa produção coerente devem ser incluídos Erthos Albino de Souza, Philadelpho Menezes, Almandrade, Hugo Pontes, Joaquim Branco, Sebastião Nunes, Anchieta Fernandes, o próprio WDP, entre outros, e, em nível teórico, Jorge Luiz Antonio, por seu trabalho totalizante em função da poesia eletrônico-digital, Paulo Franchetti e Antonio Cícero – por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oskar Kelnner Neto manteve ao longo de sua trajetória poética a intenção de não apenas provocar o leitorado para o inusitado, o novo, como contribui, ainda hoje, para a consciência crítica de uma didEYEtica das vanguardas, mormente do poema processo. Seu trabalho, por isso, tem implícito um caráter pedagógico de ampla importância para que se (re)conheça nas vanguardas a evolução poética universal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Flash&lt;/em&gt; é a síntese do seu experimentalismo e inventiva, tributo consciente ao pós-concretismo e ao poema-processo, mas também aos criadores pioneiros do grafismo-visual, do ideograma, das experiências verbivocovisuais, do “salto-conteudístico-participante”, do espanto pela radicalidade, dos ismos transgressores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nele, gráficos, VER/sões, desdobramentos, texturas, flexibilidades plásticas são linhas de ação do processo, construções de leitura para forçar o olho a ver com olhos novos, mais: força o olho a VLER. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em "Relógicas" tem-se a máquina e o tempo em função do poema com uma clara intenção didática das VER/sões. Por analogia, natureza animal X mecânica temporal em que o dinossauro, o cão, o leão, a leoa, a cobra signam a lógica da finitude em questionamentos e transgressões. &lt;br /&gt;Nesse módulo, “a imagem se mantém figurativa, mas no nível da informação ela se abstrata como se tentasse inventar uma nova grafia” (WDP, 1982, p. 70). “A memória [o tempo] é a comunicação do estilo: a informação situa-se no nível da linguagem eletrônica” (id.ib.) A máquina (o relógio) em função instrumental da leitura do poema (grafia figurativa) e do processo (lógica do novo). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema-livro – trans/posições, VER/sões onde não há necessidade da VER/são ideológica, mas da interação (leitura) do receptor (co-autor consumidor dos poemas). "Relógicas" vai justificar também, com Althusser, que “não existe leitura inocente.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cerco e fuga” é um processo corrosivo do próprio processo enquanto código da linguagem. Nele tem-se o que WDP chama de “formação conjuntural” – alusão à revolução, liberdade como leitura do existencialismo, do relativismo, da tecnologia pós-industrial em que predomina a “ação combinada de forças sociais deslocada para setores da atividade cultural sem perda de sua eficácia estrutural, possibilitando uma leitura das somas e diferenças canalizadas pelo momento histórico” (WDP, 1982, p.86). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"20 Q" – re/VER/são da pedra no caminho drummondiana em contraponto às dificuldades da prática vanguardística; destruição do desafio cristalizado; fim do psicologismo poético;&lt;em&gt; fusion&lt;/em&gt; de elementos materiais antecedendo os preceitos da metalinguagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tupamarologia" – um &lt;em&gt;flash&lt;/em&gt; do desencadeamento do terror informacional: aporia da violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"TV" – crítica à massificação vidiota. O morcego como signo da usura visual (o que suga os olhos, o que cega a lógica do ver; constatação da alienação consentida e da vitrine do consumismo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Geometribo" – poema processo destacado por WDP como exemplar de “uma conjuntura intelectual dada”, em que há uma leitura [que] aglutinou outras experiências e outras exigências”, “implicando desdobramentos semiológicos próprios” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O jogo dos mágicos" – crítica político-militar-ufanista com VER/são a partir do tradicional jogo lúdico-letrista da Forca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Claro enigma" – em 1951, CDA lançou o livro &lt;em&gt;Claro enigma&lt;/em&gt;, divisor de águas na poética semântico-linguística brasileira. A VER/são kellneriana expõe a “didática fisiológica” dos atos prazerosos humanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Hímen" – processo – uma defloração gráfico-visual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Gerações" – "Lindes imutáveis" – "Ecológica 1" – "O abutre" – "O beijo" – "O cura" – "Usina 1" – "O local" – "A telaquário" = sequências de VER/sões com os elementos básicos estruturais da poética de vanguarda de Oskar Kellner Neto: texturas gráficas, colagens, balões, geometrismos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Panopticum" – revival em processo da concepção de Jeremy Benthan, criada em 1785 para designar centro que vigia os prisioneiros todo o tempo, estendendo-se a vigilância à escola, hospital, fábrica, manicônio; termo adotado depois por M. Foucault (“Vigiar e punir”) e P. Lévy para justificar o possível controle humano através do meios de informação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Vegeteis" – "Totem 25" – "Totem 45" – "Totem 56" – fotopoemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Potências" – crítica política à dominação hegemônica pelos Estados Unidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Shock" – efeito da obra sobre o observador; tendência a tornar a arte objeto de consumo comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A coroa e o rei" – VER/são de Obama rei do mundo, com poderio mantido em função da potência nuclear norte-americana; a leitura sado-cínica do poema evoca o poder dominando totalmente a consciência do poderoso cujo desfecho é o fim do mundo, na escla crescente do que presumiram J.F. Kennedy, R. Reagan, B. Clinton, W. Bush e outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Duple" – "Cerebral' – "Digressão" – "Ilusion" – "Buraco negro" – "Replicante" – "Ofídica" – "Lortey" – "Gemália" – "Invasão" – "Liberdade" – "Lunar" – "Marchet" – "Frenteguerra" – "Avis sapiens" – "O cardume" – "Varmez" – "Nóseles" – "Libid" – "Féstil" – "Futree" – "Ovelhazul" – "Vertivitae" – "Puris" – série de VER/soes a cores, com elementos compósitos recorrentes às vanguardas históricas, poéticas e pictóricas, agregadas aos recursos virtuais do computador; leituras lúdicas, geométricas, fractais, estéticas, experimentais, livres e às vezes figurativas, em que os títulos são as chaves-léxicas e funcionam como matrizes de opções criativas para a opticalização do leitor/consumidor, toda ela (a série) sob o impacto da mutação contínua, em que o poema é fração, auto-superando-se e aberto ao experimento nas linguagens. Ou, com taxionomia de Philadelpho Menezes, a série exemplifica a organicidade gráfico-estatística por substituição sígnica (Menezes, 1991, p.70) e, acrescentaria, por aglutinação, justaposição, exaustão e VER/soes plástico-virtuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU3LDDqIIfI/AAAAAAAABZA/Cf0zaRtrZC4/s1600/marcio_2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU3LDDqIIfI/AAAAAAAABZA/Cf0zaRtrZC4/s1600/marcio_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU3LGLc8h6I/AAAAAAAABZE/84xzo_JcltA/s1600/marcio_3.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU3LGLc8h6I/AAAAAAAABZE/84xzo_JcltA/s1600/marcio_3.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Titulo: Flash&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Autor:&amp;nbsp;&amp;nbsp;Oskar Kelnner Neto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Editora Clube dos Autores (2010)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Referências bibliográficas&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRANCHETTI, Paulo. Alguns aspectos da teoria da poesia concreta. Campinas: Editora Unicamp, 1989. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MENEZES, Philadelpho. Poética e visualidade – uma trajetória da poesia brasileira contemporânea. Campinas: Editora Unicamp, 1991. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;WLADEMIR DIAS-PINO. Cuiabá: Catálogo, 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*marcioalmeidas@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;marcioalmeidas@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2029605889028820344?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2029605889028820344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2029605889028820344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/sumula-sobre-poesia-de-vanguarda-poesia.html' title='Súmula sobre poesia de vanguarda, poesia concreta e poema-processo'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU26kShd3gI/AAAAAAAABY8/Laqgb9UEjyk/s72-c/marcio_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7764121693524420076</id><published>2011-02-06T14:24:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:24:53.997-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='PALAVRAS ENCALACRADAS - Márcia Barbieri'/><title type='text'>Vértebras e corais</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU24nx7j6FI/AAAAAAAABY4/n7s1odIz70M/s1600/marcia.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU24nx7j6FI/AAAAAAAABY4/n7s1odIz70M/s1600/marcia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcia Barbieri*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;“E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;(NIETZSCHE, F., Além do bem e do mal)&lt;/em&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Os carros não passam nos becos. Vértebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas são escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do chão. Jonas perdido dentro da baleia. Vísceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal lá fora. Algumas poças devolvem um retrato cruel de mim. &lt;em&gt;Doryan Gray&lt;/em&gt;. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados através do meu sorriso pálido. Dou uma olhada ao redor. A lua atrás continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calendário. Cheia, às vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, princípio de todo infortúnio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de observá-la. Calado como um animal solícito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabeça para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o pimentão. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores púrpuras. As entranhas escorrem poéticas pelas suas mãos pequenas de mulher perdida. Todas elas cortesãs. Nunca amaria alguém tão frágil nas extremidades - era tão certo devorá-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As pálpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando refúgio para seus suicídios diários. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca não devorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites são brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do relógio. Um engano matemático. Somente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chama para o almoço. Já é tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Começo a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele nó que se forma quando queremos chorar e o choro não vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Começo a entender o que significa escutar o silêncio. Me calo. O talher bate no prato. Vão. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaideço. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solidão da espinha. Ela se despedaça e desce. Solto um pequeno sorriso, dez centímetros de talho. Eles voltam a movimentar as mandíbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas águas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, ela imagina que a brasa entre meus dedos é um pequeno pôr-do- sol. Quase apagado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*marcia_barbieri@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;marcia_barbieri@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7764121693524420076?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7764121693524420076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7764121693524420076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/vertebras-e-corais.html' title='Vértebras e corais'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU24nx7j6FI/AAAAAAAABY4/n7s1odIz70M/s72-c/marcia.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2861329874113788783</id><published>2011-02-06T14:22:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:22:18.116-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ESTANDARTE - Eduardo Sabino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>O professor de piano: o real e o absurdo em narrativas breves e vastas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2vyfNcG7I/AAAAAAAABYs/CsI-gyDXGCo/s1600/eduardo_sabino.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2vyfNcG7I/AAAAAAAABYs/CsI-gyDXGCo/s1600/eduardo_sabino.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sabino*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro &lt;em&gt;O professor de piano&lt;/em&gt;, lançamento da 7 Letras do autor Rinaldo de Fernandes, apresenta narrativas de estrutura peculiar, em diálogo profundo com o mundo contemporâneo, compostas minuciosamente para impactar os leitores, ainda os mais prevenidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rinaldo expõe-se em uma linguagem acadêmica, precisa, enxuta, pontuada por muitos verbos que conferem grande agilidade ao texto. Basta uma leitura em voz alta para conferir o cuidado com a palavra, a sonoridade fluindo sem entraves. Não há pretensão de inovação linguística, mas no universo temático e na estrutura narrativa o autor alça voos de mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os onze contos do livro têm em comum a representação da violência nos espaços público e privado, num realismo estético que flerta com o fantástico. São personagens fadados ao fracasso em suas relações com o semelhante e com o mundo, perdendo-se, frequentemente, em ações e circunstâncias inusitadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A violência em Rinaldo de Fernandes se aproxima da “paixão pelo real”, conceito muito trabalhado hoje por alguns filósofos, como o esloveno Zizek. Nas últimas décadas, a arte, especialmente o cinema, tem buscado, nas obras realistas, uma certa autenticidade perdida no mundo exterior, o real em sua forma mais bruta e chocante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo parecido com alguns comportamentos frequentes, como o do sujeito que corta os pulsos para conferir se há sangue nas veias, a literatura de Rinaldo investiga a natureza humana pelo choque das desigualdades psicológicas e sociais, trazendo ao leitor a experiência do hiperreal. O que se tem, no final das contas, é um universo paralelo, uma ficção, para usar as palavras de Zizek, “mais real que a própria realidade”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As melhores narrativas do livro começam pela confusão mental dos personagens, arrasados de antemão, e ganham com isso o ritmo necessário para contar-se uma história intensa. Os elementos com os quais o leitor desbravará o texto são distribuídos com cautela, às vezes nas entrelinhas, nem sempre de forma linear. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim em “Beleza”, o conto de abertura. Um homem miserável adentra uma cidade litorânea montado em uma égua roubada (nomeada ironicamente de Beleza). A cena apresenta ao leitor a chegada de um pobre-diabo no mundo sedutor e hostil (mas real) de boa parte das narrativas do livro. No galope da égua, o leitor viaja nas reminiscências de Ismael, e vai descobrindo os motivos da sua fuga conforme monta um mosaico psicológico perturbador do personagem. Ao final do conto, Ismael responde às mazelas vividas por ele com um gesto brutal contra um indivíduo bem sucedido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O professor de piano”, a pequena obra-prima do livro, também começa com um fato inusitado, um professor rouba o carro de seu aluno e se manda estrada afora, numa espécie de fuga alucinante, inspirado por um plano oculto ao leitor (o principal combustível de interesse do texto). Somente quando o atormentado músico perde o carro, pifado na estrada, e toma carona em um ônibus até a cidade mais próxima, embarcamos no fluxo de consciência que, como em “Beleza”, montará o perfil do narrador-personagem e nos contará os motivos de seu comportamento insano. Aqui Rinaldo revela o domínio de uma técnica difícil: o texto é composto para um desvio radical na narrativa. A peripécia se dá no último parágrafo do conto e nos obriga a retomar pontos aparentemente sem importância: o carro abandonado na estrada e até “o barro nos pneus”. O conto nos conduz para um possível resgate de um piano vendido por dificuldade financeira, mas termina com a abertura de um novo e terrível horizonte. O desvio inverte os rumos do conto e a história continua, pela lacuna sugestiva, após o ponto final. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em “Ilhado”, temos talvez a perspectiva narrativa mais sofisticada do livro. O narrador observa com tranquilidade os entornos de um restaurante à beira-mar. O olhar, distante, passeia pelas palmeiras, mesas, funcionários e foca, enfim, um casal à margem. O homem veio do mar para encontrar a mulher na praia, prendeu o barco na margem e deixou seu par de tênis amarelos na areia. No segundo movimento do conto, um mendigo invade a paisagem romântica e, às escondidas, apossa-se do tênis do barqueiro. O mendigo se refugia no último andar de um prédio abandonado e, diante da revolta do homem furtado, o narrador intervém, apontando o esconderijo do ladrão. O homem vai até o mendigo, e, diante dos espectadores do restaurante, dá-lhe uma surra, quase o lançando pelo terraço do edifício. O ritmo aumenta ainda mais, quando, na terceira sequência da narrativa, o mendigo aparece munido de um facão. Daí o narrador omisso, como bem observou Regina Zilberman no posfácio, passa de observador a participante direto. Percebendo ser um alvo por ter delatado o pedinte, ele foge de barco com o casal para um desfecho sangrento em alto-mar. A estrutura lembra a do filme &lt;em&gt;Janela Indiscreta&lt;/em&gt;, do cineasta Alfred Hitchcock. No longa, um fotógrafo está &lt;em&gt;ilhado&lt;/em&gt; num quarto de apartamento, a perna engessada após um acidente de trabalho. A única diversão dele é observar, pela janela do quarto, as cenas da vida privada. Quando começa a desconfiar de um suposto crime cometido pelo vizinho (no filme, um assassinato), o narrador, como o de Rinaldo, decide interferir na paisagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ultraviolência encontra sua forma mais dura em “Você não quis um poeta”. O conto apresenta uma figura ambígua: sensível e cruel. Um poeta que, diante de uma rejeição, estoura os miolos da musa inspiradora. A ironia do conto reside na resposta realista à paixão não correspondida. O poeta também assassina, no gesto brutal, o autosofrimento do romantismo. Como diria Morpheu ao companheiro recém liberto das ilusões da Matrix, “Bem-vindo ao deserto do real”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em “O cavalo”, “Onde está o agente”, “Alucinação”, “O caçador” e “O besouro”, a narrativa se entrega de vez ao insólito, com referências aos labirintos do surrealismo, nos três primeiros, e à alegoria política, nos dois últimos. Em “Alucinação”, Rinaldo desloca, pela única vez na coletânea, a narrativa para a terceira pessoa. A escolha diz muito sobre o estado psicológico da personagem, Lúcia, que talvez não estaria em condições de narrar coisa alguma. De início, Lúcia se encontra em um apartamento e observa uma praça pela janela do quarto (novamente uma janela para o leitor, tão essencial na ficção de Rinaldo). Enquanto isso, o marido Carlos, às suas costas, fala sobre uma promoção no supermercado e sobre coisas corriqueiras do dia a dia. Enquanto isso ela vê um homem com óculos escuros descer de um fusca e beijar uma moça. Quando o homem tira os óculos, o susto, o rosto é o de Carlos, que não está mais consigo. No quarto, na verdade, aparece um velho, o dono do apartamento, assustado por ver uma estranha ali. Quando, desesperada, Lúcia deixa o prédio, Carlos não se encontra na praça, mas na janela pela qual ela observava a rua. O conto trabalha com muita competência a desconstrução da narrativa e da lógica do olhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vertentes do realismo fantástico revigorado e da ultraviolência urbana definem a linha mestra da obra. A recorrência ao insólito talvez seja um instrumento para captar o irrealismo do mundo concreto, uma realidade sem centro, deserta, construída nas bases das imagens midiáticas e publicitárias. Os grandes artistas contemporâneos talvez saibam, como só eles, que só o absurdo dá conta do atual estado das coisas. Mas longe de propor soluções discursivas alheias à arte, Rinaldo cria um universo ficcional amplo, sem moralismos, sempre intenso e surpreendente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O professor de piano&lt;/em&gt; tem tudo para agradar os amantes da narrativa breve. Trata-se de um trabalho primoroso de um dos nossos maiores contistas em atividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2zJTMfOJI/AAAAAAAABYw/65WwxQ4HcAY/s1600/eduardo_sabino_2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2zJTMfOJI/AAAAAAAABYw/65WwxQ4HcAY/s1600/eduardo_sabino_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2zMbk7vEI/AAAAAAAABY0/bSbcxDM5d9c/s1600/eduardo_sabino_3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2zMbk7vEI/AAAAAAAABY0/bSbcxDM5d9c/s1600/eduardo_sabino_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Título: O professor de piano&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Autor: Rinaldo de Fernandes&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Editora 7 Letras (2010)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosabino@caoseletras.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosabino@caoseletras.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2861329874113788783?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2861329874113788783'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2861329874113788783'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/o-professor-de-piano-o-real-e-o-absurdo.html' title='&lt;i&gt;O professor de piano&lt;/i&gt;: o real e o absurdo em narrativas breves e vastas'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2vyfNcG7I/AAAAAAAABYs/CsI-gyDXGCo/s72-c/eduardo_sabino.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7418991533689481476</id><published>2011-02-06T14:21:00.000-08:00</published><updated>2011-02-07T04:04:03.947-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Escrever por dinheiro</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2tQ_tiHKI/AAAAAAAABYk/PfiKE2qG1iM/s1600/homero_gomes.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2tQ_tiHKI/AAAAAAAABYk/PfiKE2qG1iM/s1600/homero_gomes.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Homero Gomes*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;"Ele precisava escrever um livro, a qualquer preço. A qualquer preço, ele precisava escrever um livro. Ele precisava, a qualquer preço, escrever um livro." &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;(Otto Winck, no romance Jaboc)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O computador do trabalho travou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com o tempo que estou perdendo nessa espera inútil poderia escrever um conto ou um poema”, Ele não escreveu nem um nem outro, pois recebe seu salário para ficar à disposição da empresa por 8h30min diárias, mas manteve sua posição enquanto eu repassava as notas fiscais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A primeira coisa que penso ao levantar todas as manhãs é que financio minha escrita com o que ganho aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E se dê por satisfeito”, disse eu, sem olhar pra Ele, que bateu na mesa. Caminhando até a mesinha, onde ficavam as bolachas Maria e a térmica de café, Ele virou-se para mim, indignado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Escrever não é como comprar uma máquina de lavar, pô.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As máquinas, pelo menos, tiram os encardidos das roupas”, eu havia parado de conferir os números, Ele parecia cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa cara encardida nem alvejada de elogios. Chega, quero dinheiro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E com literatura dá pra pagar os balões que a construtora joga na sua mão mesmo não estando em junho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cai, cai, balão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a epígrafe retirada do &lt;em&gt;Jaboc&lt;/em&gt; martelando ou não na cabeça, Ele sai da sala e entra no escritório do chefe. Consigo ouvir, com algum esforço, algumas palavras d’Ele.&lt;br /&gt;“... o computador não podia ter travado... ficar esperando quanto tempo?...“&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, o computador d’Ele tentava acertar os seus 0s e 1s entre uma e outra vibração do cristal do processador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“... pra casa... não... prazo não pode... minha casa... escrever... não adianta... demitido nada... estourado... o prazo... ameaçando sim... faça, então... amanhã... só amanhã... fui!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saiu da sala, o chefe ainda falando, de pé; climão chato. E a epígrafe retirada do &lt;em&gt;Jaboc&lt;/em&gt; martelando na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que houve lá dentro, cara? Cê deixou o chefe falando sozinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Comecei a ficar com arritmia com sensação de estômago vazio com palpitações nas pálpebras não aguentei tive que sair dali estava ficando angustiado com dor no braço esquerdo será que isso é ataque de pânico tenho que ir pra casa não vou ficar esperando esse troço pegar o prazo já estourou mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andando em direção à saída, muitos perguntam se Ele está bem. Tentando disfarçar o cansaço mental, a angústia, Ele diz que sim, ou sou eu que digo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos, Ele consegue, consigo, concatenar alguns pensamentos enquanto anda, ando, pelo longo estacionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Otto escreveu um dos romances com os quais mais me identifiquei. Um dos melhores romances que li durante esses últimos anos. O problema é que não se deve pensar demais, faz mal. Chega de elogios. Isso não serve de nada. Quero dinheiro. Chega de todos achando lindo sem compreender patavina.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela epígrafe&amp;nbsp;&lt;em&gt;O&lt;/em&gt; impelia a escrever. “Me impelia com força. A escrever qualquer texto que fosse, não necessariamente um romance. Essa epígrafe martelava na cabeça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um poema, uma novela juvenil, um conto. “Qualquer texto, até este.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando não se está satisfeito consigo mesmo, nenhum texto presta. Não adianta revisar. “Dinheiro me daria, sim, muita motivação; por que não? Escrever não pode ser à força. Na forca, não há criação. Difícil olhar-se de fora. Por isso, escrevo outros”, mas a que preço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folheando o romance&lt;em&gt; Jaboc&lt;/em&gt;, guardado no porta-luvas, outro trecho previamente sublinhado: "&lt;em&gt;Um quarto da população com fome (...) E você, artista, não tem vergonha de se preocupar com um livro?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ligando o motor e respondendo como se o narrador de &lt;em&gt;Jaboc&lt;/em&gt; pudesse ouvi-lo, “Cara, tenho contas pra pagar, quem sabe um dia eu consiga pagar uma parcela do meu carro com um texto que escrever por qualquer dinheiro? Quero escrever, mas preciso de dinheiro como todo mundo. Então, porque não posso escrever por dinheiro? Quem disse que eu não posso mais que um bacharel ou um engenheiro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria ser apresentado a quem definiu essas diferenças. “Não iria sobrar placa bacteriana que fosse.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2taxpzo4I/AAAAAAAABYo/MJS6BPl9RqQ/s1600/homero_2.png" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2taxpzo4I/AAAAAAAABYo/MJS6BPl9RqQ/s1600/homero_2.png" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;Título: Jaboc&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Autor: Otto Winck&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Editora Garamond (2006)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Homero Gomes (Curitiba-PR, 1978)&amp;nbsp;é escritor. Autor dos trabalhos ainda inéditos &lt;em&gt;Sísifo desatento&lt;/em&gt; (contos), finalista do Sesc de Literatura, edição 2007,&amp;nbsp;e &lt;em&gt;Jamé Vu&lt;/em&gt;, que foi publicado na internet durante o primeiro semestre de 2010. É editor do &lt;em&gt;site&lt;/em&gt; &lt;a href="http://jamevu.tumblr.com/" target="_blank"&gt;Jamé Vu&lt;/a&gt;. Colaborou com Rascunho, Cult, Germina Literatura, Ficções e Triplo V. É colunista do &lt;em&gt;site&lt;/em&gt; Página Cultural (www.paginacultural.com.br). Contato: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:homero.gomes@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;homero.gomes@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7418991533689481476?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7418991533689481476'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7418991533689481476'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/escrever-por-dinheiro.html' title='Escrever por dinheiro'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2tQ_tiHKI/AAAAAAAABYk/PfiKE2qG1iM/s72-c/homero_gomes.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8086451969207420335</id><published>2011-02-06T14:20:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:20:02.192-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>A literatura em crise</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2eHeKWi2I/AAAAAAAABYg/R1X2idr3KR8/s1600/daniel_1.JPE" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2eHeKWi2I/AAAAAAAABYg/R1X2idr3KR8/s1600/daniel_1.JPE" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Daniel Lopes*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que comecei a me interessar por livros, lá pelos quinze, dezesseis anos, tenho ouvido falar de crise na Literatura. Não consigo enxergar nisso um problema. Pra mim, não só a Literatura, mas a Arte em geral se alimenta do conflito. Pra que diabos um cidadão perfeitamente conectado à sociedade e ao mundo que o cerca se trancaria num quarto, isolado por dias e dias, para escrever um livro que o esgota? Quem está contente com a vida, vive a vida. Para aqueles que são mais de um e são sempre palco de contradição, a Arte é muitas vezes o único caminho e a única salvação. Só acredito em quem escreve assim. Sou como Nietzsche: &lt;em&gt;“De tudo quanto se escreve, só me agrada o que alguém escreveu com sangue. Escreve com sangue e descobrirás que o sangue é espírito.”&lt;/em&gt; A vida para escritores deste calibre, quase sempre, é só um instrumento para a Poesia. É de escritores assim, com este amor pela Literatura que estamos precisando. Ela, a Literatura, é uma deusa exigente. Não vejo crise nas Artes, vejo sim, muita coisa ruim sendo produzida, publicada, assimilada, estudada e passada adiante, numa tramoia imensa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provavelmente vou ser tachado de reacionário por esta afirmação, mas, a meu ver, as vanguardas do início do século vinte mataram a Arte. Como assim? O que este idiota está falando? – Você, leitor, deve estar vociferando. Calma! Vamos por partes. A princípio, as vanguardas cumpriram seu papel. Romperam com um modelo estético que já não correspondia ao mundo no qual as pessoas se movimentavam. Muitos artistas e muitas obras foram veementemente vaiados por isso. O problema é que o pensamento pequeno burguês aprende fácil e transforma tudo em massa de manobra. Quando os donos do capital descobriram que o legalzinho era o diferente, a vanguarda, passou a vaiar tudo o que pudesse soar tradicional, como um escritor que escreve com palavras, ou um músico que compõe com notas musicais, por exemplo. É por essas e outras que muito do que é produzido e vendido sob o rótulo de Arte atualmente não passa da mais descarada impostura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o código se volta excessivamente sobre o próprio código deixa de comunicar para o mundo e se torna coisa para uns poucos iniciados. A Arte produzida assim é uma coisa científica, estéril, morta. Não quero dizer que o trato com o código não seja essencial, claro que é. Mas o código é um meio e não um fim. O fim deve ser sempre o fogo, o magma, o Essencial Humano. Arte é pulsação, vida, Eros. Leiam &lt;em&gt;Song of myself&lt;/em&gt; de Walt Whitman em voz alta e vocês vão entender do que estou falando. Agora não me venha escrever a palavra lixo com dezenas de palavras luxo e me dizer, por meio de um tratado de semiótica, que a estética deve fruir daí para o meu espírito ignóbil. Eu, que também escrevo, quero escrever um livro tão vivo que se acaso o transpassarmos com uma faca, todas as palavras escorram densas como sangue. E, ao abrirmos o volume depois, todas as páginas estejam em branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escreve mal, quem escreve pelas teorias e pelo que está na moda nas universidades: gênero epistolar... literatura carcerária... periferia das grandes cidades... Internetês... Nada disso, se não vier do peito do escritor, vai ficar. É com o coração que se procuram os temas. É o peito quem vai dizer: isso faz parte de você. Qual é a essência da Grande Arte? Toda obra marcante é profundamente subjetiva. Parte de um mergulho tão profundo do artista em sua alma que ele (o artista) acaba por tocar a alma do mundo. Em algum lugar dentro de nós, a nossa essência e a essência do mundo são a mesma. Eu vejo Dostoievski em cada palavra d&lt;em&gt;Os irmãos Karamazov&lt;/em&gt;, de &lt;em&gt;Crime e castigo&lt;/em&gt;, d&lt;em&gt;O jogador&lt;/em&gt;. Chego a conversar com ele e imagino a dor das noites brancas da Rússia e da Sibéria. Não há distância entre o corpo e o texto. Quem escreve só com o cérebro é um mau escritor. Quem escreve só com as mãos é um mau escritor. É com o corpo todo e com a vida e com a paixão e com o amor que se escrevem os grandes livros. Eu vejo um universo e um modo de enxergar o mundo dentro de cada grande livro. Rimbaud não compôs &lt;em&gt;Uma estadia no inferno&lt;/em&gt; assistindo Discovery Chanel, foi necessário queimar as mãos nas chamas do Diabo. William Blake não compôs os ditos do inferno assistindo Discovery Chanel. Foi necessário percorrer os caminhos do excesso para chegar ao palácio da sabedoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou farto de ler textos criativos, mas sem vida. Estou farto de ler textos inteligentes, mas sem vida. Jack Kerouac percorreu os Estados Unidos numa jornada cósmica e morreu de beber quando percebeu que não havia sentido por mais que ele procurasse. A coisa não estava na estrada, não estava na amizade, não estava na escrita, não estava em lugar algum. Todos querem ser escritores, posar de escritores, mas quem está disposto a se queimar assim? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando os impostores, que são muitos, também tem muita gente escrevendo dentro da verdade, do fundo do espírito. Mas eles encontram a luz de pelo menos meia dúzia de leitores? Alguns encontram, outros não. E aí vem outra questão pertinente no cenário cultural do Brasil hoje. Mas antes de tratar a respeito, vamos voltar um pouco no tempo: &lt;em&gt;"Em 1837 Liszt deu em Paris um concerto, onde se anunciava uma peça de Beethoven e outra de Pixis, obscuro compositor já então considerado de qualidade ínfima. Por inadvertência, o programa trocou os nomes, atribuindo a um a obra de outro, de tal modo que a assistência, composta de gente musicalmente culta e refinada, cobriu de abraços calorosos a de Pixis, que aparecia como de Beethoven, e manifestou fastio desprezivo em relação a esta, chegando muitos a se retirarem".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trecho acima está no livro &lt;em&gt;Literatura e sociedade&lt;/em&gt;, do professor Antonio Candido, página 32, e serve para ilustrar o tamanho da importância do reconhecedor de talentos, do cara que se destaca do grande público e da massa e tem a capacidade e a sensibilidade de sentir e perceber o diferente. Talvez a figura que falte no cenário cultural brasileiro não seja a do escritor de talento, do músico de talento ou do pintor de talento. Talvez o que falte seja o cara que tenha tempo, paciência, boa vontade e generosidade para trazer à tona o trabalho de artistas ainda obscuros. Quando falta esse cara, honesto, bem intencionado e imparcial, as panelas e os conchavos tomam conta e muita gente boa acaba ficando de fora, enquanto outros, cujas obras têm qualidade questionável acabam &amp;nbsp;em evidência, mais por questões políticas do que artísticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que seria de Manoel de Barros sem a resenha de Millor Fernandes no Pasquim? O que seria de Jean Michel Basquiat, sem o artigo de René Ricard? Não estou dizendo que Manoel de Barros e Basquiat não teriam alcançado o sucesso sem as críticas de René e Millor, mas que as coisas teriam sido muito mais difíceis, lá isso teriam. Sem dúvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto todos os grandes prêmios musicais e toda a grana estão indo, neste exato momento, para Ivete Sangalo e Cláudia Leite, o jovem negro se tranca no quarto, imagina estar sozinho, compõe ali o mais belo chorinho para ninguém. A mulher amada não se interessa, as gravadoras não se interessam, mas Deus desiste de acabar com o mundo,&lt;em&gt; by fire&lt;/em&gt;, por causa da sua canção. Arcano da salvação. Todos os dias um artista fracassado salva o mundo. Todos os dias um artista fracassado se livra dos tentáculos e dos fios invisíveis e faz piada do caos e do diabo. Só quem trabalha assim é digno de ter o nome escrito entre as estrelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Daniel Lopes tem textos publicados nas revistas literárias Amálgama, Cronópios, Germina e Escritoras Suicidas. Publicou, em 2008, o romance &lt;em&gt;É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança&lt;/em&gt;. Em 2010, publicou o livro de contos &lt;em&gt;Pianista boxeador&lt;/em&gt;. Vencedor do prêmio Valeu Professor 2010, categoria conto. Contato: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:danielopes26@yahoo.com.br"&gt;&lt;span style="color: #cc3300;"&gt;&lt;strong&gt;danielopes26@yahoo.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8086451969207420335?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8086451969207420335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8086451969207420335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/literatura-em-crise.html' title='A literatura em crise'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2eHeKWi2I/AAAAAAAABYg/R1X2idr3KR8/s72-c/daniel_1.JPE' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-5488035840163455264</id><published>2011-02-06T14:19:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:19:00.648-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>A degola</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2cl9Ii2aI/AAAAAAAABYc/P0aPnBnzoFI/s1600/claudio_b_carlos.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2cl9Ii2aI/AAAAAAAABYc/P0aPnBnzoFI/s1600/claudio_b_carlos.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cláudio B. Carlos (CC)*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostava de ver. Sentia uma espécie de gozo, que só experimentava quando via o sangue escorrendo pelo pescoço rasgado. O capim ficava salpicado de um vinho forte. As folhas dos eucaliptos, que secas, eram trazidas pelo vento, se borravam de sangue. O brilho que sumia, aos poucos, dos olhos amendoados, arrepiava-me. Eu gostava daquele espetáculo. Não era por mal. Eu não sabia que era um menino mau. Ficava ali, acocorado, bem perto, vendo a ovelha dependurada pela perna. Eu não sabia muito bem o que acontecia, não imaginava que era ela, a vida, que se esvaía. Hoje em dia é bem melhor: além de ver o sangue que escorre, posso, às vezes, sentir a alma saindo dos corpos. Não via isso nas ovelhas: bicho não tem alma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do livro &lt;em&gt;O uniforme.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Cláudio B. Carlos (CC) é poeta e prosador, nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé-RS. Desde 2005 publica na internet. Em 2010 criou &lt;em&gt;O Bodoque&lt;/em&gt;, grupo de escritores.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Publicou os livros &lt;em&gt;Um arado rasgando a carne&lt;/em&gt; (2005) e &lt;em&gt;O uniforme&lt;/em&gt; (2007). Contato: &lt;a href="mailto:claudiobcarlos@gmail.com"&gt;claudiobcarlos@gmail.com&lt;/a&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-5488035840163455264?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5488035840163455264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/5488035840163455264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/degola.html' title='A degola'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2cl9Ii2aI/AAAAAAAABYc/P0aPnBnzoFI/s72-c/claudio_b_carlos.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2131878780497406578</id><published>2011-02-06T14:17:00.000-08:00</published><updated>2011-02-06T14:17:36.220-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Linha férrea</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2WDOuq_fI/AAAAAAAABYY/TF1vpg7hcEA/s1600/tercia.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2WDOuq_fI/AAAAAAAABYY/TF1vpg7hcEA/s1600/tercia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Tércia Montenegro&lt;/b&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia mais dormir. Observava o sono do velho: braços e pernas estirados, inúteis. Apenas a cabeça permanecia viva, para dar ordens em alta voz e lançar olhares cheios de fúria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo, quando era um menino, o velho quis educá-lo; funcionou como uma família inteira, com todos os cuidados. Era rico, sem herdeiros __ foi fácil apegar-se àquela criança magra e suja que se divertia improvisando armadilhas para aves, pelo simples prazer de segurá-las e ir arrancando, uma a uma, as penas de suas asas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do desastre, tudo mudou. O menino, já adolescente, via-se obrigado a cuidar daquele homem transformado em estranha carcaça, que bem se poderia jogar num canto esquecido, não fossem os gritos que ecoavam pela casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É como uma linha férrea desativada” __ o médico lhe mostrava o raio-x, levantando a chapa contra a luz. Lá estava a coluna vertebral, na estrada completa, com todos os seus ossinhos aparentemente em perfeito estado. Mas agora não servia para mais nada, os membros paralisados, a teia dos músculos já frouxa. O velho precisaria de atenção constante: para ir ao banheiro, para passear na cadeira de rodas (estofada como um sofá), para mudar os canais da televisão... E os gritos a cada momento. Chamava o rapaz por qualquer motivo, um copo d'água que era preciso levar aos lábios, a mosca que lhe zumbia sobre a testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele quis contratar um enfermeiro, mas não conseguiu convencer o velho __ era seu filhinho, não podia abandoná-lo na mão de qualquer pessoa. A partir daí nasceram os olhares de ódio, única ameaça do pai adotivo, intimidação silenciosa que dizia o que a voz não arriscava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias eram todos iguais, e a rotina lhe trazia certa habilidade com as tarefas. Fazia tudo no horário certinho: comida, banho, barba. Escovava os dentes do boneco de carne, penteava o cabelo escasso. E os assuntos repetidos, que ele respondia com silêncio, mas não podia deixar de escutar, desesperado com as mesmas histórias, as queixas. Por que o velho não fazia como os pássaros, que nem piavam nem nada, com as penas extraídas como dentes e as asas ao final completamente peladas, dois bracinhos tortos e nus, pingados de sangue?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho, porém, falava. Os olhos, se os buscasse, eram sempre iguais, inflamados de raiva, ódio de estarem ali, presos, enquanto o rapaz poderia passeá-los por onde quisesse, qualquer paisagem, qualquer corpo __ era livre, móvel. A cada momento poderia deixá-lo, aproveitar a vida... mas ele não permitiria que aquilo acontecesse. Havia a herança, uma fortuna em dinheiro e terras. Certa vez mesmo disse o valor de seu testamento, incentivou o filho a falar, e foi das poucas vezes em que o rapaz conversou com ele. Os olhos então ficaram alegres __ o seu menino fazia planos, ia comprar um carro belíssimo, hein? E uma fazenda, que tal? O dinheiro dá e sobra. Fazendona cheia de bichos. E viagens __ poderia viajar para onde quisesse, sair daquele fim-de-mundo. Verdade que tinha enriquecido ali, as terras eram boas e o povo, ingênuo. Mas para os jovens aquilo devia ser uma cidadezinha de merda, sem diversão nenhuma, hein? Se era!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz chegou a rir, excitado pelos projetos. Dava palmadinhas na coxa do velho, que também se exaltava, esticando o pescoço. Ainda falaram de bebidas e mulheres, parecendo antigos companheiros de bar, até que o homem tossiu uma, duas vezes __ e se calou. Depois o olho ficou novamente sério, a voz agravou-se:&lt;br /&gt;__ Mas isso tudo, eu lhe digo, só depois da minha morte. Até lá, você fica comigo, é sua obrigação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinal de cabeça, afirmativa a contragosto. Como se um forte vento tivesse destruído a armadilha de gravetos e o passarinho emplumado já voasse bem longe... De volta às tarefas de sempre, tudo no horário certo. Mas ele não conseguia se concentrar mais em nada, nem dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhava pela sala silenciosa, dissolvido na penumbra, sem formas. Sala ampla, com a coleção de relógios antigos respirando metalicamente. Tão jovem, ele. Bonito, até __ olhava-se no espelho, às vezes, e gostava do rosto moreno, de feições firmes. Tão distante da velhice, daquele cheiro adocicado que o tempo traz. A pele bamba despregando pouco a pouco da carne e da vida: tudo inútil, depois. Abre a porta da frente __ o jardim está quase morto, repleto de folhas secas. Agora observa outra vez a chapa contra a luz. Uma linha férrea, sim. Sem ligações nervosas, sem circuitos, o trenzinho parado não se sabe em que canto do corpo, enferrujando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela cidade, a estação fica distante, os trilhos são longos e cortam as principais ruas e a praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembra-se do primeiro encontro com o velho: ali perto, ao pé da ferrovia, ele menino, vendo aquele homem que andava normalmente e tinha descido do trem sem precisar de ajuda, sem imaginar que ficaria inválido. Um convite para almoçar: ele, tão magro e sujo, adorou o bife com batatas. Depois, quando o homem o chamou para a casa, pensou que ia ser sempre assim, todo dia, filhinho-e-papai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou no quarto do velho. O sono custoso, sufocado, lábios soltos preparando ordens. Amordaçá-lo, sim. Como a um cão raivoso. Nunca mais ouvir seus gritos chamando, lá da cozinha, do banheiro. O homem se tornou essa cabeça aflita que não para de ordenar. O resto do corpo é indiferente __ poderia encostar ferro em brasa na pele: tudo morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela noite, o passeio na cadeira-sofá; ele vai empurrando por trás e assim não vê os olhos do velho, de boca amordaçada, braços e pernas acorrentados na própria paralisia. “Vamos rever o local do nosso encontro, papai” __ a voz baixa, só ela, no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã será livre. Dinheiro, terras, viagens __ por que o velho foi falar? Talvez ele nunca tivesse pensado naquilo. O trem das onze chega logo. Sente um arrepio: a luz do poste iluminou o rosto do homem, o mesmo que descia na estação, anos atrás. Não podia imaginar que um dia estaria deitado na linha do trem, com o menininho lhe ajeitando os membros, cuidadoso como se buscasse o equilíbrio entre as madeiras de uma gaiola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afasta-se. Pensa em voltar rápido para casa; a cadeira de rodas leve, ágil. Mas não resiste a um impulso: o de ver os vagões correndo, correndo, atravessando a linha férrea e correndo, correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Do livro&lt;i&gt; Linha férrea&lt;/i&gt;, vencedor do prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, da revista Cult, e publicado pela Lemos Editorial em 2001.&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;*Tércia Montenegro é escritora e professora, doutora em linguística pela&amp;nbsp; Universidade Federal do Ceará. Autora dos livros &lt;i&gt;O vendedor de Judas&lt;/i&gt; (Edições UFC, 1998),&lt;i&gt; Linha férrea&lt;/i&gt; (Lemos Editorial, 2001), &lt;i&gt;O resto do teu corpo no aquário&lt;/i&gt; (Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, 2005), entre outros. Contato:&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;a href="mailto:literatercia3@gmail.com"&gt;literatercia3@gmail.com&lt;/a&gt;.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2131878780497406578?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2131878780497406578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2131878780497406578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2011/02/linha-ferrea.html' title='Linha férrea'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TU2WDOuq_fI/AAAAAAAABYY/TF1vpg7hcEA/s72-c/tercia.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-3055917392016270183</id><published>2010-12-12T14:48:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:48:55.825-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Punhalzinho cravado de ódio</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQVHUx57DCI/AAAAAAAABUs/3F3GPrKvk0U/s1600/nilto.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQVHUx57DCI/AAAAAAAABUs/3F3GPrKvk0U/s1600/nilto.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nilto Maciel*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminha Ana pelo beco esburacado, perninhas de embuá, doida para alcançar a esquina. Saltita, feito catita, de ilha em ilha, com medo de se afogar nas poças de lama. Cachorros sonolentos abrem os olhos para sua figura miúda e se espreguiçam e expõem as indecências encarnadas de entre as pernas. Voltam a sonhar, sérios, acanhados, magros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cambada de vagabundos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol assa a areia, os pesinhos gordos da anã, racha a taipa dos casebres, os lábios da mulher, reluz nos cacos de vidro expostos no meio da rua, nos olhos da caminhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Arre-égua!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abertas as portas da bodega de Bodinho, anunciada por placas de Coca-Cola. Dentro, moscas fartas, catinga de cachaça, salpicada de escarros, sortida de mil mantimentos para gentes e bichos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venta para todas as bandas e tudo se mexe, remexe, rebola, remoinha. Os vira-latas acordam raivosos, voa poeira entre as casas, papéis de embrulho viram arraias bicós e o bodegueiro pragueja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vão embora gritos, pules de jogo do bicho, esperanças, tudo em fuga pelos becos. Do lado de dentro do balcão, Bodinho arruma jornais de ontem e inventa pragas contra o diabo da ventania. Sunga as calças e a pança balança, fofa, mole, cheia. Zunem moscas alvoroçadas. Pousam nos braços curtos da freguesa, pegajosas. Fazem cócegas na pele grossa de Ana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Desgruda, desgraçada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela porta atrás da anã entra Pêu, arreganha os dentes podres. Estica as pernas, pula para um caixão de sabão, quase a roçar nos cabelos de Ana. Atrás do balcão, Bodinho assobia e ri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solta na buraqueira desde os tempos de chupeta, Anazinha meteu-se cedo nos becos da molecagem. Anãzinha praqui, Aninha pracá, co¬nheceu um a um os moleques do Pirambu. Com Pêu experimentou as primeiras dores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Casar? Nunquinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também nunca pegou barriga de nenhum cabra safado, muito me¬nos de Pêu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não teve a sorte de conhecer um de seu tamanho, de feitio anão, do jeito de seu agrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãozinhas postas sobre o cocô das moscas, pede a anã o milho de suas galinhas. Depressa, enquanto o cão esfregasse o olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo santo dia, quer chovesse, quer fizesse sol, ia Ana com¬prar a janta de suas criações. Bodinho nem precisava perguntar o que queria ela. Precisasse de querosene para as lamparinas, voltava noutra hora ou dormia no escuro. Carecesse de alimento para si, passava fome ou dava outra viagem, embora os cachorros da rua vi¬vessem a espiá-la do rés do chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cambada de vagabundos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não se vissem frente a frente desde os tempos das sacanagens, Pêu coçou o queixo, lambeu os bigodes sujos, futricou os ovos e não pediu cachaça: se Aninha comia milho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a raça do Pirambu sabia de sua predileção por galinhas. Na bodega de Bodinho só ela comprava milho. Todo dia, tarde cedo. Criava as bichinhas com fartura e amor, sem sovinice de nada. Muitas. E só não possuía o maior galinheiro do mundo porque precisa¬va vender sempre uma para dar de comer às outras. A preço de banana, mais baratas do que bolo em fim de festa. Não, nunca comeu sequer o pé de uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deus me livre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ri Pêu da sabedoria da anã e pede uma talagada. Desapeia do caixão e encosta-se à antiga companheira de sacanagens detrás dos morros de areia. O bodegueiro demora-se a ver os olhos reluzentes de Ana, aquele fogo a queimar seus jornais velhos, aquela pua a furar o outro freguês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ida pela casa dos trinta, a anã não rompia as fronteiras do metro, mas a cada dia se alargava, feito um saco de algodão. Sua boca armazenava todos os ódios do Pirambu e, quando não supor¬tava mais contê-los, não escolhia as caras e cuspia insultos até contra os vira-latas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Perdeu alguém parecido comigo, baitola?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrega Bodinho o embrulho de milho, apanha a garrafa, sem despregar da anã os olhos, derrama veneno no copo e levanta a taça de vencedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma palavra sobe do porão de Ana, que agarra sua ração, agacha-se e a deposita ao pé do balcão. Pêu despeja goela a dentro toda sua vida e solta um grito de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua virilha, um punhalzinho enferrujado e cheio de ódio acabava de se cravar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQVHcmUYmJI/AAAAAAAABUw/hfWOEdNKjR0/s1600/nilto_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQVHcmUYmJI/AAAAAAAABUw/hfWOEdNKjR0/s1600/nilto_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;* &lt;strong&gt;Nilto Maciel nasceu em Baturité, Ceará, em 1945. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77, tendo trabalhado na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Regressou a Fortaleza em 2002. Editou a revista Literatura, de 1992 a 2008. Autor de vários livros, entre eles &lt;em&gt;A guerra da donzela&lt;/em&gt; (romance, 1982), &lt;em&gt;A leste da morte&lt;/em&gt; (contos, 2006) e &lt;em&gt;Navegador&lt;/em&gt; (poemas, 1996).&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-3055917392016270183?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3055917392016270183'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3055917392016270183'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/punhalzinho-cravado-de-odio.html' title='Punhalzinho cravado de ódio'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQVHUx57DCI/AAAAAAAABUs/3F3GPrKvk0U/s72-c/nilto.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-525027169742527968</id><published>2010-12-12T14:47:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:47:07.918-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CÂMERA SECRETA'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SOLO INSÓLITO'/><title type='text'>Sobre a sutil poesia de um certo cinema de ficção científica:</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;The Wild Blue Yonder&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;de Werner Herzog, e &lt;em&gt;Amor Voraz&lt;/em&gt;, de Walter Hugo Khouri&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9Di1iJAI/AAAAAAAABUY/k9iThbj29YY/s1600/suppia_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9Di1iJAI/AAAAAAAABUY/k9iThbj29YY/s1600/suppia_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alfredo Suppia* &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirigido por Werner Herzog, &lt;em&gt;The Wild Blue Yonder&lt;/em&gt; (2005) é sugestivamente subtitulado uma “&lt;em&gt;science fiction fantasy&lt;/em&gt;”, conforme estampado em cartazes e na capa de seu DVD. Mas seria possível uma ficção científica que não fosse fantasia? Talvez o subtítulo de Herzog seja uma “pista falsa”. O filme combina imagens documentárias submarinas, realizadas por Henry Kieser no Oceano Antártico, registros da NASA e trechos de ficção, nos quais Brad Dourif interpreta um alienígena do sistema Andrômeda. Esse personagem vai narrar a aventura da humanidade em busca de outro planeta, em contraposição à empresa de seu próprio povo, interessado em colonizar a Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9R9VGfNI/AAAAAAAABUc/TscbhwQ1_tE/s1600/suppia_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9R9VGfNI/AAAAAAAABUc/TscbhwQ1_tE/s320/suppia_2.jpg" width="225" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No decorrer desse épico sobre exploração espacial, Herzog ainda reúne depoimentos de cientistas sobre as possibilidades de viagens espaciais de longa distância. A combinação entre imagens ficcionais (essencialmente as intervenções de Dourif) e documentárias (tomadas submarinas, registros de operações da NASA e depoimentos de cientistas) confere um realismo peculiar à narrativa híbrida de ficção científica, lembrando-nos da ideia de “documentário de futuro” já proposta por Raymond Bellour em relação a &lt;em&gt;La Jetée&lt;/em&gt;&lt;sup&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estratégia de deslocamento (o emprego de imagens documentárias em circunstâncias ficcionais) e intercalação adotada por Herzog não é nova. Lembra filmes como &lt;em&gt;Phase IV&lt;/em&gt; (1973), de Saul Bass (curiosas intercalações da ficção a tomadas documentárias de formigas feitas por Ken Middleton), &lt;em&gt;Level 5&lt;/em&gt; (1997), de Chris Marker, outra espécie de “documentário de futuro”, e até mesmo uma chanchada brasileira tardia, &lt;em&gt;Os Cosmonautas&lt;/em&gt; (1962), de Victor Lima, no qual a expedição de astronautas brasileiros (Grande Otelo e Ronald Golias) é baseada nessa estratégia de deslocamento, intercalando imagens do programa espacial americano, depositadas no arquivo da Herbert Richers, a sequências ficcionais. Por sua vez, Herzog organiza uma narrativa híbrida extremamente coesa e eficiente, apostando duplamente no caráter realista e poético das imagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9dEybLmI/AAAAAAAABUg/5GR9S2YyXLM/s1600/suppia_4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9dEybLmI/AAAAAAAABUg/5GR9S2YyXLM/s1600/suppia_4.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A exploração da “poesia” interpretável em conceitos científicos e imagens da NASA também não é novidade. Muitas pessoas utilizam &lt;em&gt;screensavers&lt;/em&gt; da agência espacial americana pelo mesmo motivo. Mas &lt;em&gt;The Wild Blue Yonder&lt;/em&gt; explora esse potencial poético com grande competência a serviço de um longa-metragem. Esse duplo movimento - a “poesia” e a “realidade” por trás da ciência, e da imagem documentária científica -, aparentemente paradoxal, já foi a joia de documentaristas científicos como Jean Painlevé ou Carl Sagan, e parece constituir uma bela chave de interpretação para a ficção científica em suas diversas manifestações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alienígena interpretado por Dourif, bem como toda a especulação científica em torno de viagens no tempo e espaço, mobilizando conceitos como a Teoria da Relatividade, lembra também outro filme de ficção científica de caráter poético-realista, rodado no Brasil. &lt;em&gt;Amor Voraz&lt;/em&gt;, filme de 1984 escrito e dirigido por Walter Hugo Khouri, é uma ficção científica sem efeitos especiais nem recurso a elementos muito evidentes de identificação com o gênero. Baseado no romance &lt;em&gt;O Beijo Antes do Sono&lt;/em&gt;, de Fausto Cunha, publicado em 1974 pela editora ArteNova, o filme, sobre o relacionamento entre uma mulher e um alienígena, é representativo de uma vertente da ficção científica mais sutil, poética e intimista, na linha praticada por cineastas como Andrei Tarkovski. Quando se comenta obra de Khouri, fala-se de Antonioni, de Dreyer e de Bergman, mas há também em &lt;em&gt;Amor Voraz&lt;/em&gt; alguma similitude com o estilo do Tarkovski de &lt;em&gt;Solaris&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Stalker&lt;/em&gt;, nos longos planos contemplativos (especialmente aqueles voltados para a água: lagos, cachoeiras, corredeiras, etc.). Sobre sua afinidade com a narrativa fantástica, o próprio Walter Hugo Khouri comenta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;O meu fascínio pelo clima fantástico, pelo irreal, pelo estranho e pelo insólito vem desde as minhas leituras de infância e continuou pela adolescência e pela idade adulta, ali já abrangendo todos os domínios da arte: literatura, artes plásticas em geral e, naturalmente, cinema&lt;/em&gt;. (&lt;sup&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;2&lt;/span&gt;&lt;/sup&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="mso-element: footnote-list;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Enquanto se recupera de problemas nervosos numa casa de sua família, fora da cidade, Ana (Vera Fischer) encontra um desconhecido (Marcelo Picchi), homem de saúde precária com quem conversa telepaticamente e pelo qual se apaixona. Esse homem é um extraterrestre que viajou no espaço, por meio da luz, com o objetivo de encontrar refúgio para seu povo, civilização muito avançada e antiga cujo planeta está prestes a se extinguir. Ele levou milhares de anos para “germinar” como homem num lago nas proximidades da casa de Ana, e sua missão é reportar dados sobre a Terra. A Teoria da Relatividade de Albert Einstein é incorporada por alguns diálogos do filme, como se vê no trecho em que Ana explica a Sílvia (Márcia Rodrigues) a origem do homem desconhecido, ou quando este informa a Ana que deve partir, ao que ela protesta, referindo-se aos anos em que ele teria ficado “germinando” naquele lago, muito antes de ela nascer, bem como aos anos que ele levaria viajando até seu planeta, lá chegando muito tempo depois da morte dela. Segundo Jairo Ferreira, “Filme de &lt;em&gt;science-fiction&lt;/em&gt; sem efeitos especiais ou visuais, &lt;em&gt;Amor Voraz &lt;/em&gt;é um raro exemplar da inesgotável força do cinema como veículo de sugestões poéticas.”&lt;sup&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;3&lt;/span&gt;&lt;/sup&gt; Convém notar que &lt;em&gt;Amor Voraz&lt;/em&gt; trabalha praticamente o mesmo assunto de &lt;em&gt;O Dia em que a Terra Parou&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;The Day the Earth Stood Still&lt;/em&gt;, EUA, 1951), de Robert Wise, ou &lt;em&gt;E.T. – O Extraterrestre&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;E.T. – The Extra-Terrestrial&lt;/em&gt;, EUA, 1982), de Steven Spielberg, ou seja, o contato com um alienígena e as repercussões desse evento na psicologia humana. A diferença entre esses três filmes estaria essencialmente no tratamento do tema: em Wise o contato é público e de teor notadamente político; em Spielberg o contato é com a criança, expondo a disparidade entre os valores infantis e adultos; em Khouri, o contato repercute na psique de uma mulher jovem e solitária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9srLj9tI/AAAAAAAABUk/bqcRtYrw0SU/s1600/suppia_3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" n4="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9srLj9tI/AAAAAAAABUk/bqcRtYrw0SU/s320/suppia_3.jpg" width="233" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Filmes como &lt;em&gt;The Wild Blue Yonder&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;La Jettée&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Level Five&lt;/em&gt;, e mesmo &lt;em&gt;Phase IV&lt;/em&gt; ou o brasileiro &lt;em&gt;Amor Voraz&lt;/em&gt;, demonstram a possibilidade de outra vertente do cinema de ficção científica, mais sutil e intimista, experimental, conceitual e eventualmente em diálogo com o campo do documentário. Substancialmente diversa do cinema de ficção científica &lt;em&gt;mainstream&lt;/em&gt; - o dos &lt;em&gt;blockbusters&lt;/em&gt; pirotécnicos -, essa vertente mais sutil acaba colocando em questão a consagrada relação do gênero com os efeitos especiais, acenando com outras formas audiovisuais possíveis no horizonte da fantasia e da especulação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Notas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;1 -&amp;nbsp;Raymond Bellour, &lt;em&gt;Entre-Imagens&lt;/em&gt;, pp. 170-1.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;2 - Walter Hugo KHOURI apud Jairo FERREIRA, &lt;em&gt;Cinema de Invenção&lt;/em&gt;, p. 234.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;3 - Ferreira prossegue: “Só com muito talento é possível conseguir a densidade que Khouri atinge aqui com recursos mínimos: uma casa à beira de um lago, extraindo pura magia a partir da paisagem, muito também devido à extraordinária luminosidade da fotografia de Antonio Meliande, à música altamente funcional de Rogério Duprat, à precisa montagem de Eder Mazini.” (“&lt;em&gt;Voo entre galáxias&lt;/em&gt;”, &lt;em&gt;Filme Cultura&lt;/em&gt;, nº 45, mar/1985, p. 84. Esse mesmo texto pode ser encontrado em Jairo FERREIRA, &lt;em&gt;Cinema de Invenção&lt;/em&gt;, p. 236). &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9y5CKJyI/AAAAAAAABUo/pS8n0M7ETbo/s1600/suppia_5.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9y5CKJyI/AAAAAAAABUo/pS8n0M7ETbo/s1600/suppia_5.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Alfredo Suppia é professor de cinema do Depto. de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora. É líder do grupo de pesquisa LEFCAV (Laboratório de Estudos de Ficção Científica Audiovisual) na mesma Universidade. Especialista em ficção científica audiovisual, é membro da Science Fiction Research Association (www.sfra.org). &lt;em&gt;E-mail&lt;/em&gt;: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:alsuppia@terra.com.br"&gt;&lt;strong&gt;alsuppia@terra.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-525027169742527968?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/525027169742527968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/525027169742527968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/sobre-sutil-poesia-de-um-certo-cinema.html' title='Sobre a sutil poesia de um certo cinema de ficção científica:'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQU9Di1iJAI/AAAAAAAABUY/k9iThbj29YY/s72-c/suppia_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7017675031197438600</id><published>2010-12-12T14:45:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:45:54.985-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A VERDADE DA MENTIRA - Paulo Lima'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>A vida em quadrinhos</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyGUFfrqI/AAAAAAAABUI/T7OA-Y8txFM/s1600/paulo_01.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyGUFfrqI/AAAAAAAABUI/T7OA-Y8txFM/s1600/paulo_01.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Paulo Lima*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nunca leu uma história em quadrinhos na vida, que atire a primeira pedra. Quem, tendo se tornado adulto, continua lendo história em quadrinhos, que atire outra pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zás! Ploft! Pou! Hum... hum... poucas pedras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Isso é um sinal! Sinal de que, no Brasil, as histórias em quadrinhos ainda são vistas como uma espécie de passatempo praticado apenas por crianças e adolescentes. Ou, vá lá, marmanjos que tentam conservar o espírito da infância e da adolescência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, não! Chuiff, chuiff... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui nos trópicos, a leitura de quadrinhos ainda é considerada um tipo de atividade lúdica – algo assim como preencher palavras cruzadas –, sem muita relevância intelectual. Tipo da coisa que se faz como mero lazer, ligeiro, vapt!, como um gole de Coca, um sorvete ou&amp;nbsp; toddynho com canudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chiii... Essa não! Grrrrr!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez essa visão seja uma &lt;em&gt;disneyficação&lt;/em&gt; (glup!) do que se entende por história em quadrinhos.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hã?!! O velho Walt adormeceu e encantou gerações com seus sonhos de princesas e príncipes, patos, ratos e outros bichos falantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zzzzzzzzzzzz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas faz tempo que os quadrinhos conquistaram outro &lt;em&gt;status&lt;/em&gt;. É um gênero cultuado lá fora como qualquer narrativa séria. Só que em quadrinhos... ha ha ha ha ha ha ha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tal ponto que os anglo-saxões até inventaram uma expressão para as histórias de fôlego que são contadas por meio desse recurso visual (a língua inglesa tem mesmo uma palavrinha pra tudo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São as &lt;em&gt;graphic novels&lt;/em&gt;. Ou, ao pé da letra, romances gráficos. Em vez de o cara sentar e encarar um tijolo só de texto, aquele copião infindável (blá, blá, blá, blá), ele parte pro desenho recheado de balõezinhos que ajudam a contar a história. O resultado, em muitos casos, é algo que beira o genial. Saber com sabor. Diversão e conhecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hip hip hurra! Hip hip hurra! Hip hip hurra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra quem quiser conferir, podem ser facilmente encontrados nas melhores livrarias ao menos três desses produtos absolutamente sensacionais. Garantimos satisfação – ou retorne ao caixa e pegue sua grana de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyUc_R-xI/AAAAAAAABUM/KlMmgJrNfEU/s1600/paulo_2.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyUc_R-xI/AAAAAAAABUM/KlMmgJrNfEU/s1600/paulo_2.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O trio que vou sugerir representa um giro por três pontos do planeta, em três épocas diferentes. Começando por Marjane Satrapi e seu romance gráfico &lt;em&gt;Persépolis&lt;/em&gt;. Se você quer entender como foi desencadeada a Revolução Islâmica no Irã, então leia o livro. Marjane exilou-se na Áustria, ainda criança, para fugir do rigor da revolução. De lá, mudou-se para a França, onde escreveu sobre o drama de seu país sob a perspectiva da história de sua família. Tradição, modernidade, Oriente, Ocidente, o&lt;em&gt; pop&lt;/em&gt; e o histórico. Tudo se mistura em &lt;em&gt;Persépolis&lt;/em&gt;. O livro, por sinal, virou filme de animação muito elogiado e premiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois vem &lt;em&gt;Maus&lt;/em&gt;, a premiada &lt;em&gt;graphic novel&lt;/em&gt; do americano Art Spiegelman. Em &lt;em&gt;Maus&lt;/em&gt;, Art conta a história de sua família sobrevivente do Holocausto. No livro, os judeus são ratos, os nazistas são gatos e os poloneses são porcos. Ratos provavelmente nunca foram tão interessantes e emocionantes como nessa obra. É impossível não virar cada página na expectativa do que acontecerá com a pobre família Spiegelman, enquanto o Nazismo vai fechando o cerco, como numa ratoeira opressiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyc90JTYI/AAAAAAAABUQ/XyzC4hfD0J8/s1600/paulo_4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyc90JTYI/AAAAAAAABUQ/XyzC4hfD0J8/s1600/paulo_4.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Se você não compreende patavina do que a tevê e os jornais falam copiosamente – e diariamente – sobre as confusões entre israelenses e palestinos, então dê um&lt;em&gt; stop&lt;/em&gt;! Aquilo lá não é mesmo coisa fácil de entender. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se você quer o passaporte para uma aproximação do tema, então o caminho chama-se &lt;em&gt;Notas sobre Gaza&lt;/em&gt;, os geniais quadrinhos do ítalo-americano Joe Sacco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa &lt;em&gt;graphic novel&lt;/em&gt;, Sacco investiga um episódio sangrento que ocorreu na Palestina em 1956, quando quase 300 palestinos foram mortos por soldados israelenses. Uma ação remota no tempo, sem dúvida. Contudo, ao explorar o assunto, Sacco pesquisou sobre o entorno da questão e assim vai à gênese dos conflitos entre árabes e judeus.&amp;nbsp; O resultado é um livro com alto requinte visual e muitíssimo bem escrito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Brasil, a&lt;em&gt; graphic novel&lt;/em&gt; atingiu um nível bastante elevado, apesar do gênero ainda ser visto com certa desconfiança, inclusive dos editores. Em 2008, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá receberam o Eisner Awards, uma espécie de Oscar dos quadrinhos. O prêmio é uma homenagem a Will Eisner, considerado um dos maiores quadrinistas de todos os tempos. Dele foi lançado recentemente no Brasil o romance gráfico &lt;em&gt;Nova York&lt;/em&gt;, com cenas da vida naquela megalópole. Um trabalho de rara beleza estética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor Daniel Galera e o quadrinista Rafael Coutinho contribuíram para enriquecer o mercado das HQs no Brasil, com o lançamento recente do livro &lt;em&gt;Cachalote&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você passar a frequentar a praia das &lt;em&gt;graphic novels&lt;/em&gt; , irá encontrar por aqui os trabalhos de outros grandes quadrinistas, alguns deles considerados revolucionários no gênero, como o americano Robert Crumb. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente, a vida cabe num quadrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUylmLhHUI/AAAAAAAABUU/ZTUBO5bT-bs/s1600/paulo_3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUylmLhHUI/AAAAAAAABUU/ZTUBO5bT-bs/s1600/paulo_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*paulo_val@uol.com.br"&gt;&lt;strong&gt;paulo_val@uol.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7017675031197438600?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7017675031197438600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7017675031197438600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/vida-em-quadrinhos.html' title='A vida em quadrinhos'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUyGUFfrqI/AAAAAAAABUI/T7OA-Y8txFM/s72-c/paulo_01.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-3102133000603766603</id><published>2010-12-12T14:44:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:44:52.187-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A TELA E O CONTO - Fernando Portela'/><title type='text'>Calor demais</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUogrHmy8I/AAAAAAAABUE/c2EELBXHmMw/s1600/portela_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUogrHmy8I/AAAAAAAABUE/c2EELBXHmMw/s1600/portela_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fernando Portela*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi-o atrás de uma garrafa de cerveja, a umas quatro mesas, no fundo do bar. Era ele, sim, mas difícil de acreditar: sozinho, triste, mal vestido, barba suja, os olhos fixos na bebida que demorava a sorver, como se estivesse fora do mundo. Ainda há um mês havia lido uma reportagem extensa sobre os grandes foragidos do Brasil. A foto do Señor Ramirez era a maior. Falei baixinho para Galván, à minha frente, com medo de que, de longe, o bandido pudesse fazer leitura labial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não olha, Galván, mas o Señor Ramirez está lá no fundo, tomando uma cervejinha...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galván apenas franziu a testa, continuou a bebericar sua Coca-Cola de alcoólico anônimo. Fazia muito calor naquele pedaço da fronteira e alguns homens no bar haviam tirado a camisa. Nós dois usávamos camisetas escuras, mas, se pudéssemos, andaríamos de cuecas. O Señor Ramirez parecia não sentir a temperatura absurda: vestia uma jaqueta jeans, velha e pesada, com uma camisa vermelha por baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passava do meio-dia. Boa parte daquela gente só sairia à noite do bar, amparando-se, cantando músicas em português e espanhol. Muito provavelmente, alguém encrencaria com alguém e levaria um tiro nos cornos. Era sempre assim, às sextas-feiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem segurança?”, perguntou Galván, entre dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aparentemente não”, respondi, excitado. “Atrás dele há uma mesa vazia e o pessoal que está na frente trabalha na construção do &lt;em&gt;shopping&lt;/em&gt;...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Puta merda. Vou até o banheiro”, disse Galván.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dou cobertura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tremia. Se o pegássemos, seria o meu primeiro grande caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, fica aí, garoto. Só quero entender melhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galván era vinte anos mais velho e eu costumava atendê-lo. Às vezes me parecia meio porra-louca, até suicida, enfrentando de peito aberto umas situações-limite. Mas todos o consideravam um bom policial. Havia histórias de que dava proteção a uns comerciantes coreanos, que amaciava caminhões do Paraguai, mas tudo isso diziam de mim também, de todos nós. Éramos corruptos por definição. Eu não acreditava nas histórias que contavam sobre Galván. Estava de dupla com ele havia dois meses e não percebera nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galván se levantou devagar, se espreguiçou, e tomou o caminho do banheiro lá no fundo. A essa altura do dia já não deveria estar dando nem para entrar no pequeno cubículo, sem pia e sem descarga. Um nojo, aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sobressaltei quando meu companheiro parou em frente ao bandido, curvou o corpo, pôs as mãos na mesa e lhe disse alguma coisa. De longe dava pra ver que o Señor Ramirez respondeu com rispidez. Galván fingiu que se dirigia ao banheiro. O homem me encarou com um olhar estranho e começou a mexer nos bolsos, procurando dinheiro, com certeza para pagar a conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei paralisado com a atitude de Galván, mas não podia fazer nada. Tudo muito claro: meu próprio colega fazia parte do esquema de proteção do Señor Ramirez. Deveria haver outros por ali; mas eu estava armado e tinha obrigação de prender o bandido e denunciar o policial corrupto – só que... teria alguma chance?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Galván voltou, apenas nos olhamos. Eu disse tudo com meus olhos, mas ele baixou os dele e bebeu devagar um gole da Coca-Cola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bandido pagou a conta e levantou-se para sair. Passou ao nosso lado e pude sentir, vindo dele, um odor insuportável de suor seco. Algo me disse que eu deveria encará-lo e dar-lhe voz de prisão, fodam-se Galván e os outros guarda-costas por ali. Mas não me mexi. Continuei examinando o rótulo da garrafa de cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não vai mudar o mundo”, disse-me Galván, quebrando o constrangimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Bebi um gole mais generoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu entendo, Galván. Há quanto tempo o Señor Ramirez vive por aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dez anos. Todo mundo sabe, menos os novatos. Você é menino. Mas não é mais novato.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu bebi uma dose maior, a cerveja fica quente muito rápido nessa porra de lugar. Respirei fundo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando crescer, Galván, vou ser que nem você? Como é que dizem mesmo? ‘Vivendo e deixando viver?'"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai. Vai ter medo de morrer, largar sua futura mulher, deixar seus filhos órfãos, vai querer comprar um videocassete que o salário não permite...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não dava pra ser diferente, Galván?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Faz calor demais neste lugar. A gente se larga. Viu o Señor Ramirez? Sozinho, relaxado, fedendo. Às vezes eu acho que ele está louco para ser preso – só para fugir da rotina, sair desta pocilga a quarenta graus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito discretamente, eu me cheirei nas axilas. Estava fedendo também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*fatportel@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;fatportel@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-3102133000603766603?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3102133000603766603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3102133000603766603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/calor-demais.html' title='Calor demais'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUogrHmy8I/AAAAAAAABUE/c2EELBXHmMw/s72-c/portela_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4905479827731234927</id><published>2010-12-12T14:43:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:43:32.565-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='PALAVRAS ENCALACRADAS - Márcia Barbieri'/><title type='text'>Placenta</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUiBYM0BaI/AAAAAAAABUA/TyW5OLG7vJA/s1600/marcia_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUiBYM0BaI/AAAAAAAABUA/TyW5OLG7vJA/s1600/marcia_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcia Barbieri*&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;“Onde é o vasto ventre do nada, prenhe de mundos, que contém agora as raças que virão?”&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Arthur Schopenhauer&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a despia com a alma de viajante, pensava em &lt;em&gt;Cão Danado&lt;/em&gt;. Se o revólver não tivesse sido roubado. Se ela não tivesse casado com aquele homem rude, se não tivesse parido por tantos anos, tantos filhos brutos rasgando suas entranhas de falsa mulher civilizada... Soluçava e sentia o gosto das goiabas que compartilhávamos quando crianças e com o tempo foi bichando. O esfíncter arrombado da nossa infância prematura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está diferente, parece que a rudeza te comeu por dentro e por fora, e pensar que já fomos tão parecidas, as pessoas até costumavam confundir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você julga não ter mudado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E mudei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha querida! Não seja tão tonta, eu não envelheci assim, tão de repente, tão sozinha, já faz tantos anos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tantos anos?! Não foram tantos assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu apenas parei com essa luta insana contra o tempo. Agora eu comungo com ele, todas as manhãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma forma bem cômoda de encarar essa flacidez mórbida estampada em você, toda essa pele manchada de mágoa tropeçando entre seus dedos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É triste ver você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que ironia! Digo o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu te amo, não há nenhuma ironia em minha voz, não desperdice suas forças comigo, estou ao seu lado, como quando pela manhã nos surpreendíamos porque tínhamos sonhado o mesmo sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já não me lembrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ainda não percebeu que mudou. Um vestido que nunca foi usado, não significa que não envelheceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas palavras afundaram como pedras, pungentes como a saudade de um morto. Corri, andei em direção ao quarto. Entrei, fui até o espelho, tirei toda a roupa, peça por peça. Era triste, mas era verdade. Senti-me ridícula. Tentando capturar a juventude a fórceps. Os seios minúsculos e murchos não se acomodavam em minhas mãos inescrupulosas e duras, a artrite já tinha corroído minhas articulações. A rosa tatuada também murchara e jamais seria colhida. No ventre, as trilhas eram profundas e de um perolado fosco. Todos os espermas que, por vaidade, matei, estavam ali, vivíssimos, rindo da minha antiga polidez. Tentei bisbilhotar por dentro de mim à procura de consolo. Inviável. Estava morta. No lugar das enguias, tripas secas. Retirei os dedos. Agora uma vagina era apenas uma vagina. Uma matéria escura. E eu estava mijando para o universo. Olho para o chão, alguns tacos estão soltos. Tanto tempo passou e tudo que eu queria era anoitecer e poder ver a Ursa Maior se eternizando na brancura do teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUhvq9hp_I/AAAAAAAABT8/mmgBtoGie14/s1600/marcia_3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUhvq9hp_I/AAAAAAAABT8/mmgBtoGie14/s1600/marcia_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*marcia_barbieri@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;marcia_barbieri@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4905479827731234927?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4905479827731234927'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4905479827731234927'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/placenta.html' title='Placenta'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUiBYM0BaI/AAAAAAAABUA/TyW5OLG7vJA/s72-c/marcia_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4952489954395759978</id><published>2010-12-12T14:41:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:41:53.165-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='QUASE SEM MISTÉRIO - Alessandro Faleiro Marques'/><title type='text'>Dedos voltados para o céu</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUO3P4YWKI/AAAAAAAABT0/AFiYeJ3j7lw/s1600/alessandro_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUO3P4YWKI/AAAAAAAABT0/AFiYeJ3j7lw/s1600/alessandro_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alessandro Faleiro Marques*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Dedico este texto a Márcio Almeida, grande teólogo, a quem devo algumas palavras há muito tempo.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;As residências já piscam para as celebrações de Natal. Obviamente, as lojas acenderam as estéreis luzes há muito tempo, pouco se importando com o sábio ritmo litúrgico desta época (aliás, nem devem saber o que é isso). Alguns entre tantos também arrumam a casa do próprio espírito. Buscam festejar, da forma mais digna possível, o nascimento de Jesus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ano, minha reflexão se baseia numa foto publicada num noticiário da internet. Uma imagem extremamente chocante para mim, na qual um muçulmano reza de dedos voltados para o céu. Nada de mais, não fosse a mancha amarela viscosa no rosto do homem. A mácula foi causada por ovos lançados pela dureza de alguns “cristãos” ortodoxos de Atenas. Os agressores acusam os filhos de Alá, a maioria imigrantes, de causarem distúrbios na área. Os agredidos denunciam preconceito e afirmam faltar a eles um lugar digno e seguro para o culto, sendo obrigados a se reunir numa praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUPHQ45MQI/AAAAAAAABT4/lSpT7OvmSzk/s1600/alessandro_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUPHQ45MQI/AAAAAAAABT4/lSpT7OvmSzk/s1600/alessandro_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Creio que eu, um frágil seguidor de Cristo, teria dificuldades profundas de orar num ambiente desses. Mas o moço está de olhos entreabertos. De boca silenciosa e rosto humilde, louva o Deus de Abraão, nosso pai comum. A cena me deixa inquieto até hoje. O maior sentimento é de profunda vergonha por meus patrícios espirituais terem violado um momento tão importante para os discípulos de Maomé. O outro é de penitência, de reconhecimento das limitações de minha veia transcendente. Nunca conseguiria concentrar-me, nem mesmo em pose para a foto. Por último, de compaixão por islâmicos, cristão, umbandistas, judeus, budistas e outras pessoas que ainda sofrem ataques por causa de sua crença, seja na Grécia, na Palestina, no Iraque, na China ou em qualquer lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos heróis da verdadeira fé, seja ela qual for, minhas homenagens neste Natal. Rezarei por quem faz da religião um caminho mais curto de chegar ao Deus, autor da vida, por aqueles que pouco se importam com as “tendências atuais” e, assim, multiplicam a herança de paz e justiça de legítimas assembleias orantes. Seja nosso louvor o “escândalo” não só no tempo de pisca-pisca, mas por todo o ano. E que todos tenham um lugar onde fazer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;a href="mailto:faleimar@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;faleimar@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4952489954395759978?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4952489954395759978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4952489954395759978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/dedos-voltados-para-o-ceu.html' title='Dedos voltados para o céu'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQUO3P4YWKI/AAAAAAAABT0/AFiYeJ3j7lw/s72-c/alessandro_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2256152855217867971</id><published>2010-12-12T14:39:00.000-08:00</published><updated>2010-12-13T13:58:51.723-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CÂMERA SECRETA'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ESTANDARTE - Eduardo Sabino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>O Capitão Nascimento e o gigante adormecido</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQPJSMAmcI/AAAAAAAABTw/bu0PHS5BUvc/s1600/eduardo_1.bmp" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQPJSMAmcI/AAAAAAAABTw/bu0PHS5BUvc/s1600/eduardo_1.bmp" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sabino*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das famigeradas estatuetas do Oscar, na categoria de melhor filme, foi para o longa &lt;em&gt;Crash&lt;/em&gt; (2004), que abordou, com coragem, as relações entre os moradores de Los Angeles, especialmente os conflitos, ainda intensos, entre brancos e negros, estadunidenses e imigrantes. É natural que a arte tenha como fonte de inspiração a realidade e que, no Brasil das lutas de classe, veladas ou não, despontem filmes como &lt;em&gt;Carandiru&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Ônibus 174&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cidade de Deus&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Quanto vale ou é por quilo&lt;/em&gt; (obra máxima de Sérgio Bianchi), entre tantos outros, dos quais destaco, recentemente, o &lt;em&gt;Tropa de Elite 2&lt;/em&gt;, já considerada a produção cinematográfica nacional mais vista de todos os tempos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A continuação da franquia dirigida por José Padilha aprendeu com a ingenuidade do primeiro filme, que colocava o tráfico como uma mera relação entre vendedores e consumidores e soltava a fúria do vingador Capitão Nascimento como um soldado divino a desfilar coronhadas, frases feitas e discursos autoritários. O Capitão Nascimento agora &lt;em&gt;nasce&lt;/em&gt; e amadurece para um mundo mais amplo. Ao ser empossado secretário de segurança pública, ele se vê às voltas com a corrupção e começa a entender melhor a relação entre tráfico, política e mídia. Na trama, os políticos manipulam a seu favor a miséria e a violência das favelas. Na corrida por votos, o governador candidato à reeleição e sua equipe chegam a planejar um assalto a uma delegacia, executado por policiais corruptos disfarçados de traficantes. A armação acaba por justificar a invasão da favela, que repercute bem na mídia sensacionalista e melhora a posição do candidato nas pesquisas de voto. Óbvio, o inimigo do Capitão Nascimento agora é outro. É o sistema, essa fábrica de verdades de plástico nem sempre denunciadas pela História, muito menos pelo jornalismo (vide Getúlio Vargas queimando nossos teatros para culpar os comunistas, a suposta viagem à Lua que ajudou os EUA a “vencer” a Guerra Fria, o improvável atentado às Torres Gêmeas carimbando a invasão do Iraque). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ponto de vista técnico e, arrisco, artístico, &lt;em&gt;Tropa de Elite 2&lt;/em&gt; é um bom filme. O capitão agora é um narrador confuso, ciente de erros e limitações, e a sua violenta jornada é também uma busca pelo conhecimento. As cenas se alternam mostrando os olhares distintos que formam a teia à qual chamamos realidade. Se antes a câmera era muito focada na ação dos policiais do Bope contra os traficantes, desta vez ela se desloca para as consequências e causas da guerra do tráfico, por exemplo, para uma aula de Sociologia (academia), exibição de jornal sensacionalista sobre a violência (mídia), uma reunião em gabinete político (Poder Executivo) e até para uma CPI em assembleia legislativa. As tensas relações institucionais se refletem nos relacionamentos dos personagens, muito bem compostos. Nascimento se separou, e a ex-esposa e o filho estão morando com um inimigo público do Bope: o professor de Sociologia e deputado estadual Diogo Fraga. No meio do tiroteio, está o filho de Nascimento, entre um padrasto de ideias e diálogo e um pai de ação e poucas demonstrações de afeto. A concisão e a intensidade das cenas garantem a tensão do espectador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maravilha, mas os elementos descritos são suficientes para explicar o recorde de bilheterias do filme? Não. Nada é o bastante para explicar qualquer coisa. Daqui em diante, é preciso tratar o cinema como um fenômeno social. Por detrás da telona, há o contexto adequado para a venda da mercadoria. E o destes tempos, diga-se de passagem, é terrivelmente sombrio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Infeliz o povo que precisa de heróis”, dizia o poeta e dramaturgo alemão, Bertold Brecht. Neste país, não só precisamos, somos devotados a eles. Por isso, em época de eleições, depositamos mais esperanças na tela de cinema do que nas urnas. Afinal, lá estava o homem fardado, o Rambo tupiniquim, disposto a eliminar os políticos corruptos da Terra (ou pelo menos do Brasil). Fora das sessões, nas seções de votação, víamos apenas um modo de, no máximo, dar continuidade à situação. O sucesso do Tropa é também a soma das nossas desilusões e desejos mais perversos, a possibilidade de ver, ao menos ficcionalmente, um político corrupto sendo preso ou levando uma surra. Era de se esperar que o boca a boca arrastasse multidões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um conto de Rodolfo Walsh, escritor argentino assassinado pela ditadura nas ruas de Buenos Aires em 1977, narra uma bela alegoria sobre o herói e os perigos que representa. Em "Um sombrio dia de justiça", um grupo de adolescentes de um orfanato de padres da Irlanda é submetido às loucuras do bedel Gielty. O religioso organizava lutas entre os internos, com a justificativa de prepará-los para o mundo. Ao escolher os rivais da primeira sequência de confrontos, ele opôs o habilidoso e esquivo Gato ao frágil e preguiçoso Collins. As surras colecionadas pelo pequeno Collins, dia a dia, vão revoltando o menino e a multidão de espectadores. Até que, em gesto desesperado, Collins escreve ao tio Malcolm pedindo ajuda. Logo recebe a breve resposta de que ele estava a caminho e daria uma surra no tirano religioso. No segundo movimento do conto, acompanhamos as expectativas dos jovens para o grande confronto. Todo um imaginário dos heróis é explorado. Desenhos do tio de Collins como um homem robusto, alto, confiante. &lt;em&gt;Slogans&lt;/em&gt;, bandeiras, cartazes. Todo o material apontava uma esmagadora vitória do herói sobre o vilão. Mas, no tal dia de justiça, Walsh nocauteia o leitor, e Malcolm frustra os adolescentes ao ser derrotado pelo bedel. Walsh dá de brinde o sentido político do texto na conclusão do conto, ao passar a chamar os mais de cem adolescentes decepcionados de povo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Ali acabou a felicidade, tão boa enquanto durou, tão parecida com o pão, o vinho e o amor. Recuperado, Gielty sacudiu o saudante Malcolm com um murro no fígado, e enquanto Malcolm se dobrava depois de uma careta de surpresa e de dor, o povo aprendeu, e enquanto Gielty o arrastava na ponta de seus punhos como nos chifres de um touro, o povo aprendeu que estava sozinho, e quando os socos que soaram na tarde abriram uma chaga incurável na memória, o povo aprendeu que estava só e devia lutar por si mesmo [...]&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O povo brasileiro está longe de aprender a lutar por si mesmo. É mais fácil se conformar e vibrar com o fantástico Capitão Nascimento enquanto comemos pipoca e bebemos coca-cola. É mais fácil anestesiar esse poder de ação em uma figura heroica. Transferir para o outro a força para a melhoria. Acompanhá-lo como quem torce em uma partida de futebol. Continuamos à espera dos messias. Novos Antônios Conselheiros, Lampiões, Tiradentes, Lulas... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;Tropa de Elite 2&lt;/em&gt; diz que “agora o inimigo é outro”. Os inimigos da mudança são também os heróis. Atrás deles, escondem-se massas alienadas, sem articulação alguma. Um povo sedento de pasto e cultura cujos representantes temem que aprenda a pensar, exigir, a se mobilizar. Heróis de nós mesmos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto tempo teremos de esperar para ver os políticos corruptos se dando mal? O Padilha já avisou: não haverá o terceiro filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQPCyO2LhI/AAAAAAAABTs/PgliRV2KCT0/s1600/eduardo_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQPCyO2LhI/AAAAAAAABTs/PgliRV2KCT0/s1600/eduardo_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosabino@caoseletras.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosabino@caoseletras.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2256152855217867971?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2256152855217867971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2256152855217867971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/o-capitao-nascimento-e-o-gigante.html' title='O Capitão Nascimento e o gigante adormecido'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQPJSMAmcI/AAAAAAAABTw/bu0PHS5BUvc/s72-c/eduardo_1.bmp' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-3026531858742838980</id><published>2010-12-12T14:35:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:35:54.806-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='NOVOS NOMES'/><title type='text'>Zangareio</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQHVE801HI/AAAAAAAABTo/bFOTskuTn2U/s1600/flavio_2.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQHVE801HI/AAAAAAAABTo/bFOTskuTn2U/s1600/flavio_2.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Flávio de Araújo*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As crenças infantis&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era menino como todos foram ou são&lt;br /&gt;e sob as barras do manto &lt;br /&gt;de Santa Tereza Justafé fui criado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- mudo de opinião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino descozido de crenças&lt;br /&gt;mas tradicionalmente religioso&lt;br /&gt;(rezava aves e pais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trocava a água das flores&lt;br /&gt;rosas brancas e encarnadas contrastavam&lt;br /&gt;com o local lúgubre&lt;br /&gt;onde o ranço de velas impregnava&lt;br /&gt;as fotografias dos enfermos.&lt;br /&gt;Tudo naquela casa se prostrava&lt;br /&gt;aos pés de porcelana queimada&lt;br /&gt;de Santa Tereza Justafé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vó Coralina antes de deixar morrer&lt;br /&gt;o símbolo majesto&lt;br /&gt;da matriarca que era, &lt;br /&gt;tinha por desejo supremo&lt;br /&gt;ser enterrada com a santa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- e foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela mesma noite&lt;br /&gt;arrebentaram-me a boca&lt;br /&gt;pois como esperavam o consentimento&lt;br /&gt;de um menino-anjo&lt;br /&gt;achei que seria muito justo&lt;br /&gt;que os mortos fossem enterrados&lt;br /&gt;com seus mortos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quinhão &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mesa, como num tribunal&lt;br /&gt;sob o juízo de nossa mãe&lt;br /&gt;disputávamos, com fervor, &lt;br /&gt;os melhores pedaços&lt;br /&gt;da magra galinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As irmãs menores,&lt;br /&gt;cada qual com suas asas,&lt;br /&gt;balbuciavam qualquer coisa&lt;br /&gt;de bom&lt;br /&gt;voando entre os dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impasse era sempre&lt;br /&gt;com as coxas.&lt;br /&gt;Duas&lt;br /&gt;para três admiradores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora o confronto&lt;br /&gt;tomei predileção&lt;br /&gt;por peitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Freud explicaria&lt;br /&gt;com a teoria das perdas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Epitáfio a um antropófago&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui jaz&lt;br /&gt;Hannibal Lecter&lt;br /&gt;que ao devorá-los&lt;br /&gt;juntou a fome&lt;br /&gt;com a vontade&lt;br /&gt;de comer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A bomba no homem&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Protejo-a dos meus esgoelamentos&lt;br /&gt;soldando os lábios em mig-mag&lt;br /&gt;carnivorando todo ar cálido,&lt;br /&gt;descomprimindo&lt;br /&gt;as coisas que nos apaixonam por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fissura-se&lt;br /&gt;a menor&lt;br /&gt;das menores partes do amor&lt;br /&gt;em&lt;br /&gt;estupor&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;estampir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pino da granada&lt;br /&gt;em nossas línguas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Flávio de Araújo é filho de uma família de pescadores da Praia do Sono, comunidade caiçara situada em Paraty-RJ. Durante a FLIP de 2008 trabalhava entregando marmitex quando quase atropelou o poeta Benjamin Zephaniah, desde então deixou de atropelar escritores com acebolados e parmegianas lançando &lt;em&gt;Zangareio&lt;/em&gt; (poesia), pelo Selo OFF FLIP. Participou da FLIPORTO - Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Pernambuco, 2008), e do XIV Festival Internacional de Poesía de la Habana (Cuba, 2009). Contato: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:flaviopty@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;flaviopty@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-3026531858742838980?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3026531858742838980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3026531858742838980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/zangareio.html' title='Zangareio'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQQHVE801HI/AAAAAAAABTo/bFOTskuTn2U/s72-c/flavio_2.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8552631959979737658</id><published>2010-12-12T14:34:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:34:16.558-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>O silêncio e o sagrado</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPpaz0TE_I/AAAAAAAABTc/PG-zIodciB4/s1600/castello.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPpaz0TE_I/AAAAAAAABTc/PG-zIodciB4/s1600/castello.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;José Castello*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Publicado originalmente no &lt;em&gt;blog&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;&lt;strong&gt;A literatura na poltrona&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;no&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/" target="_blank"&gt;Globo On-line&lt;/a&gt;&lt;em&gt;.&amp;nbsp;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito se fala, hoje, do sagrado. Em nome do sagrado, muito se faz, muito se desfaz _ e muitas coisas e pessoas se destroem. A literatura oferece uma chance de pensar o sagrado não como a voz que ordena e empurra, mas como um segredo. Em contraste com um segredo, toda afirmação peremptória se esfarela. Diante dele, só nos resta agir com suavidade. Só nos resta tentar, sem jamais conseguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas ideias, que sempre rumino com inquietação, encontram eco em um belo texto da psicanalista Maria do Carmo Andrade Palhares. Chama-se "Territórios do silêncio" e ela o apresenta em uma mesa de debates que dividimos na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Uma mesa de debates &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;– &lt;/span&gt;prudente paradoxo &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;– &lt;/span&gt;sobre o silêncio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em silêncio, limitando-me a rabiscar algumas ideias imprecisas, ouço Maria do Carmo falar de coisas espantosas. Por exemplo: do direito do paciente de não ser descoberto. Seu direito inalienável de calar. Seu direito de conservar um segredo. Será um direito só dele? Maria do Carmo sugere que não, que é um direito de todos nós. O direito de conservar, a todo custo e com toda intransigência, o segredo _ esse núcleo ardente e inacessível que nos constitui como pessoas. A garantia de que ele nunca será violado é a garantia de que cada um de nós é um sujeito singular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escritores lidam, todo o tempo, com o paradoxo palavras-silêncio. A literatura não passa de uma dança sinuosa e tagarela em torno de algo que jamais se diz. Por isso toda literatura fracassa: escritores acariciam o segredo. É bom advertir logo: ele nada tem de místico, ou de transcendente; é só o núcleo íntimo em torno do qual existismos. Ali, naquela zona obscura, existimos como seres singulares e inconfundíveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria do Carmo é uma leitora aplicada do psicanalista inglês D. W. Winnicott (1896-1971). Com ele, aprendeu que existe no centro de cada pessoa um elemento incomunicável, onde se guarda &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;–&lt;/span&gt; inestimável tesouro &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;– &lt;/span&gt;um idioma pessoal. Onde se esconde aquilo que todo escritor procura obsessivamente e jamais chega a encontrar: sua voz interior. Aquele silêncio insistente e atordoador que o leva a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escritores precisam do silêncio para escrever&amp;nbsp;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;–&lt;/span&gt; ele é uma caixa de segredos da qual, em raros relâmpagos, eles arrancam, a dentadas, sua escrita. Escritores permanecem mais tempo em silêncio, ruminando ideias vagas, pensamentos incoerentes, sentimentos paradoxais, do que escrevendo. As palavras surgem com grande dificuldade. O silêncio, e não a palavra, é sua ferramenta. Escritores não são mestres da palavra &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;–&lt;/span&gt; só os falsários e os arrogantes acreditam nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPpziEb61I/AAAAAAAABTg/J4cfW4juakM/s1600/castello_2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="93" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPpziEb61I/AAAAAAAABTg/J4cfW4juakM/s320/castello_2.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artistas, em geral, desenvolvem, mais que outras pessoas, um ouvido interno, que os aproxima, só um pouco mais, do outro (esse grande estranho) que trazem em seu interior. Desse outro que é, sempre, inacessível. Núcleo duro e inviolável _ que os loucos, desejando tudo possuir e tudo saber, profanam e destroem. Ouço as ideias de Maria do Carmo com grande espanto: suas palavras fazem eco com pensamentos antigos, mas inarticulados, que carrego há muito dentro de mim. É como se Maria do Carmo, com suas palavras (de escritora?), roçasse o meu segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escritores lidam mais com o silêncio do que com palavras. Não sei se lidam: desejam lidar. Lidam mais com a escuta do que com a escrita, ainda que, na maior parte do tempo, fiquem apenas com ruídos e murmúrios. Sem essa escuta para dentro, que tem como objeto um núcleo inacessível, ninguém escreve para valer. Podemos escrever "à moda de", ou para agradar a crítica, ou para vender muito. Nunca escrever para si mesmo&amp;nbsp;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;–&lt;/span&gt; e, em literatura, cada escritor é seu próprio destinatário. O leitor não passa de um desconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A comunicação com o outro, Maria do Carmo nos diz, parte sempre do desconhecimento de nós mesmos. Não se dá de homem para homem, ou de mulher para mulher, mas de segredo para segredo. E é nesse abismo inacessível, no qual dois segredos resvalam, que se guarda o que podemos chamar de sagrado. Arrisco-me a pensar: sagrado não porque seja elevado, ou puro, ou superior; sagrado porque é radicalmente humano. Sagrado porque falha&amp;nbsp;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;–&lt;/span&gt; e a falha é o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois cegos avançam em uma estrada. Em meio às trevas, perseveram em seu caminho. Como não conseguem se ver, acreditam que estão sozinhos. Quando enfim chegam a falar, desconhecem seu destinatário. Sem saber por que falam com alguém que talvez nem esteja ali, suspeitam de si mesmos. O que fazem? Talvez seja isso: escrevem. Pode haver algo mais sagrado para um escritor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPp58wmt4I/AAAAAAAABTk/oAmbXfXG1EQ/s1600/castello_3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPp58wmt4I/AAAAAAAABTk/oAmbXfXG1EQ/s1600/castello_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;José Castello é jornalista e escritor, colunista do suplemento Prosa &amp;amp; Verso, de O Globo, autor de &lt;em&gt;Vinicius de Moraes: O poeta da paixão&lt;/em&gt; (Companhia das Letras, 1993), &lt;em&gt;Inventário das sombras&lt;/em&gt; (Record, 1999) e &lt;em&gt;Ribamar&lt;/em&gt; (Record, 2010), entre outros.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8552631959979737658?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8552631959979737658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8552631959979737658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/o-silencio-e-o-sagrado.html' title='O silêncio e o sagrado'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPpaz0TE_I/AAAAAAAABTc/PG-zIodciB4/s72-c/castello.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4905244291106690714</id><published>2010-12-12T14:33:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:33:02.294-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='DA BOCA PRA FORA - Joaquim Moncks'/><title type='text'>O senhor Alter Ego</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPVCE8FVXI/AAAAAAAABTU/p9I_r7KvjnE/s1600/joaquim.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPVCE8FVXI/AAAAAAAABTU/p9I_r7KvjnE/s1600/joaquim.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Joaquim Moncks*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega de Pelotas, minha terra, o salutar pedido de crítica provindo de uma pessoa que ocupa lugar de destaque no meu espírito. Inteligente, lúcida e altamente preparada... Pede a análise do texto abaixo. Ao trabalho, seu Moncks! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Poesia ou fluxo de consciência?&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lígia Antunes Leivas (Lilu)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Qualquer ponto da estrada&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;qualquer paradouro sem indicação&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ao despertar de um sono pouco, breve&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;com sonho de gaivotas voando&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;como se tudo fosse paz...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sorriso amarelo... apenas a boca&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;com lábios estirados&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(melhor mesmo era não ter&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;nem que olhar para o lado)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Aquele pregador a noite toda nos meus ouvidos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a insistir que deus existe...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(sei lá se existe ou não&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;os homens também criam cada coisa...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Irritante essa sempre concordância com as regras&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;com o previamente estabelecido&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;para o mundo ser melhor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(e se não fosse assim,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;será que não seria mesmo muito melhor?)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Transgredir a hipocrisia,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;dar autenticidade a tudo...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– ...mas fui eu mesma que disse isso?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(–... por que será que hoje sou verdade?)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Algumas ruas acima o silêncio daquela cidade&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(nem sei qual é...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;faz horas que esse 'bus' dá voltas e voltas...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– que lugar do mundo é este?)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;passa no meio dos tiros.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Todo lugar é igual.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cidade esvaziada nesta hora da madrugada&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e a lua é cheia... linda!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No meu canto converso com tantos!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(todos vão comigo no meu pensamento...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E o pastor quer as minhas respostas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– por que duvido da existência de deus?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ora, nem eu sei... isso é coisa sem resposta.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Segue-se... Seguimos todos...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o ronco do motor, a força das marchas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;os morros com luzes ao longe&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mais uma parada ao longo do caminho.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– E por que estou aqui?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A chuva sempre é fria em qualquer estação.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A estrada começa a ficar cidade... apitos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;barulhenta, desperta-me para o real.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Já nem sei quem é mesmo essa que vem dentro de mim...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– a passagem.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O rumo virá ao meu encontro...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis um texto de difícil apreciação, desde a sua apresentação formal. No entanto, facilmente perceptível que provindo de fluxo de consciência, tanto que título alternativo como proposta pensamental. Autora mergulhada no que o caldeirão fervente do processo criativo propõe ao inquieto espírito. Naturalmente que fluiu o processo inspiracional... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curioso é que fruto de perquirição intelectiva, segundo os signos forjados num auto-questionamento (como se houvessem dito algo ao ouvido que lhe sugerisse novos padrões e enfoques) sobre vida e verdade, como queria Göethe. Questionamento ótimo para o teatro, como legou Shakespeare: "&lt;em&gt;To be or not to be&lt;/em&gt;"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que causa espécie é que a apresentação está em versos e não em prosa... Sempre que me topo com versos prosaicos fico pensando: o autor poderia ter escrito linha a linha, margem a margem, parágrafo a parágrafo, porque o fundo – o conteúdo – apontará a classificação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É curioso, repito, que o ritmo da lavratura é cursivo, com um andamento que não nega o poético, seguindo até a antepenúltima estrofe de verso único, interrogativa, lembrando Álvaro de Campos, de F. Pessoa... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, é hiato confessional, sobrevindo o questionamento de rumo para a "viagem"... Novo complemento interjeicional sublimado pelas reticências me parece que – como em vários textos meus e nos da autora – a “Barca de Caronte” num redivivo mitológico clássico, traveste-se, nessa ebulição, no "ônibus proletário" dos tempos atuais... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos, quando chegar a hora, seguiremos com mais rapidez, tal a destreza e a imediatidade virtual dos sonhos e do encantado mundo das imagens, no plasticismo que a Palavra constrói. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreensível que, na titulação alternativa esteja a Poesia, porque, mesmo no suprarreal, é ela que reconstrói a vida, mormente quando o hostil da realidade nos sugere perdas ou até o Armagedon. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E reporta-se, após o escorço no limbo da discussão filosofico-poética: "... quem é mesmo essa que vem dentro de mim...(?) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sê muito bem-vindo, senhor Alter Ego!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;– Do livro &lt;em&gt;O novelo dos dias&lt;/em&gt;, 2010.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Publicado também no &lt;a href="http://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/2631928" target="_blank"&gt;Recanto das Letras&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPVJcjjk1I/AAAAAAAABTY/ghajZhrD4mQ/s1600/joaquim_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPVJcjjk1I/AAAAAAAABTY/ghajZhrD4mQ/s1600/joaquim_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*joaquimmoncks@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;joaquimmoncks@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4905244291106690714?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4905244291106690714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4905244291106690714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/o-senhor-alter-ego.html' title='O senhor Alter Ego'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPVCE8FVXI/AAAAAAAABTU/p9I_r7KvjnE/s72-c/joaquim.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-934562309413056442</id><published>2010-12-12T14:31:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:31:28.561-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A PRÁTICA NA TEORIA - Márcio Almeida'/><title type='text'>Café com letras</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFNddPuzI/AAAAAAAABTE/clqyZhhRPYg/s1600/marcio_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFNddPuzI/AAAAAAAABTE/clqyZhhRPYg/s1600/marcio_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcio Almeida*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CAFÉ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;&lt;/strong&gt;- Desde o século XII, seja etíope, africano ou árabe, o café destaca-se por facilitar a digestão, espantar o sono e melhorar o humor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Itália, 1615: o café entrou no país via Veneza e sofreu forte resistência da Igreja: cristãos fanáticos incitaram o papa Cliemente VIII a condenar o consumo da bebida, tida como invenção de Satanás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Turquia, séculos XVI e XVII: quem fosse pego tomando café era condenado à morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mudança de hábito: do consumo caseiro, o café passou a ser consumido em lugares públicos, criando assim pontos de encontro e centros da vida literária, artística e política. Passou a ser tema de música, óperas, ficção, artes plásticas e literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Século XVII: já se encontra registro de haver cafés em Paris como pontos de encontro entre pessoas para conversar, escrever, fazer arte, surgindo uma proliferação de cafés por toda a Europa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Brasil, 1727: o café chega ao país, na cidade de Belém do Pará. em 1773: chega ao Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Século XIX: o café tornou-se um dos principais produtos de exportação do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- 1876: foi inaugurado em são paulo o primeiro café da cidade, instalado num ambiente de muito luxo e requinte, na esquina do Beco do Inferno com a Rua da Imperatriz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tema café: presente em vários símbolos nacionais, como moedas, brasões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFVcXlNGI/AAAAAAAABTI/9UFhYTLC2eA/s1600/marcio_3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFVcXlNGI/AAAAAAAABTI/9UFhYTLC2eA/s1600/marcio_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CAFÉ COM LETRAS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cordel: predomínio do tema na zona central do país através de trovas e cantigas de desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- José Bonifácio, no poema “O tropeiro”, põe na boca do cozinheiro da tropa esta quadrinha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Vamos depressa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;tomar café;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;depois veremos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;quem bate o pé.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cornélio Pires, em sua &lt;em&gt;Seleta&lt;/em&gt;, de 1926, no soneto “Ideal de caboclo”, diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Um rancho na bera d´água&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;vara de anzó, poca água,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pinga boa e bão café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;fumo forte, de sobejo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pra compretá meu desejo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;cavalo bão e muié.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nos &lt;em&gt;Cantos populares do Brasil&lt;/em&gt;, de 1897, Sílvio Romero registra o café no “ABC do lavrador”, colhido no Ceará:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quase sempre os lavradores&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;de cana, café, cacau,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;têm feitores de campo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;para não passar tão mal.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No &lt;em&gt;Cancioneiro do norte&lt;/em&gt;, de 1903, do poeta paraibano Rodrigues de Carvalho, há a seguinte estância sobre o café:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Usei de plantar café&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;quando nasceu foi andu&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;botou fruta de jacu&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e semente de inhoré.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sei que a sorte não me quer...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há um poema chamado “Rio Preto”, nome de um temível bandido do sertão da Paraíba, que diz o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Senhor subdelegado&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;venha tomar café comigo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pois enquanto eu me vir solto,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;serei um seu bom amigo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;só depois de me ver preso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;serei um meu inimigo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Do folclore de Pernambuco, Pereira da Costa, em livro publicado em 1908, registrou uma genuína poesia popular com a chocarrice sertaneja, muito conhecida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O Zé Prequeté,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;tira bicho do pé,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pra comê com café,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;na porta da Sé!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Crispiniano Tavares publica em seus &lt;em&gt;Contos inéditos&lt;/em&gt; muito do que viu e ouviu nos sertões de Minas Gerais e Goiás, inclusive o recortado em que um violeiro-cantador faz referência ao café numa festa pública do Divino Espírito Santo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te dou chá&lt;br /&gt;porque não tem,&lt;br /&gt;queres um beijo?&lt;br /&gt;Vem cá, meu bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até no alto&lt;br /&gt;eu vou contigo,&lt;br /&gt;do alto pra lá,&lt;br /&gt;não tem perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Quanto a isso&lt;br /&gt;muito obrigado.&lt;br /&gt;Não te dou café&lt;br /&gt;que não tem torrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A colheita do café, ao norte do Brasil, tinha muita semelhança com a colheita da uva em Portugal. Nessa ocasião muito namoro tinha início e, depois de um ano, muito choro de criança nova no mundo. Por isso a quadra colhida na Paraíba que diz o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem tivé fia bonita&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;não mande apanhá café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;si fô minina, vem moça,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;si fô moça, vem muié.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No Brasil já teve até um doutor Domingos Jaguaribe que se pôs a educar macacos para colher café. Isso para poupar as mulheres que eram colhedoras com seus grandes balaios ou cabazes. E esse fato histórico originou a seguinte quadra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu quisera sê penera,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;na coieta do café,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pra andá dipindurado&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;nas cadera das muié.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFksiiplI/AAAAAAAABTM/3Aq-dLAyHqo/s1600/marcio_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFksiiplI/AAAAAAAABTM/3Aq-dLAyHqo/s1600/marcio_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;- Nos chamados &lt;em&gt;Autos setentrionais&lt;/em&gt;, Catulo da Paixão Cearense colheu a quadra seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Prece história, parece,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mas fantasia não é:&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a vaca branca dá leite,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e a preta é que dá café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As folias de reis cantam assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Deus lhe pague sua comida&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e também o bão café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;no céu haveis de comer&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;com Jesus de Nazaré.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No livro &lt;em&gt;Mil quadras populares brasileiras&lt;/em&gt;, de 1916, recolhidas por Carlos Góis, encontra-se a expressiva quadra de galantaria espontânea:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Menina dos olhos pretos,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;sobrancelhas de retrós,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;dá um pulo na cozinha,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;vai quentar café pra nós.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há uma moda da viúva, em oitavas, extraído de um &lt;em&gt;Cancioneiro de trovas do Brasil Central&lt;/em&gt;, de 1925, conforme registrado por Americano do Brasil:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu oiei na cara dela&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;fiquei muito invergonhado&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;meu braço pegô tremê&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;que ficô disguvernado.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;minha xicra de café&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;derramô mais da metade&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e meu coração batia&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;como o baque do machado.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A graçola popular que inspirou Manuel Bandeira tem origem nos sinos de São Francisco quando repicavam, segundo pesquisa do erudito J. da Silva em seu &lt;em&gt;A voz dos campanários baianos&lt;/em&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;café com pão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;café com pão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;bolacha, não!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O café já foi também motivo para começar um grande amor no sertão brasileiro. Uma pesquisa registra que um sertanejo que se julgava na Turquia, influenciado pela Bíblia onde abundam patriarcas polígamos, escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu também vou casar já,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;com uma dúzia de muiés:&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;três chiquinhas, três aninhas,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;três teresas, três zabés.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Três para coser a roupa,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;três para lavar meus pés,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;três pra anelar meu cabelo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;três para me dar café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O poeta Murilo Mendes, de Juiz de Fora, dos maiores do Brasil, é autor do poema “O café dos emboabas”. Nele, o poeta compara o café ao ouro negro e à gema das pedras preciosas dos emboabas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Os emboabas entraram&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;na fazenda dos paulistas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;os paulistas, de sabidos,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mandam servir o café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mário de Andrade, um dos mais importantres precursores do modernismo brasileiro, em seu poema “Paisagem nº 4”, &amp;nbsp;fala da importância do café na vida de São Paulo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Os caminhões rodando, as carroças rodando,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;rápidas as ruas se desenrolando,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e o largo coro de ouro das sacas de café!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cassiano Ricardo, um dos melhores poetas da língua portuguesa de todos os tempos, registraria a contagiante criação dos cafés em São Paulo, ao escrever:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Café expresso – está escrito na porta.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;entro com muita pressa. Meio tonto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;por haver acordado tão cedo...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e pronto! Parece um brinquedo:&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;cai o café na xícara pra gente&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;maquinalmente.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;nesta pequena noite líquida e cheirosa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;que é a minha xícara de café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sempre maravilhoso Mário Quintana também deixaria sua leitura do café:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O café é tão grave, tão exclusivista,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;tão definitivo que não admite acompanhamento sólido.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mas eu o driblo, saboreando, junto com ele,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o cheiro das torradas-na-manteiga&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;que alguém pediu na mesa próxima.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dos mais populares poemas de Carlos Drummond de Andrade tem o título de “Infância” e nele o itabirano diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No meio dia branco de luz&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;uma voz que aprendeu&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a ninar nos longes da senzala&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e nunca se esqueceu&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;chamava para o café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Café preto que nem a preta velha&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;café gostoso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;café bom.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lá longe meu pai campeava&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;no mato sem fim da fazenda.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e eu não sabia que minha história&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;era mais bonita que a de Robinson Crusoé.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Manuel Bandeira tem dois poemas antológicos sobre café. Um, transformado em canção por Tom Jobim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Café com pão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;café com pão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;café com pão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Virge Maria, que foi isso maquinista?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro poema intitulada-se “Momento num café”, e diz o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quando o enterro passou&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;os homens que se achavam no café&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;tiraram o chapéu maquinalmente.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cora Coralina, a poeta goiana, registrou em seu poema “Visitas” o hábito de servir café, no começo do século XX:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Chegavam visitantes à fazenda&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;as notícias...novidades, assunto da terra,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;gados, criação, preços, mercado de Goiás, safra,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;roça, paióis, doença.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Corríamos a fazer café, oferta de praxe.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Depois, aquela conversa infindável, invariável.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na pós-modernidade, temos o registro, entre tantos outros, da poeta Ana Cristina César que escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quando entre nós só havia uma carta&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;certa a correspondência completa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o trem os trilhos a janela aberta&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;meu salto em equilíbrio&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;o copo d´água a espera do café.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E finalizamos com Adélia Prado e seu “Bucólica nostálgica”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ao entardecer no mato, a casa entre&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;bananeiras, pés de manjericão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e cravo-santo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;aparece dourada. Dentro dela, agachados&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;rápidos como se fossem ao êxodo,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;comem feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;muitas vezes abóbora.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Depois café na canequinha e pito.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;louvado seja Deus!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só pra lembrar:&amp;nbsp;21 de abril é o&amp;nbsp;Dia Internacional do Café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Oliveira, 8 de julho de 2008.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFs_fzsLI/AAAAAAAABTQ/hcDObXdsQMQ/s1600/marcio_4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFs_fzsLI/AAAAAAAABTQ/hcDObXdsQMQ/s1600/marcio_4.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;a href="mailto:marcioalmeidas@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;marcioalmeidas@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-934562309413056442?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/934562309413056442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/934562309413056442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/cafe-com-letras.html' title='Café com letras'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQPFNddPuzI/AAAAAAAABTE/clqyZhhRPYg/s72-c/marcio_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8011450685969705647</id><published>2010-12-12T14:29:00.000-08:00</published><updated>2010-12-12T14:29:42.360-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ARLEQUINAL - Eduardo Sigrist'/><title type='text'>Parabólica</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQOvQKuDNGI/AAAAAAAABS8/Au6xAnUFwfE/s1600/sigrist.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQOvQKuDNGI/AAAAAAAABS8/Au6xAnUFwfE/s1600/sigrist.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sigrist*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rastro que seguia a estradinha em direção à periferia da periférica cidade de Imburana não era feito por nenhum pneu de automóvel, pois disso só existia por ali um Passat 81 que não saía de casa havia três meses, por conta de uma moléstia nos ossos do joelho esquerdo de seu proprietário, o delegado, que, este sim, saía de casa vez em quando, mas deixava um rastro triplo com o contorno de dois pés e de uma bengala de carvalho. E nem era pegada de cobra, tatu, porco, lambisgoia, saci, porque tudo isso existia por ali, mas não costumava andar durante o dia naquela estradinha à beira dos poucos e pobres casebres das redondezas, sob pena de ter os segredos da vida desvarridos de debaixo do tapete por uma das rendeiras que ficavam a tecer fofocas na ponta da agulha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rastro, que acompanhava um par de calosas pegadas, era uma marca riscada na terra pelo arame desgrenhado de uma antena parabólica. Chegava a arrancar pedregulhos do solo, desmanchar formigueiros, estrebuchar trevos de três e de quatro folhas, tanto faz a quantidade, pois a sorte daquele povaréu não era direta nem inversamente proporcional ao número de folhas de um trevo, era um denominador zero. E essa antena parabólica, puxada com tanto suor pelo braço sem parábolas do Vicente, estava chegando meio estragada ao quintal do Vicente, vinda lá da cidade, da casa do cunhado do Vicente, que lhe vendera fiado aquela geringonça havia muito abandonada, concha abortada pela ressaca do sertão. A Isabel, irmã do cunhado do Vicente, e por coincidência mulher do Vicente, fazia tempo que pedia uma parabólica para ver a novela das nove e nove, para ver a protagonista da novela das nove e nove, a Suzy, porque o sinal VHF atravessava com dificuldade a serra e chegava meio empoeirado a Imburana, deformando o rosto da atriz e impedindo a Isabel de ver como ficou a plástica no nariz da Suzy. Nariz que, se se levassem em conta as histórias que a Isabel lia na revistinha da venda do Malaquias e recontava ao Vicente, devia ser a cada dia maior, porque, segundo lenda da região, as mulheres que enganavam o marido encompridavam o nariz próprio e o chifre alheio, e a tal da Suzy não era brincadeira em matéria de cornear o digno esposo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprara fiado o Vicente, pois estava desempregado, e só mesmo o cunhado para lhe fazer aquele favor. Tinha um mês pra pagar, sob pena de perder para o bom cunhado a tevê de 14 polegadas, que entrara no roteiro daquele melodrama financeiro fazendo o papel da multa e que fora, aliás, presente de casamento do próprio cunhado. Mas o que importava no momento era a felicidade da Isabel, os três anos de casados, os três anos de choradeira querendo uma antena decente para ver a novela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A antena estava lá, descansando no quintal, enquanto o Vicente entrava para tomar um gole de água e repor os sais minerais que seriam necessários para instalar o monstro, apesar de o Vicente não entender nada de eletrônica, não saber o que era satélite, não atinar com nada que não fosse feito de madeira e pedra. Mas entendia de mulheres, principalmente da sua, e sabia que, se a Isabel chegasse mais tarde e não encontrasse a tevê tinindo, ela ia entrar fuzilando, irritada depois da viagem de algumas horas de jardineira até a cidade vizinha, disse que pra comprar uma calcinha vermelha, pois esse tipo de artefato não era vendido no casto comércio local. Essa história excitava o Vicente, que queria de todo jeito agradar a mulher para, depois da novela, pedir que ela vestisse e desvestisse a nova aquisição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de tudo, ele a adorava, amava mesmo, embora o povo dissesse que amor por aqueles lados era ventania, ia-se embora se não fosse nutrido com um bom prato de feijão com arroz e farinha. Não era um vagabundo, o Vicente, só dera azar de perder o emprego logo depois do casório, e até agora não encontrara nenhum trabalho sério, só aquele bico ajudando o irmão na pedreira, que lhe garantia umas migalhas para comprar migalhas. Ele queria provar que de amor se podia viver sim, era homem e sabia fazer uma mulher feliz, sabia honrar as promessas do matrimônio, e aquela antena ia trazer felicidade para o lar, porque era um ato de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felicidade não se espera, se constrói, e o Vicente voltou rápido ao quintal para começar a instalação daquele receptor de bem-aventuranças domésticas. “Não tem segredo, Vicente”, vinha de longe, pelo satélite, a lembrança da voz do cunhado, “ela já tá montada, é só enfiar o cano no chão, puxar os fios e direcionar o centro pro Cruzeiro do Sul.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de o Vicente ter tomado uma boa dose de sol durante a caminhada, o algoz ainda tinha muito calor para tostar a testa do caboclo, antes de se refugiar atrás da serra. Até o anoitecer dava tempo de o Vicente fazer o buraco e desemaranhar aquela teia de fios e cabos que o cunhado lhe empurrara, mesmo sem saber para onde diabos teria que apontar aquilo, pois o Cruzeiro caminha no céu, não tem pouso fixo, mas isso ele ia ver à noite, agora tinha muito que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou o enxadão e começou a cavoucar o chão, cavoucar o pensamento, imaginando a alegria da Isabel, o suspiro da Isabel, ai, que sempre o atacava e o enchia de ternura, o suspiro do início do namoro, sonhando filhos e eletrodomésticos, sonhando antenas parabólicas e novelas, sonhando o galã que o Vicente nunca fora, mas que servia pro gasto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra seca ia se amontoando ao lado do buraco, terra que poderia voar ao léu depois de um suspiro da Isabel, o suspiro, ai, que sempre o atacava e enchia de desejo, o suspiro do início do casamento, nas noites de sábado, quando os dois se entregavam a todo tipo de carícia, quando os dois se entregavam a intimidades que o Vicente agora, vendo a terra seca, estéril, recordava com saudade. Quem sabe esta noite, com a ajuda da parabólica e da calcinha vermelha, a Isabel volte a procurá-lo com a mesma necessidade dos primeiros tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cova já era suficiente para enfiar o cano da parabólica, atochar lá no fundo e depois, ufa, o trabalho mais cansativo, que seria apenas empurrar a terra de volta, preencher os contornos do metal, apertar, pisar, para ficar tudo rijo, mas como era pesado aquele serviço, se ao menos houvesse o suspiro da Isabel para ajudar, o suspiro forçado das últimas noites, ai, que sempre o atacava e enchia de ciúme. Ela já não era a mesma desde que passara a ir à venda do Malaquias ler sobre a Suzy e os namorados da Suzy, porque o nariz da Suzy isso, o nariz da Suzy aquilo, o namorado da Suzy que parecia um deus, o outro namorado da Suzy que parecia um leão garboso, o amante da Suzy que tinha o cabelo do... Malaquias!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele não desconfiara? Não, não podia ser, estava imaginando coisas, culpa daquele sol a fritar a mente, culpa daquela antena a prenunciar novelas e filmes impróprios que mexiam com a cabeça das senhoras casadas, culpa daquela antena-sol que mexia com a cabeça dos senhores casados. O Vicente não conseguia parar de cavar e já podia se enfiar até o joelho na cova de tatu, quase até as coxas, quase até o sexo seco de vontade, mas era preciso cavar mais e mais e mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que uma antena daquela? A vida por ali já era gigante demais, com todas as histórias contadas pelas rendeiras sobre lambisgoias e mulas sem cabeça, não era preciso uma parabólica pra saber sobre o resto do mundo, porque o mundo ali era gigante demais, embora coubesse sei lá por que traquinagem de saci dentro do cachimbo dos anciãos, nos causos que eles contavam sobre lambisgoias sem cabeça, o mundo era grande e pequeno, vai entender, e cabia em tudo, menos naquela meia cabaça apocalíptica feita de arame e pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cavar era preciso, porque a Isabel logo ia chegar e querer de todo jeito ver a novela pela parabólica, era preciso cavar mais, para o Vicente enterrar bem fundo aquela desconfiança, aquela desgraça de imaginação de desempregado vadio. Mas ele não era vadio, apenas pensava coisas demais sobre a Isabel, coitada, tão boa moça, coisas de novela, não da vida real, pois na vida real havia as rendeiras, os bons cunhados, as cobras, os tatus, a vila, a venda do Malaquias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior era que o Malaquias andava meio arisco com ele, sempre arrumando serviço pra fugir da conversa, sempre num não dizer, num não encarar. E a Isabel andava suspirosa demais, ansiosa demais, muito estranha, muito suspeita com aquela história de comprar calcinha vermelha, se ela nunca gostou de vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava ir lá, tirar tudo aquilo a limpo, estapear a Isabel, estripar o Malaquias, mas antes tinha que terminar o buraco. O sol já sumira atrás do novo horizonte edificado pela borda do buraco, as primeiras estrelas começavam a aparecer, logo o Cruzeiro do Sul ia apontar lá em cima, e ele não conseguiria sair do abismo, que já estava fundo demais, mas não o suficiente, pois o cano era longo, o chifre era imenso, o nariz da Isabel era descomunal. Tudo tinha de caber ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega de cavar, preciso sair daqui pra plantar a antena, depressa, já estou ouvindo a risada do Malaquias, já estou ouvindo a risada da Isabel, já estou ouvindo o suspiro dos dois namorados a empurrar a terra pra dentro da cova. Socorro! Ser enterrado vivo não quero, me deixem ir embora, prometo que não vou atrapalhar, e ainda instalo a antena para vocês assistirem à novela juntos, me deixem sair, tenho que apontar a antena pro Cruzeiro do Sul antes que o sol nasça de novo, antes que a Isabel chegue de calcinha vermelha, antes que o cunhado venha cobrar o pagamento e leve a parabólica, a televisão, antes que esse suspiro poderoso e descontrolado da Isabel leve a parabólica, o cunhado, a lambisgoia, o chifre, o tatu, a vergonha. O pó, o pó, o nariz asfixiado, o pó, o pó, a mente asfixiada, o pó, o pó, o nariz, o nariz. O narizinho da Isabel, tão pequeno e bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pegadas do Vicente e da antena tinham sumido da estradinha. As rendeiras também se esconderam dentro de casa, fugindo da ventania. Os trevos não tinham três nem quatro folhas, todas arrancadas, levadas pela parábola do rodamoinho que se distanciava. Arte de saci, pensou a Isabel. Ela seguia a pé pelo caminho, deixando seu próprio rastro no chão. Rastro rebolado e encarnado como a calcinha que trazia no corpo. O Vicente ia gostar, ele que andava tão borocoxô depois de perder o emprego. Depois de começar a beber na venda do Malaquias. Depois de começar a ficar até tarde assistindo à tevê na venda do Malaquias. E só falava de novela, de histórias distantes e banais sobre traição e romance. Pois se nem a própria Isabel via novela, achava que isso embotava a cabeça de todo mundo, quanto mais a de um desocupado como o Vicente. Ele tinha perdido o ânimo, dizia que sem emprego não havia feijão com arroz e farinha, e que só de amor ninguém vivia. Mas a calcinha vermelha ia reanimá-lo, ia trazer de volta os primeiros tempos. A Isabel queria provar que de amor se podia viver sim. Era mulher e sabia fazer um homem feliz. Sabia honrar as promessas do matrimônio. E aquela calcinha ia trazer felicidade para o lar, porque era um ato de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQOxLKdK4QI/AAAAAAAABTA/f1PJO_YrWqw/s1600/sigrist_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQOxLKdK4QI/AAAAAAAABTA/f1PJO_YrWqw/s1600/sigrist_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosigrist@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosigrist@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8011450685969705647?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8011450685969705647'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8011450685969705647'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/12/parabolica.html' title='Parabólica'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TQOvQKuDNGI/AAAAAAAABS8/Au6xAnUFwfE/s72-c/sigrist.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7607934739749186781</id><published>2010-11-07T14:13:00.000-08:00</published><updated>2010-11-08T07:53:39.233-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Ah, que falta que um rabo faz!</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNcHfyaRRoI/AAAAAAAABOQ/pzqw6yjKtEw/s1600/carla_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNcHfyaRRoI/AAAAAAAABOQ/pzqw6yjKtEw/s1600/carla_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Carla Giffoni*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A evolução de Darwin diz que todo homem descende do macaco. Não desacredito desta afirmativa, diferentemente das beatas que ainda proliferam em pleno século XXI. Tem gente que crê que a maçã é não apenas um símbolo do pecado, mas o próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando o desconjuro de lado e me atendo apenas ao fato de que a ascendência humana vem de um primata, realmente é lamentável que no meio da cadeia evolutiva tenhamos perdido aquilo que considero primordial: o rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, que maravilha seria ser portador deste membro – se é que posso classificá-lo como tal – que, apesar da evolução científica, tanta falta faz nas atividades humanas hoje em dia! Acredito que o mundo é o que é hoje porque não temos um rabo. Imagino Freud tendo que refazer suas teorias, como aquela que diz que toda mulher tem inveja do falo do homem. Nós mulheres não teríamos o desconforto da inveja: a igualdade &lt;em&gt;rabística&lt;/em&gt; prevaleceria entre os sexos. Um mundo novo se descortinaria, certamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico imaginando os diferentes tipos de rabos que cada um carregaria. Eu, particularmente, ia querer que o meu rabo fosse semelhante ao do &lt;em&gt;Capitão Rodrigo&lt;/em&gt;, um gato vira-lata da vizinha, adotado por minha mãe, que o batizou com o nome do personagem de Verissimo. O rabo do felino era lindo, lindo.... todo branco; e como o gato carregasse na ascendência a estirpe de um fidalgo angorá, seu rabo, além de ser alvo como algodão, era também volumoso! Já pensou que maravilha ir à praia com um rabo desse tipo?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma coisa me ocorreu agora: será que no rabo de nós pobres mulheres mortais também haveria a praga imemoriável da celulite? Vixe! Tomara que não! Porém, como as conjecturas são minhas, fica decretado que no meu mundo &lt;em&gt;rabístico ficcional&lt;/em&gt; rabo de mulher não teria celulite. Cumpra-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico imaginando também os diferentes tipos de rabos femininos e masculinos. Creio que nas mulheres haveria a praga dos rabos com as famigeradas chapinhas a alisar e uniformizar suas texturas. Um grande desperdício, devo lamentar, porque, assim como o cabelo da cabeça, acredito que seria importante que o cabelo (ou pelo, como queiram) do rabo permanecesse com suas características próprias. A diferença e autenticidade é que o tornaria singular e original.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que, como vivemos num período no qual se busca o &lt;em&gt;politicamente correto&lt;/em&gt; – que, convenhamos, é uma chatice e além de tudo traz no seu bojo uma grande forma de preconceito não verbalizada – haveria rabos também &lt;em&gt;antenados&lt;/em&gt; com a situação vigente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que haveria alguma campanha do tipo: “salve os rabos dourados”, semelhante ao que volta e meia se faz com algum animal silvestre que corre o perigo de extinção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, e os pobres dos carecas! Imagino que a natureza, para compensá-los, decretaria que, por mais testosterona que o homem tivesse, nunca perderia os pelos ou cabelos dos rabos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que haveria os radicais, que, no afã de se diferenciar dos outros, raspariam o rabo e colocariam ao longo do membro as mais variadas tatuagens e &lt;em&gt;piercings&lt;/em&gt;. Haveria igualmente os mais &lt;em&gt;meigos&lt;/em&gt;, rabos adolescentes: um rabinho com chiquinhas, fitinhas, tudo muito feminino e cheio de frufru. Muito fofo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande perigo seria em Brasília. Logo surgiria uma lei ou moda impondo que todo aquele que almejasse um cargo político teria que extirpar o rabo. Uma forma de coibir (ou esconder) as falcatruas, os dólares na cueca e cia. Sabe como é... político vive de rabo preso, e a comprovação visual deste fato já seria por si só incriminadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É... como a humanidade perdeu ao longo dos séculos por não carregar um rabo! Tudo seria diferente se nós – mulheres e homens – carregássemos ainda este membro perdido na primeira infância da humanidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo cresce, a ciência evolui, mas até o momento o rabo ainda é motivo de divagação de uma estudante universitária. Uma pena! Mas – tenho que confessar – ainda carrego um fio de esperança. O Projeto Genoma está aí. Quem sabe os cientistas não se animam, né? &lt;em&gt;Tumara&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Carla Giffoni tem&amp;nbsp;16 anos de experiência como jornalista atuando nas Editorias de Política, Polícia, Cultura e Cidades, revistas, &lt;em&gt;sites&lt;/em&gt;, jornais e emissora de TV. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo. Aluna do curso de Letras/Formação de Escritor da PUC-RJ. Contato: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:carlagiffoni@yahoo.com.br" target="_blank"&gt;&lt;strong&gt;carlagiffoni@yahoo.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7607934739749186781?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7607934739749186781'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7607934739749186781'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/ah-que-falta-que-um-rabo-faz.html' title='Ah, que falta que um rabo faz!'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNcHfyaRRoI/AAAAAAAABOQ/pzqw6yjKtEw/s72-c/carla_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-1783737153303283988</id><published>2010-11-07T14:11:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T14:11:22.429-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='NOVOS NOMES'/><title type='text'>Conhaque com gelo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbztKiA6pI/AAAAAAAABOM/SLvlivoyX8Q/s1600/waldemir_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbztKiA6pI/AAAAAAAABOM/SLvlivoyX8Q/s1600/waldemir_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Waldemir Marques*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconheço alguém outro que beba assim desse veneno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A monotonia da rotina é cheiro forte de fêmea que não mais entesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega no terceiro arroto da madrugada com cara de preciso dormir. Abaixa a calcinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá certo, excita a gente. Gostoso, quase sempre. Mas não é o Santo Graal, a fórmula da coca-cola, a ressurreição de James Dean. É só o buraco por onde elas mijam o tempo todo e sangram por uns dias durante um tempo de vida. Até nojento, de certo modo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem esquecer do cheiro. Ah! O cheiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei porque achava que devia fazer aquilo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí, decidiu ficar ofendida quando falei: “Dá pelo menos para esperar que eu peça? Enjoei, porra! Dá vontade de vomitar.” Me xingou a mãe. O pontapé no meio da barriga seco, sem barulho. Nem geme, recupera a respiração, as mãos até os pés, sobe a calcinha, ajeita o elástico na cintura, sai. Na raiva surgida do sem mais - apanha sempre sem reclamar, sabe que é e deve ser assim - esqueceu que devia ter vestido o resto das roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três pedras no conhaque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barulheira e gritaria do cacete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porta aberta no estrondo da porrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde, nessa diarreia defecada pela ignorância do colonialismo lusitano, a vadia foi encontrar um tira a essa hora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velha de cima reclama que é toda noite isso. O velho de baixo diz que no tempo dele só se via assim na zona. Estridente, o veado do fim do corredor guincha que “O-DEI-A!” escândalo de rachada por causa de macho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se contar da pacoteira de maconha muquifada na caixa da descarga, juro que mato ela assim que botar o pé fora da grade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que toda noite chega da vida com a grana, me encontra na cama com o Shell Scott, cansada de apanhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem era nem interessava: o rato já com satisfação bastante para manter a ironia no sorriso cínico por saber que eu dou o rabo. "O mistério das quatro pintas”. Foto do traseiro, pista única. A bunda dela, de vez em quando tem perebas, mas não pintas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, não sou o Ronaldo que despenca aídascurys curradas de sacadas de apartamentos. Só pareço com ele, mas sou mais bonito. Cabelo comprido por razão de promessa, sim senhor. Não, não conheço, não sei onde está o Promessinha.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tira covarde me leva de lado pelo colarinho, tapa na cara, me chama de vagabundo, o cano do berro na minha bochecha, pede duas notas de mil, diz pra eu ficar bonzinho, senão volta, "dessa vez para me matar" e me manda entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escorneio na porrada o primeiro vizinho que reclamar do volume alto. O que é que eu posso fazer se é cafona? O pau endurece dentro da cueca&amp;nbsp;cada vez que ouço o Johnny Mathis cantando &lt;em&gt;It’s not for me to say&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beicinho na boca da cara de peixe morto. Que não sabe o que deu, arrependida, vai ver que a menstruação que está para descer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fio de sangue desce vermelho e gostoso do canto da boca antes mesmo de sumir o eco da bofetada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto, barulho de que está mexendo em fundo de gaveta lá dela. Volta na mão com umas cédulas de grana bem dobradinhas, deixa no pé do porta-retrato com a Marilyn pelada sorrindo provocadora feito em revista de sacanagem. Promete que amanhã sai mais cedo, se esforça para trazer mais. O filho da puta do tira levou os dois mil no achaque da mão grande. Noite dessas, na escuridão de qualquer quebrada, ganho ele na faca bem no meio das costas da sombra dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, viver, no fundo, é apenas contagem regressiva. Pra que dar tanta importância ao que acontece de bom ou de ruim? No final, acaba tudo no estômago dos vermes, ou, mais ainda, na merda que eles cagam na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fungando o nariz melequento escorrido de choro engolido, ela abaixa a calcinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro: Ah! O cheiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três pedras no conhaque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;strong&gt;Waldemir Marques é jornalista em São Paulo e pratica “literatices”. Tem no prelo o livro Perversidades (não tão) Secretas. Costuma dizer que “é um tremendo sucesso como celebridade anônima no papel de identidade secreta do soldado desconhecido”. Contato:&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;&lt;a href="mailto:waldemir.marques@globo.com"&gt;waldemir.marques@globo.com&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-1783737153303283988?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/1783737153303283988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/1783737153303283988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/conhaque-com-gelo.html' title='Conhaque com gelo'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbztKiA6pI/AAAAAAAABOM/SLvlivoyX8Q/s72-c/waldemir_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8798371386725131671</id><published>2010-11-07T14:10:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T14:10:00.202-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ARLEQUINAL - Eduardo Sigrist'/><title type='text'>Ah, como eu gostaria</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbsOL84_NI/AAAAAAAABOE/F_6mTHevHEI/s1600/sigrist.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbsOL84_NI/AAAAAAAABOE/F_6mTHevHEI/s1600/sigrist.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sigrist*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, como eu gostaria, nesta noite de sexta-feira, nesta noite de sexta-feira em São Paulo, com todo o povo agitado nas ruas, a juventude agitada, a juventude da qual eu não mais faço parte, felizmente ou infelizmente, porque aos 32, beirando os 33 de Cristo, porque aos 32 não me sinto mais jovem, já não faço o barulho dos jovens, não suporto a falta de sensibilidade dos jovens, mas também não sou um velho casmurro, não tenho a seriedade dos velhos, ah, como eu gostaria, relembrando os céus estrelados do interior, as noites estreladas de pescaria com meu pai e meu irmão, cada lambari de rabo vermelho que fisgávamos, relembrando as chuvas tomadas nas esquinas com os amigos, sem medo de gripe ou ladrão, relembrando as noites de paródia com minha mãe, quando reconstruíamos versos populares de cantores medíocres e inventávamos letras esdrúxulas, com ou sem rimas esdrúxulas, quando eu mal conhecia Chico Buarque e sua construção, quando o único clube da esquina que eu conhecia era o de camaradas que tomávamos chuva nas noites do interior e imaginávamos histórias de vampiro e detetive, e ainda não era O Clube da Esquina aquele magistral agrupamento de vozes e mentes que depois viriam trazer inspirações esdrúxulas a este coração norte-centro-sul-americano, inspirações que sei lá o que inspiravam ou inspiram, uma inspiração-respiração, batimento cardíaco, suspiro, vida e morte, que não é o mesmo tipo de inspiração que vem do Chico, nem é a inspiração &lt;em&gt;spleen&lt;/em&gt; do poeta francês, muito menos essa inspiração enevoada que sopra das mãos enevoadas de Nelson Freire quando ele toca, neste momento, os noturnos de Chopin, noturnos tão noturnos e estrelados, noturnos tão ensolarados e chuvosos, que só me fazem pensar em como eu gostaria, nesta noite de sexta-feira, enquanto escrevo este conto, esta crônica, este poema, este romance esdrúxulo, estas palavras sem pé nem cabeça, só peito, estas palavras que só interessam a mim, estas pobres palavras que alguém um dia vai rotular de qualquer coisa como prosa poética ou como lixo, pra mim tanto faz, porque estas palavras são apenas noturnos, enquanto aguardo, nesta noite em São Petersburgo, em São Francisco, em São Luiz do Paraitinga, em São Luís do Maranhão do São Gullar, do Gullar que me observa agora, ao lado do Machado, do Pessoa, do Oscar Wilde e até do francês, que deve estar sentindo um &lt;em&gt;spleen&lt;/em&gt; danado por me ver, e todo esse povo me olha de dentro de um papel-bíblia da Aguilar, todos esses caras comprados em promoções, todos eles valendo um preço tal, setenta reais e noventa centavos, e mesmo sabendo que esse povo também é vendido por aí, que virou mero adorno para minha estante, sim, porque nestes dias de trabalho e trabalho, como achar tempo para poesia e romance, e pior, como achar tempo para escrever poesia ou romance, e pior, como achar coragem para escrever poesia ou romance ou qualquer coisa diante desses olhares eternos, opressores até, é por isso que esta noite, em São Paulo das Almas Perdidas, eu só gostaria mesmo, pensando na volta dele, ele que foi maior que Machado ou Chopin, pensando que ele não deveria trazer a espada, e sim a paz, porém não dá, ele mesmo disse que não, e é isso mesmo que precisa ocorrer, precisamos da espada, do espinho, que corte a carne dessa juventude egoísta, que arranhe a pele deste burguesinho que sou e o faça abrir a janela e sentir o cheiro de mijo e fome dos mendigos, que abra ao meio este burguesinho, eta palavra fora de moda, burguês, tão fora de moda como escrever cartas de amor, como escrever o falso e descabido fluxo de consciência de um burguesinho fora de moda, que se empanturra de pizza com mussarela derretida numa noite de sexta-feira em São Paulo da Miséria, terra dos burguesinhos como eu, dos milionários da rua de cima, dos travecos debaixo do Minhocão, e dos mendigos de todo canto, em cima do viaduto, embaixo do Tietê, grudados na sola de nosso All Star fora de moda, agarrados ao pedaço de pizza que escorre para dentro de nosso estômago, tudo isso tão lugar-comum, tão clichê como falar da fome dos outros enquanto se devora um triângulo de mussarela de búfala, tão clichê como escrever maus fluxos de consciência, fluxos de consciência de um burguesinho sem consciência, porque só sabe ouvir Chopin dentro de um quarto de classe média, enquanto aguardo, já que não posso esperar por um novo mundo possível, tão fora de moda esperar isso, pedir paz, justiça, igualdade e nada fazer, discursos políticos jogados no vazio, tudo tão fora de moda como ouvir um noturno de Chopin e aguardar você chegar e, como toda noite você faz, ah, como eu gostaria de te ouvir chegar de mansinho na cama, me dar um beijo e um boa-noite-meu-bem, e me abraçar um abraço tão apaixonado e tão lúcido que num segundo silenciaria os gritos, os tiros, as sirenes e os roncos de fome, e eu fecharia este caderno de rascunhos porque a partir desse abraço nada mais importa senão lembrar que pelo menos aqui, neste quarto de classe média, ao som de um piano noturno que não é o de Sam, ainda existe o amor, eta palavrinha tão fora de moda que dá até medo de escrever para não gastar, para não acabar, para não chocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosigrist@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosigrist@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8798371386725131671?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8798371386725131671'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8798371386725131671'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/ah-como-eu-gostaria.html' title='Ah, como eu gostaria'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbsOL84_NI/AAAAAAAABOE/F_6mTHevHEI/s72-c/sigrist.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7683662372776363292</id><published>2010-11-07T14:07:00.000-08:00</published><updated>2010-11-08T15:06:08.884-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A VERDADE DA MENTIRA - Paulo Lima'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Romance à primeira vista</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbgFSVSKfI/AAAAAAAABOA/ZIgoEnIuK-Q/s1600/paulo_1.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbgFSVSKfI/AAAAAAAABOA/ZIgoEnIuK-Q/s1600/paulo_1.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Paulo Lima*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São muitas as artimanhas que um narrador é capaz de criar para manter um leitor cativo até o fim de uma história. Inícios bem elaborados podem, sem dúvida, ser um desses truques, particularmente nos romances, dada sua extensão. Neles, o leitor é vencido por pontos, caso se confirme ao longo da leitura que o “produto” era de fato bom, que o autor foi capaz de cumprir o prometido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez leitores que se deixem apenas guiar pelo critério de inícios promissores não sejam lá muito dignos de confiança. Pode ser que ajam como certas pessoas que confiam apenas na primeira impressão que têm de alguém. Afinal, assim como nos relacionamentos, muitos romances revelam sua qualidade à medida que nos aprofundamos neles. É apenas ao final que sua grandeza será ou não revelada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que tanto livros quanto pessoas podem mostrar altos e baixos e ainda assim nos causar uma impressão positiva. Mas sem dúvida que bons começos têm seus atrativos intrínsecos, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recentemente, o &lt;em&gt;site&lt;/em&gt; American Review of Books fez uma &lt;a href="http://americanbookreview.org/100BestLines.asp" target="_blank"&gt;lista&lt;/a&gt; com os 100 melhores inícios de romances. No topo da relação – não se sabe se o critério foi o de qualidade literária – está o &lt;em&gt;Moby Dick&lt;/em&gt;, de Herman Melville, e seu começo tão econômico quanto enigmático: “Chame-me Ismael”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase pode até não soar como um pontapé inicial cativante. Eu mesmo não percebo sua grandeza. Mas veja só: a história da baleia de Melville é uma dessas unanimidades do mundo literário, trata-se de um dos maiores romances de todos os tempos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o fato é que esse negócio de começos inesquecíveis tem seu charme, e vai além de listas divertidas e polêmicas de suplementos literários. O escritor israelense Amós Oz chegou a dedicar um pequeno livro ao assunto, relacionando ele próprio começos de romances que o impressionaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na introdução, Amós Oz justifica o porquê da empreitada: “Começar a contar uma história é como passar uma cantada numa pessoa inteiramente desconhecida, num restaurante.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sabe que um romance pode conquistar o leitor por pontos, mas começar com um bom soco no queixo é uma excelente estratégia, e é com uma cantada magistral que Oz começa seu romance &lt;em&gt;Meu Michel&lt;/em&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Jerusalém, 1960.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Escrevo porque as pessoas que amei já morreram. Escrevo porque quando era menina havia em mim muita força para amar, e agora esta força está morrendo. Eu não quero morrer.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Como não ter a curiosidade atiçada e seguir adiante? Como não querer saber o que levou o narrador (no caso, uma mulher) a chegar a esse ponto? E o que esse narrador fará para resolver sua situação? A indicação de um local e data confere à narrativa um sabor documental, memorialístico, como se se tratasse de uma história real, de uma situação vivida por alguém, em algum lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprei o romance nocauteado por esse início poderoso. Valeu cada centavo e cada palavra. Amós Oz entregou o que prometeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa, porém, não foi a primeira vez em que um bom cruzado me atingiu logo de início. Um dia, ao folhear &lt;em&gt;Desonra&lt;/em&gt;, o romance que deu a J. M. Coetzee o Nobel de Literatura, topei com este início:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Você quer saber o que acontecerá com esse personagem? O que o levou a pagar por sexo aos 52 anos? E como era sua vida antes? Eu também quis, e continuei a ler o livro ali mesmo na livraria, concluindo a leitura muitas horas depois, sem qualquer esforço. Tinha a certeza de que lera um grande romance, escrito numa linguagem inacreditavelmente seca e objetiva, quase jornalística. Um romance que ainda carregava o mérito de nos mostrar a situação de uma África do Sul ainda nos tempos do &lt;em&gt;apartheid.&lt;/em&gt;Muitos motivos podem nos levar a comprar um romance: uma resenha favorável, uma indicação de um amigo, uma capa atraente, um título chamativo. Contudo, nada é mais sedutor e poderoso do que um começo bem urdido. &lt;em&gt;Intimidade&lt;/em&gt;, romance de Hanif Kureishi, foi outro que me acertou o maxilar no primeiro contato. Eis o começo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;É a noite mais triste, pois estou indo embora e não vou voltar. Amanhã de manhã, quando a mulher com quem vivi durante seis anos sair de bicicleta para o trabalho e as crianças forem jogar bola no parque, arrumarei a mala, deixarei minha casa levando pouca coisa, torcendo para que não me vejam, e pegarei o metrô onde Vitor mora. Lá, dormirei no chão por um período indeterminado, no quartinho que ele me ofereceu gentilmente, ao lado da cozinha. Devolverei o fino colchão de solteiro ao guarda-louça, todas as manhãs. Guardarei o acolchoado malcheiroso numa caixa. Ajeitarei as almofadas de volta no sofá.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Essa noite triste também se abateu sobre mim após essa leitura inicial. Que razões levam um pai desalmado a abandonar assim o lar e os filhos? Num romance pequeno, talvez mais para uma novela, Hanif Kureishi consegue concentrar, com sabedoria e charme, uma história atual de amor desfeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre um bom arranque é garantia de um final vitorioso. Comprei o romance &lt;em&gt;Uma breve história dos tratores em ucraniano&lt;/em&gt;, de Marina Lewycka, seduzido por esse título exótico (eu estava mesmo querendo entender um pouco da conturbada realidade soviética pós-comunismo) e por um começo maravilhoso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Dois anos depois que minha mãe morreu, meu pai se apaixonou por uma ucraniana divorciada, loura e glamourosa. Ele tinha 84 anos, e ela, 36. Ela explodiu em nossas vidas como uma granada rosa e fofa, agitando as águas sombrias, trazendo à tona um lamaçal de memórias deixadas de lado, dando um pontapé no traseiro dos fantasmas da família.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Isso é que se pode chamar de um sortudo. Aos 84 anos e ainda com fogo nas entranhas. Que confusão ele criará para si mesmo e para a família? E essa tal russa de 36 anos? Será uma espertalhona? A narradora (a filha protetora) conseguirá arranjar as coisas, de modo a manter a harmonia familiar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse foi o primeiro romance da autora, e consta que ela foi rejeitada por várias editoras antes de conseguir publicá-lo. Ela disse em entrevistas que se inspirou na própria família para escrever o livro. A narrativa flui muito bem. Vai ficando cada vez mais evidente que a ucraniana de 36 anos só quer tirar proveito de sua vítima. As filhas fazem o que podem para afastá-la. Um bom drama ucraniano e universal, não? Mas perdi o interesse pela leitura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem começos tão perturbadores que nos acompanham pela vida afora. Meu exemplo preferido é o de &lt;em&gt;A metamorfose&lt;/em&gt;, de Franz Kafka. Aliás, eu diria que este é talvez o começo mais intrigante e poderoso de um romance na literatura ocidental:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Certa manhã, após um sono conturbado, Gregor Samsa acordou e viu-se em sua cama transformado num inseto monstruoso. Deitado de costas sobre a própria carapaça, ergueu a cabeça e enxergou seu ventre escurecido, acentuadamente curvo, com profundas saliências onduladas, sobre o qual a colcha deslizava, prestes a cair. Suas inúmeras pernas, terrivelmente finas se comparadas ao volume do corpo, agitavam-se pateticamente diante de seus olhos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Algumas manhãs depois da leitura, temi acordar como o pobre Gregor Samsa. O impacto foi tão tremendo que o sobrenome Samsa, para mim, passou a significar sinônimo de inseto. Poucas cenas de violência na literatura, mesmo aquelas tão comuns numa certa linhagem de romance urbano (e policial), são tão impressionantes como essa de Kafka.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes bastam umas poucas, escassas linhas, para atingir o leitor. Já vimos acima o exemplo do &lt;em&gt;Moby Dick&lt;/em&gt;, de Melville. Um romance caudaloso como &lt;em&gt;Os detetives selvagens&lt;/em&gt;, de Roberto Bolaño, cuja primeira parte é estruturada na forma de um diário, abre com um parágrafo curto composto por quatro frases apenas.&lt;br /&gt;Ei-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;2 de novembro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui cordialmente convidado a fazer parte do realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, a história de Juan García Madero e suas aventuras literárias, o iniciado no tal realismo visceral, vão se apossando do leitor. García Madero é apenas um dos muitos personagens do livro, que traz diversas histórias dentro de uma história, uma narrativa polifônica típica da obra de Bolaño. Mas a dimensão do livro e sua geografia anárquica são, paradoxalmente, um dos muitos atrativos desse romance inovador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exemplos podem ser dados à exaustão. Tudo está relacionado com a experiência e o grau de maturidade de cada leitor. O que começa bem nem sempre termina bem. Este não é um princípio válido apenas para a literatura – e muito menos para ela, cuja regra fundamental é não obedecer a regras ou cânones. Mas um começo arrebatador não deixa de ser um passaporte, uma senha poderosa para o que virá a seguir. É uma prova de que o escritor logrou êxito sobre a página em branco e, ao menos inicialmente, foi bem sucedido ao tentar conduzir uma narrativa. O que não é pouco. O que não faltam na literatura são histórias de retumbantes fracassos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;*&lt;/em&gt;&lt;a href="mailto:*paulo_val@uol.com.br"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;paulo_val@uol.com.br&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7683662372776363292?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7683662372776363292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7683662372776363292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/romance-primeira-vista.html' title='Romance à primeira vista'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbgFSVSKfI/AAAAAAAABOA/ZIgoEnIuK-Q/s72-c/paulo_1.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-1661760765934645172</id><published>2010-11-07T14:06:00.000-08:00</published><updated>2010-11-25T15:58:14.607-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ESTANDARTE - Eduardo Sabino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Fim cinzento</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbaPs5c4SI/AAAAAAAABN8/XSw3IdmKVI4/s1600/eduardo_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbaPs5c4SI/AAAAAAAABN8/XSw3IdmKVI4/s1600/eduardo_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sabino*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Rosa, não me peça opinião sobre o seu vestido roxo”. Hoje ela veste alguma cor entre o inferno e o arco-íris. As bordas da saia estão longe dos pigmentos de moralismo abaixo dos joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falar das cores, descrever um desfile de sombras. Veja este vulto elegante, que pode ser marrom, este outro, que pode ser verde, e mais outro, que pode ser cor-de-namoro-quando-acaba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, o espírito desbotado do fim está conosco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou o tempo da hegemonia dos carros pretos, dos valores bilaterais. Invoco em visão panorâmica o tumor urbano: as células multicoloridas congestionando os vasos de asfalto. Poderíamos falar de objetos diversos que nos entopem, eu sei, mas prefiro as extensões do homem. Com exceção dos espelhos, tudo nos reflete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As partículas de luz caem dos olhos de Rosa. Vejo-as estourando no sanduíche e isso me tira a fome. Lanchar ali deveria ser uma experiência psicodélica, pintura de muitas tintas, o &lt;em&gt;fast-food&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não me ama mais?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro era o branco, radiação solar. Do branco veio o vermelho, o azul e o verde. Os cones são estruturas do olho humano responsáveis pela captação das cores. São como os amantes mais depravados: não se excitam no escuro. No menor sinal de treva as aquarelas se dissolvem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu te odeio. Odeio esta sua camisa laranja ridícula. Sua mãe tem péssimo gosto...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ódio dela alaranjado feito pôr de sol. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cores virão a mim como a gravidade a Newton. Uma laranja cairá na cabeça e passarei a enxergá-las. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está em trevas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre a treva e a luz. Nasci com a visão acromática. “Doença raríssima”, o médico revelou. A vida se desenrola em preto e branco, claro-escura. As figuras, das pedras aos homens, não passam de tonalidades de cinza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levanta. Os olhos claros, que nunca saberei se são mesmo verdes... “Seu ingrato, eu aceitei sua doença, eu te dei apoio...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou um doente. Isso não faz diferença, ela deveria saber. Existe um vírus por aí pintando paisagens e descolorindo almas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosa chora por mim como chorava pelo ex. Amanhã ou depois encontrará outro namorado. Se ele tiver um carro metálico-azul, muito papel verde, cartão de crédito... – de que cor são os cartões de crédito? – e outros utensílios carnavalescos, será chamado de “meu amor” logo, logo. Logomarcas não faltam para estimular tão nobre sentimento! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, você não me ama mais?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sai andando em círculos no piso quadriculado. É a última vez que a verei assim, feito barata louca. Rosa ficará bem. Esse redemoinho não é amor. O amor se esconde entre imagens produzidas em série. Ainda descubro a sua cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosabino@caoseletras.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosabino@caoseletras.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-1661760765934645172?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/1661760765934645172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/1661760765934645172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/fim-cinzento.html' title='Fim cinzento'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbaPs5c4SI/AAAAAAAABN8/XSw3IdmKVI4/s72-c/eduardo_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-6486293845082811174</id><published>2010-11-07T14:04:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T14:04:04.104-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SOLO INSÓLITO'/><title type='text'>Do artista enquanto liquidificador</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;(Ou sobre um livro que escorre entre os dedos)&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbXHO5vAII/AAAAAAAABN4/DrLCUoPQ4dU/s1600/daniel_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbXHO5vAII/AAAAAAAABN4/DrLCUoPQ4dU/s1600/daniel_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Daniel Lopes&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liquidificador, segundo o Aurélio: aparelho elétrico para misturar, transformar em pasta ou líquido, ou triturar certos alimentos. Luiz Bras é um liquidificador, não só porque as narrativas de seu &lt;em&gt;Paraíso líquido&lt;/em&gt; vão se dissolvendo uma a uma até chegar ao ambiente denso, pastoso, gomoso, do conto que empresta título ao livro. Não só por triturar alguns alimentos artísticos sólidos e bem definidos com os quais alimentávamos nosso paladar literário, mas, antes de tudo, Luiz Bras é um liquidificador porque, assim como o aparelho elétrico, esse escritor também elétrico, mistura ingredientes diferentes e nos devolve, a nós leitores, um produto novo, homogêneo e bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz tem uma proposta clara, tratar temas da ficção científica com procedimentos estilísticos ligados ao pós-modernismo e à chamada “alta literatura”. É uma ideia ousada, que teria tudo para fracassar, mas que, nas mãos desse liquidificador hábil, funciona... e bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro tem treze contos e todos eles são permeados por uma poética ligada ao campo semântico da água e do líquido. Por vezes, lembra &lt;em&gt;A chuva imóvel&lt;/em&gt; de Walter Campos de Carvalho, guardadas as devidas idiossincrasias. O fato é que nos deparamos aqui com sentenças do tipo: “se você acordasse e olhasse pela janela veria o dilúvio ácido e barroco” (Protagonistas e Figurantes), ou “você veria o incêndio na parede de cristal líquido” (Protagonistas e Figurantes). “Os círculos coloridos atravessaram a pesada nuvem” (Futuro Presente). “Pegando um pedregulho e arremessando com raiva no lago” (Futuro Presente). É como se a água fluísse o tempo todo. Por vezes parece até que o livro vai nos escorrer por entre os dedos. O próprio título de um dos contos é Nuvem de cães-cavalos. Além disso, a entidade que assombra o ambiente do conto Paraíso Líquido se chama simplesmente Nuvem. Há ainda a criação de novas palavras que lembram a chuva como "chochovenho". Durante a leitura do livro, fiquei pensando como lhe cairia bem de epígrafe o seguinte trecho de um poema de Rodrigo de Haro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;No fundo da chuva&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;num lugar menos cinzento&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;que a desesperança não aflige&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;um piano continua&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;seu refrão de interrogações&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;pertubadoras&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;que tantas cortinas de água&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;não amainam.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Outro aspecto da escrita de Luiz Brás que não pode ser deixado à margem, embora o autor tenha um traço marginal, é o tratamento dado à elaboração formal do texto e à própria palavra em si. Explico-me melhor, em alguns momentos, o que é abordado num conto afeta a própria estrutura e a forma do texto. Daí que, em uma das narrativas, trechos ilegíveis, ou melhor, identificados como ilegíveis, podem conter a chave do mistério. O que não se escreve é tão importante quanto o que se escreve. Em outros relatos, o que chama a atenção é uma experiência tão radical de linguagem que o que é tratado leva a palavra a uma desintegração, ou a uma implosão. Há ainda contos nos quais o léxico de nosso idioma não é capaz de abranger o novo universo inventado pelo autor, daí tantos neologismos, mais notadamente no último conto. É como se novas emoções fossem descobertas (ou relembradas) a partir da criação (ou lembrança) de determinado vocábulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais acima lembrei Campos de Carvalho. Os dados biográficos de Luiz Brasil, assumidamente inventados, lembraram-me também o Campos de Carvalho, assassino da lógica, de &lt;em&gt;A lua vem da Ásia&lt;/em&gt;. O incrível Campos de Carvalho que... mas não aqui, melhor manter o foco. Voltemos ao Luiz Brasil e ao seu livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há histórias interessantíssimas em &lt;em&gt;Paraíso Líquido&lt;/em&gt;, mas fiquei com vontade de comentar aqui uma narrativa em especial. Trata-se do conto que abre o livro: &lt;em&gt;Primeiro Contato&lt;/em&gt;, que tanto pode se referir ao primeiro contato entre um ser humano e um alienígena, quanto pode se referir ao primeiro contato de uma criança com a vida adulta. É um conto terno, atormentado, triste, que pode levar o leitor desprevenido a compartilhar as lágrimas do protagonista (olha a água aí outra vez). É interessante notar que este texto pode ser visto também como uma síntese de outra das propostas literárias do autor: a literatura como imaginação, invenção, recriação da realidade imediata que está por aí nos oprimindo o tempo inteiro, mas "vida de patrulheiro estelar não é mesmo para os fracos"... e mais não digo. Chega de lágrimas, acabou chorare.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esta altura vocês devem estar se perguntando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um livro perfeito então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu responderia: não leitor, é um excelente livro, ainda assim fica uma ressalva, que pode ser só um ranço academicista meu. Acho que o livro poderia ter ainda mais espaço para a dubiedade. Alguns textos poderiam deixar no ar a dúvida se aquilo que é tratado é mesmo real, ou se é invenção, ou ainda, se é loucura mesmo das personagens. O narrador abriria assim um leque mais amplo de interpretações, o que enriqueceria ainda mais os textos. Entretanto, este é um livro que vislumbra o novo, um solo nunca pisado, a vanguarda. Só por esses motivos já valeria a pena a sua leitura e releitura atenciosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Popular e erudito. Literatura de gênero e alta literatura. Coloquial e formal. Um liquidificador unindo elementos por vezes opostos e nos devolvendo um bolo homogêneo e saboroso. Assim é &lt;em&gt;Paraíso Líquido&lt;/em&gt;, de Luiz Bras, um autor que foge do óbvio. É bom respirar esses novos ares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&amp;nbsp;&lt;strong&gt;Daniel Lopes tem textos publicados nas revistas literárias Amálgama, Cronópios, Germina e Escritoras Suicidas. Publicou em 2008 o romance &lt;em&gt;É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança&lt;/em&gt;. Em 2010, publicou o livro de contos &lt;em&gt;Pianista boxeador&lt;/em&gt;. Vencedor do prêmio Valeu Professor 2010, categoria conto. Contato: &lt;a href="mailto:danielopes26@yahoo.com.br"&gt;danielopes26@yahoo.com.br&lt;/a&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-6486293845082811174?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6486293845082811174'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6486293845082811174'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/do-artista-enquanto-liquidificador.html' title='Do artista enquanto liquidificador'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbXHO5vAII/AAAAAAAABN4/DrLCUoPQ4dU/s72-c/daniel_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4350882324461085970</id><published>2010-11-07T14:02:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T14:30:38.006-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ROENDO A PÁGINA - Cristiano Silva Rato'/><title type='text'>Men... digo</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbRC_eUz5I/AAAAAAAABN0/1omUt5Y6XX0/s1600/cristiano_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbRC_eUz5I/AAAAAAAABN0/1omUt5Y6XX0/s1600/cristiano_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cristiano Silva Rato*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossos nomes não importam mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Men&lt;/em&gt;... digo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprendi-me dos números&lt;br /&gt;e dos finais;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Men&lt;/em&gt;... digo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossos registros pegaram fogo&lt;br /&gt;em algum cais;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Men&lt;/em&gt;... digo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo pelas grades laterais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perturbamos a grande jaula de aço. Não respeito leis, nem reconheço a autoridade. Perturbamos com nosso silêncio, n’o canto da cidade. As máquinas morreram também. &lt;em&gt;Meu&lt;/em&gt;, passado, foi junto. Observamos os fadados, pela grade... Olham e sorriem, fazem cara de nojo, de compaixão. Dissimulados da porra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*cristianorato@caoseletras.com"&gt;&lt;strong&gt;cristianorato@caoseletras.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4350882324461085970?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4350882324461085970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4350882324461085970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/men-digo.html' title='&lt;i&gt;Men&lt;/i&gt;... digo'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbRC_eUz5I/AAAAAAAABN0/1omUt5Y6XX0/s72-c/cristiano_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8794136929966226720</id><published>2010-11-07T14:01:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T14:01:15.598-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A PRÁTICA NA TEORIA - Márcio Almeida'/><title type='text'>Literatura latina pós-moderna: violência, droga, rock e cidades emblemáticas</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbNpW_HQfI/AAAAAAAABNw/NlvO6aEMU2Y/s1600/marcio_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbNpW_HQfI/AAAAAAAABNw/NlvO6aEMU2Y/s1600/marcio_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcio Almeida*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Enterram-se as ilusões com os iludidos, cheios de generosa ingenuidade. O mundo, agora, é outro.” &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Jorge Colli&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Com o título “Americanos esquecidos”, Carlos Herculano Lopes publicou no Estado de Minas (30/5/04, pág. 4 – Cultura) matéria em que alude ao suposto “esquecimento” editorial dos autores latinos, após o &lt;em&gt;boom&lt;/em&gt; por que passou a literatura do continente nos anos 60 e 70. Para resumir: o artigo faz um &lt;em&gt;recuerdo&lt;/em&gt; em tom às vezes nostálgico daquele período neo-iluminista-barroco-mágico-fantástico e são lembrados os principais escritores, a exemplo de García Márquez, a luta da maioria contra as ditaduras então instaladas em seus países de origem, o &lt;em&gt;glamour&lt;/em&gt; e o batismo de fogo propiciados pelo prêmio oferecido pela Casa de las Américas, em Cuba, e o progressivo desinteresse do mundo pela “imagem que se tinha de um continente exótico, palco de paixões exacerbadas, de regimes políticos violentos, de uma natureza luxuriante e belas mulheres”, como dá suporte teórico a professora da UFMG Maria Antonieta Pereira. Ao reconhecer a América Latina como “continente a ser descoberto”, alguns nomes novos haverão agora de vir à tona, entre outros o da chilena Damiela El Tit, os mexicanos Margo Glantz, Angeles Matiretta e Jorge Volpi; os argentinos César Aira e Alan Pauls; os cubanos Pedro Juan Gutierrez, Zoé Valdéz, Leonardo Padura e Reinaldo Arenas, todos prosadores. O artigo não se refere a nenhum poeta e a nenhum autor contemporâneo, em prosa e verso, do Brasil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu? “Tudo agora ruiu, até o prodígio” (Eugênio Montale) da nossa sabedoria ilhada, de presunção requ(i)(e)ntada de loas submissas aos&lt;em&gt; topi&lt;/em&gt; que engendram o pós-colonialismo de uma pretensa desterritorialização? Viva Homi Bhabha! “O que seria esse espaço político, como realidade local ou transnacional, é o que se interroga e se inaugura. O passado-presente torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia de viver.” O esquecimento, se verdadeiro e mantido pelo truste editorial, seria em função de tirar sangue de “esqueletos luminares”, porque, lembrando o Conselheiro Aires machadiano, “os mortos se vão depressa”, e porque a reificação, segundo Gottdiener, assegura ao passado o “controle dos lugares, sua hierarquia restrita, a homogeneidade do todo e a segregação das partes”? Enfim: não se publica autor novo latino-americano porque é preciso “conter toda potencialidade real de oposição” àqueles cânones literários que desvelam “arcaicas exibições de decadência”? Nada disso. A atual produção de autores novos da América Latina, ao contrário dos simulacros fantásticos e mágicos típicos das décadas de depressão tem outro norte. E, nesse novo caminho da experiência de linguagem, o óbvio: “Todos os bens culturais têm uma origem sobre a qual não se pode refletir sem horror.” O leitor terá certeza disso já já. O momento, portanto, é oportuno para deixarmos de ser “prosélitos extasiados.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se quiser avançar a intenção de C. Herculano Lopes, ou seja, reconhecer outros parâmetros de leitura desse suposto “esquecimento” editorial, há que se considerar olhares mais amplos e verticais do re&lt;strong&gt;boom&lt;/strong&gt;bar latino-americano. E, nesse caso, é viável, por exemplo, diz Gilberto Dimenstein, “a universidade se inserir numa comunidade de aprendizagem conectada com o que existir de inovação &lt;strong&gt;no planeta&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;.”&lt;sup&gt;1 &lt;/sup&gt;&lt;/span&gt;Do mesmo modo salutar, a crítica e a informação de resenhistas deveriam considerar, como analisa Alfredo Bosi, que “talvez o nosso processo de aculturação euro-afro-americano ainda esteja longe de ter-se completado&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;.”&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt; É muito possível que o nietzschiano esquecimento aludido advenha de uma também provável &lt;strong&gt;intratemporalidade&lt;/strong&gt;, que segundo Heidegger, se dá como “ser-no-mundo” para um “ser-no-tempo”, característica tão típica da especificidade literária da atual produção latino-americana. Nesse sentido é pertinente a reflexão do professor Ettore Finazzi-Agró, autor de&lt;em&gt; Um lugar do tamanho do mundo&lt;/em&gt; (ed.UFMG) de que o pretenso esquecimento dos escritores latino-americanos (em prosa &lt;strong&gt;e verso&lt;/strong&gt;) talvez seja apenas (o que todavia não é pouco) reflexo do “tempo preocupado” pontuado por Paul Ricoeur. Ou seja: o relógio “não vale para ajudar a pensar uma história que não se submeta ao tempo linear, continuando, porém, a ser pública apesar do seu anacronismo e da sua anomia, continuando a ser efetiva apesar do seu instalar-se &lt;strong&gt;numa falta&lt;/strong&gt;.” A suposta falta, por sua vez, de interesse em se publicar obras de escritores latinos, pós-&lt;em&gt;boom&lt;/em&gt;. O que, convenhamos, não bate com a realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que leva a professora Maria Antonieta Pereira a ter, há alguns bons anos, homéricas dificuldades para convencer editores pátrios a publicar livros de ilustres desconhecidos? Muitas podem ser as respostas. Uma, formulada indagativamente por Gerald Thomas: “Meu Deus, será que ninguém consegue mais escrever uma linha original nos dias de hoje?&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;sup&gt;3&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Ver-se-á que não é esse o caso. Outra, de Gilles Deleuze, que, inconscientemente, parece traduzir a opinião “de reserva” de muitos que omitem haver uma generalização digna da liberalidade literária, artística e cultural grassante no mundo, e o Brasil não foge à regra: “Espalhou-se a ideia geral de que todo mundo pode escrever, desde o momento em que a escrita se tornou o pequeno problema de cada um, de arquivos familiares, de arquivos que cada um tem na sua cabeça&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;.”&lt;sup&gt;4 &lt;/sup&gt;&lt;/span&gt;Ainda uma terceira (entre muitas outras que cada leitor poderá apor) referente ao fato de que talvez seja cabível à crítica acadêmica, hoje, incluir em sua prática aquela “visão a partir de lugar nenhum”, proposta por Thomas Nagel, visando a uma “humildade analítica” em desejável detrimento, diga-se, da “arrogância dialética.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Outras vozes: o coro desafinado não diz amém&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe uma nova literatura latino-americana. Debochada, anárquica, fragmentária, impiedosa consigo mesma, hiperrealista, sem papas (em todos os sentidos) na língua e na linguagem. Uma literatura anti-literatura que detona os conceitos arraigados na sua teoria específica, problematizando o pós-modernismo para gerações pós-modernas. É o que faz o colombiano Efraim Medina Reyes em &lt;em&gt;Técnicas de masturbação entre Batman e Robin&lt;/em&gt; (ed.Planeta), onde detona a imagem de Gabriel García Márqueting, como o jovem refere-se ao prêmio Nobel seu compatriota. Com outros autores jovens, impõe o realismo urbano com sua crítica social, a incorporação da violência nas cidades, o narcotráfico, os elementos da cultura de massa, a narrativa-estilhaço. Em vez de se espelharem em clássicos paroquianos, endossam a influência da televisão e de uma nova forma utilitária da cultura popular, de Raymond Carver, Paul Auster, Truman Capote, Prince, Wim Wenders, Pixies e Nirvana, John Galliano, boxeadores, Emily Dickinson, Cesare Pavese, Kierkegaard, técnicas policialescas e o que marca o “desencanto” utópico, analisa M. Flamínio Peres&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;sup&gt;5&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, em vez da adoração, da vênia respeitosa, as ações transgressoras, sarcásticas e iconoclastas, como as do grupo chileno McOndo, que desde 1996 satiriza o povoado Macondo criado por García Márquez. Ou a geração “crack” = ruptura, dos mexicanos Jorge Volpi e Ignácio Padilla ;de outros colombianos como Rafael Chaparro, porta-bandeira do neo &lt;em&gt;boom&lt;/em&gt;, Mario Mendoza, Jorge Franco – autor de “Rosário Tijeras”, cuja primeira edição, em 1999, esgotou-se em dois dias, Hector Abad Faciolince, Santiago Gamboa e Enrique Serrano; dos peruanos Alonso Cueto, Fernando Ampuero. Justo contra o “esquecimento,” não se pode olvidar os argentinos Rodolfo Walsh, recém-revitalizado pela Folha de São Paulo, assassinado em Buenos Aires, 1977, e Nestor Perlongher, morto em 1992. Para Haroldo de Campos, o autor de &lt;em&gt;O negócio do michê&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Evita vive&lt;/em&gt;, entre outros, faz “um mergulho no&lt;em&gt; kistch&lt;/em&gt; e no &lt;em&gt;cursi &lt;/em&gt;urbano-argentino, nos resíduos coloquiais das zonas proibidas da cidade, bem como na apropriação transgressiva (...) dos clichês sentimentaloides, influenciados pelo linguajar do cinema, do rádio e das novelas de TV”, além de “explosões crítico-corrosivas (...) dos assassinatos praticados pela ditadura militar Argentina.”&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;sup&gt;6&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu Brasil planeteiro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O país do futebol produz também escritores. E os novos têm dado bons exemplos. Há uma Geração 90 consolidando presença no mercado, caso do ficcionista Nelson de Oliveira, que cunhou essa denominação e é prolífero: sete livros em sete anos. Segundo Luiz Ruffato, autor de &lt;em&gt;Eles eram muitos cavalos&lt;/em&gt;, e com certeza um dos melhores autores do país, hoje, Oliveira tem por essência “a procura da não-autoria, da não-originalidade, da não-literatura.” Acrescenta: “Nelson Oliveira é um dos raros escritores brasileiros contemporâneos a relativizar o fazer artístico, trazendo para o seu trabalho um dos pilares que mantém de pé os pressupostos da ficção.”&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;sup&gt;7&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt; Entre outros, Oliveira teve lançada recentemente pela Record a coletânea &lt;em&gt;Sólidos gozosos &amp;amp; solidões geométricas&lt;/em&gt;. Marcelo Rubens Paiva, por sua vez, encheu a bola do jovem romancista Santiago Nazarian, afirmando que o autor de &lt;em&gt;A morte sem nome&lt;/em&gt; (ed. Planeta) “escreve bem demais, sabe compor personagens e tem um estilo arriscado e fascinante.”&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;sup&gt;8&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt; Nazarian, que já fez roteiros para disque-sexo, foi &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt;, estudou piano e publicidade, defendeu-se de depressão fazendo traduções e horóscopo, hoje estuda finlandês. Autor de tese detetivesca sobre “suicida serial”, o autor encarna em si e na sua literatura aquilo que é e faz: o senso comum com seriedade, o livro anti-hedonista capaz de, ele o diz, “despertar reflexões, questionamentos”, a experiência literária e pessoal com &lt;em&gt;bungee jump&lt;/em&gt;, a intenção de produzir subtextos. Dois mineiros são merecedores de atenção especial: Adriana Versiani e Pedro Maciel, ambos objeto de reflexão crítica neste (e em outros) espaços virtuais e impressos, a exemplo de Germina e Cronópios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um lado de humor e minimalismo na atual literatura brasileira que ajuda a pensar grande o que vem de encontro a um público expansivo e não-dado à mirabolante – e nem sempre útil – produção teórica: as histórias mínimas, enfeixadas por exemplo no livro &lt;em&gt;Os cem menores contos brasileiros do século&lt;/em&gt; (Ateliê Editorial), reunidos pelo escritor e agitador pernambucano Marcelino Freire. São microtextos com até 50 letras, na esteira do guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003), autor do miniconto mais famoso do mundo: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá,” que mereceu paródia do noventista Joca Reiners, intitulada “O pesadelo de Houaiss”: “Quando acordou, o dicionário ainda estava lá.” E, por extensão, do autor deste artigo: “O bafo de Matusalém” – “quando acordou, o calendário ainda estava lá.” Freire preveniu que “na literatura, o negócio é sempre diminuir.” A coletânea é também um &lt;em&gt;locus&lt;/em&gt; da Geração 90, que tem Ruffato, André Sant´anna, Fernando Bonassi, Marcelo Mirisola, Marçal Aquino, Ronaldo Bressane, Joca Reiners Terron, Evando Affonso Ferreira, entre outros. A miniobra de Wilson Gorj é imprescindível como referência máxima deste viés de produção literária no Brasil, também publicado nas revistas Germina e Cronópios. Em franca ascensão de justo reconhecimento: Jussara Salazar e Eduardo Sabino. Por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia dos esquecidos bem lembrados passa, na atualidade, por Ricardo Aleixo, considerado pelo exigentíssimo Sebastião Nunes como “o mais brilhante, consolidado e polivalente talento que sobrevoa a leveza cultural de Minas.” Insere-se com sua ríspida &lt;em&gt;Máquina zero&lt;/em&gt; (ed. Scriptum), detonando o maldizer pós-moderno e pondo fim ao coitadismo literário reinante nas paróquias poéticas para lá de politicamente corretas. E também Edimilson de Almeida Pereira, co- autor de &lt;em&gt;A roda do mundo&lt;/em&gt; (ed. Segrac), na lista dos livros do vestibular da UFMG deste ano, e autor do fino e erudito &lt;em&gt;Zeosórioblues&lt;/em&gt;. Ricardo Lima é autor de &lt;em&gt;Cinza ensolarada&lt;/em&gt; (ed. Azougue), e também marca a lembrança da sociedade dos poetas vivos com seu “altíssimo teor emocional” sem pieguismo, num livro sintomaticamente “feito de escombros de experiências.” A produção do movimento Dezfaces, de BH, reunindo professores e autores com fina sintonia contemporânea, Marcelo Dolabela, e os poetas ultra esculhambatóricos do Barkaça também devem ser apreciados numa leitura despreconceituosa, lúdica, necessária. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para ratificar que os latino-americanos não fazem mesmo parte da “academia dos esquecidos” é oportuno lembrar também a publicação de &lt;em&gt;Musa paradisíaca&lt;/em&gt; (ed. Mirabilia), de Josely Vianna Baptista e o artista plástico Francisco Faria, reunindo em 688 páginas a produção da publicação cultural homônima editada entre 1995 e 2000 em jornais de Joinville e Curitiba. Ali se conjugam duas vertentes dialógicas: uma, que faz o registro da incidência hispânica no que se convencionou chamar de neobarroco, envolvendo os cubanos Lezama Lima, Severo Sarduy, José Kozer, mas também Vieira, Juana Inês de la Cruz, Cortázar e Caetano Veloso; a outra, com as dicções contemporâneas de Nelson Archer, Régis Bonvicino, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Horácio Costa, Júlio Castañon, Cláudia Roquette-Pinto, e,claro, as escritores suicidas reunidas em Dedo de Moça, por exemplo. Além, naturalmente, dos muitos outros autores não citados aqui mas que você, leitor(a) atento(a), pode acrescentar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Notas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Dimenstein, Gilberto. &lt;em&gt;Uma notável aula de humildade&lt;/em&gt;. Folha de S. Paulo: caderno “Cotidiano”,4/4/04, pág. C12.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Bosi, Alfredo. &lt;em&gt;Por um historicismo renovado– reflexo e reflexão na história literária&lt;/em&gt;, in “Teresa”, n. 1, 1° semestre, 2000, pág. 11.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Thomas, Gerald. &lt;em&gt;Emigrantes na colônia real&lt;/em&gt;. Folha de S. Paulo: caderno “Mais”, 30/5/04, pág. 14.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Deleuze Gilles. &lt;em&gt;Confissões de um pensador&lt;/em&gt;; por Alcino Leite Neto. Folha de S. Paulo: caderno “Mais”, 30/5/04, pág. 5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Peres, Marcos Flamínio. &lt;em&gt;Topografia literária da violência&lt;/em&gt;. Folha de S. Paulo: caderno “Mais”, 23/5/04, pp. 4-8.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Campos, Haroldo de. &lt;em&gt;Perlongher, o neobarroso transplatino&lt;/em&gt;. Folha de S. Paulo: caderno “Mais” , 1°/6/01, pp.19-21.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Ruffato, Luiz. &lt;em&gt;Nelson de Oliveira busca seu graal da não-literatura&lt;/em&gt;. Folha de S. Paulo: caderno “Ilustrada”, 29/5/04, pág. E3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. Paiva, Marcelo Rubens. &lt;em&gt;Nazarian intriga com sua "suicida&lt;/em&gt; &lt;em&gt;serial".&lt;/em&gt; Folha de S. Paulo: caderno “Ilustrada”, 29/5/04, pág. E3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:*marcioalmeidas@hotmail.com"&gt;*&lt;strong&gt;marcioalmeidas@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8794136929966226720?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8794136929966226720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8794136929966226720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/literatura-latina-pos-moderna-violencia.html' title='Literatura latina pós-moderna: violência, droga, &lt;i&gt;rock&lt;/i&gt; e cidades emblemáticas'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbNpW_HQfI/AAAAAAAABNw/NlvO6aEMU2Y/s72-c/marcio_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2661082619550787435</id><published>2010-11-07T13:56:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T13:56:54.432-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='PALAVRAS ENCALACRADAS - Márcia Barbieri'/><title type='text'>Sangria nos meus olhos mortos</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbAOZ-6riI/AAAAAAAABNs/OHw1JwY8508/s1600/marcia_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbAOZ-6riI/AAAAAAAABNs/OHw1JwY8508/s1600/marcia_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcia Barbieri*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;“O homem é um deus em ruínas”&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;Ralph Waldo Emerson&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Começo o árduo trabalho de ensacar os figos. Olho a árvore e vejo a mão desproporcional de Deus brotando e descansando sobre a terra arada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É outono e as folhas se desmancham sobre o chão caiado. A mulher de vértebras em andrajos murmura entre as frestas pretas de seus dentes fatigados: &lt;em&gt;Perante o amor todo ser se desnuda&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marimbondos rondam o quintal e suas asas negras assustam os olhos planetários da minha infância esquecida. Os pés descalços esmagam a terra num misto incoerente de inocência e maldade. Minúsculas formigas deslizam sobre o tronco cinza, se encontram, se beijam e se abandonam. A simplicidade me apavora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você sabia que as larvas entram no figo, comem-no por dentro e morrem sem poder escapar da própria armadilha? Bonito isso, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Existem tantos homens que são como essas larvas... Invadem nossas entranhas, alimentam-se de nossas vísceras e morrem dentro de nós, devorados pela mesma fúria que os impeliu a entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Aperto a polpa tenra.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No início o gosto não me agradava, mas acabei por apreciar o ritual de abrir a fruta e degustar seus desenhos. Me passava pela cabeça todas as teorias matemáticas tentando provar a inexistência do obtuso. O retorno provável-trágico da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Mordo a flor.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Um velho alto e magro, cuja pele insistia em acariciar o mistério, rezava todas as tardes pelos fetos não vingados. Eu dizia amém, esquecida das mortes fecundas do meu útero. Um sol vermelho sai e faz um escarcéu sob minha vagina de puta cansada. Minha carne despenca dia após dia dos ossos e almeja se esconder na solidão omissa de ancestrais porões brancos. Nostalgia da época em que fui criatura insignificante e era possível estrangular o tempo. Despejar toda areia sobre o ar. Enquanto homens e janelas verdes contemplavam passivos todo suicídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivo só. Durante as chuvas anoiteço as vistas e sonho com o espetáculo raro das touradas. O corpo da mulher nasceu deformado para o afeto e para a fratura exposta. É apenas uma caixa vazia de paixões frustradas. A autopiedade fez ninho nos meus olhos mortos. Ocos. O amor se extingue entre as podas drásticas e o descaso das madrugadas. Meu coração é um punho fechado. Abril? Não é tempo de figos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*marcia_barbieri@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;marcia_barbieri@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2661082619550787435?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2661082619550787435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2661082619550787435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/sangria-nos-meus-olhos-mortos.html' title='Sangria nos meus olhos mortos'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNbAOZ-6riI/AAAAAAAABNs/OHw1JwY8508/s72-c/marcia_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-6807133514617053871</id><published>2010-11-07T13:52:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T13:55:26.609-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='DA BOCA PRA FORA - Joaquim Moncks'/><title type='text'>Imagem e palavra</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNa9w5JZ6gI/AAAAAAAABNk/uXaeyF2m4Yw/s1600/joaquim.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNa9w5JZ6gI/AAAAAAAABNk/uXaeyF2m4Yw/s1600/joaquim.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Joaquim Moncks*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo que observo, tu estás ainda na casa dos vinte anos... E aonde foste buscar este gosto literário, rítmico-musical? É o que vivo a dizer: a cabeça dos poetas é similar ao periscópio de um submarino, sempre a ver o fundo e o longe das coisas... Também percebo que, nos poetas, a idade cronológica é diferente daquela que tem a sua cabeça... Os poetas olham os fatos dispostos no mundo pelo seu final, ou seja, com o olhar dos escolados, dos experientes de muito andar... Mesmo que o vate, nesta passagem, seja ainda muito jovem, o olhar é antigo... Surge daí que sempre propõe a ótica sobre a novidade: a face recém-nascida. Aliás, tem coerência o Senhor dos Mundos. Como chegar ao novo sem a antevisão do antigo? A figura do poeta chega com a perplexidade haurida não sei de onde, de que inesgotável fonte... Não há, neste plano, figura mais complexa do que aquele que percebe o mundo por máscaras e entrelinhas. E sem as desvelar, sem as desnudar, lança a verdade de sua observação pelos códigos de imagem e palavra. Tudo para que renasça o Novo na cabeça do receptor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do livro &lt;em&gt;O novelo dos dias&lt;/em&gt; (2010).&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*joaquimmoncks@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;joaquimmoncks@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-6807133514617053871?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6807133514617053871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6807133514617053871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/imagem-e-palavra.html' title='Imagem e palavra'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNa9w5JZ6gI/AAAAAAAABNk/uXaeyF2m4Yw/s72-c/joaquim.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-174158034633961347</id><published>2010-11-07T13:49:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T13:49:30.795-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>O amante da literatura</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNWLxmsOxqI/AAAAAAAABNg/uWUezw7HXsg/s1600/alberto_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNWLxmsOxqI/AAAAAAAABNg/uWUezw7HXsg/s1600/alberto_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alberto Pucheu*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde há muito, há uma separação entre os poetas e os amigos dos poemas. Entre os que fazem literatura e os amigos da literatura. Entre os que fazem literatura e os amantes da literatura. Ao longo da história, filósofos, teóricos, críticos, historiadores, tradutores e leitores de poemas ou da literatura de modo geral, entre outros, ocuparam o lugar daqueles últimos. No que diz respeito aos poetas e ficcionistas, muitos de seus textos, incluindo cartas, diários etc., oferecem indicações do voto que realizam para a obtenção da coisa desejada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marguerite Duras, por exemplo, mostrou que para escrever, para viver enclaustrado no livro e, a partir dessa ambiência, ter a ousadia de sair por aí e gritar e sussurrar e falar em nome de alguma coisa que seria a vida, ou, pelo menos, a vida do livro – a vida no livro –, é preciso ao escritor pagar um preço: sob o risco da loucura ou da morte, viver a fundo uma solidão não compartilhada que se impõe por si mesma e que o escritor a confirma, sair de si, entregar-se completamente ao livro, ser forçado a não poder compartilhar nada com mais ninguém, distanciando-se, em nome do livro desconhecido – sua razão de ser –, de tudo que poderia ser compartilhado e das pessoas que o poderiam rodear. Já Mário de Andrade, em nome de dar ao Brasil o que ele ainda não tinha, em nome de dar ao Brasil o ainda não vivido pelo país, em nome de dar uma nova alma ao Brasil, na língua – dita imbecil – que escrevia, com todas as ilusões gramaticais de que gostava, com toda a estilização do brasileiro vulgar, com todas as caricaturas modernistas que realizava, com todas as ingenuidades de pensamento que voluntariamente engendrava, com toda sobreposição da polêmica e do teórico sobre a arte, sabendo e querendo que toda sua obra, estraçalhada, fosse transitória e caduca, confessou ter sacrificado (e recebido, em contrapartida, uma pletora de felicidade) ninguém menos do que si mesmo e a durabilidade maior da eternidade de sua produção artística. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma carta de 1902 a Antoine Bibesco, à espera da possibilidade de escrita do que virá a ser a &lt;em&gt;Recherche&lt;/em&gt;, que permanecia então na pura latência de seu pensamento, Proust afirmou: &lt;em&gt;“Tudo isto que faço não é trabalho verdadeiro, mas apenas documentação, tradução etc. Isto basta para despertar minha sede de realizações, sem naturalmente me satisfazer em nada. Do momento em que desde este longo torpor pela primeira vez virei meu olhar para o interior, para o meu pensamento, sinto todo o nada de minha vida, cem personagens de romances, mil ideias me demandam lhes dar um corpo como as sombras que, na Odisseia, demandam a Ulisses lhes dar um pouco de sangue para beber de modo a trazê-las à vida e que o herói as afasta com sua espada”.&lt;/em&gt; Para realizar seu trabalho verdadeiro, para fazer com que, indo do despertar ao ápice, sua sede de realizações o satisfaça, para que, do nada de sua vida, algo de importância maior aconteça, para que o longo torpor se torne vigor repentino e sustentado, para viabilizar a demanda de vida de algumas entre centenas de suas personagens e algumas entre milhares de ideias exangues (afastando muitas outras com a espada de sua escrita e pensamento), o escritor sabe que precisa ofertar algo, que precisa sacrificar: um pouco de sangue. É tomando o sangue ofertado pelo escritor ou o sangue derramado dos vivos que, do reino das sombras, nasce o corpo da palavra poética, vive o mundo de toda a literatura. Comparando-se a um dos mais significativos personagens de todos os tempos, Proust pode estar igualmente dizendo que, por ofertar o sangue em nome da vida de seus personagens e ideias, o escritor só se realiza plenamente quando dá algo da vida (o sangue, a vida mesmo) a fim de se transformar na criação da obra na qual mergulha. Tornarem-se sanguíneas, o devir das personagens e ideias literárias; tornar-se livro vivo, o devir do escritor que imola o sangue à causa da literatura. Mas isso em nome de quê o sangue é derramado só se oferece, em contrapartida, se o sangue for dos melhores e se o que se pedir for, de fato, o que de mais importante houver na vida do suplicante, o que mais intensamente ele trouxer dentro de si e o em que precisa ser completamente introduzido ou estar inteiramente submerso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A passagem em que Ulisses sacrifica sangue dos vivos aos mortos para que eles falem é conhecida. Antes de se realizar no canto XI, ela começa a ser diretamente preparada no canto X. Em busca da Ítaca perdida, em busca, portanto, do que no momento lhe é mais imprescindível, arremessado com seus soldados de um lado a outro por alguns deuses, desesperançado, o herói vaga por anos em águas sem paradeiro conhecido. Finalmente, Circe lha dá uma indicação, a única possível para saber seu caminho de volta: antes de ir a Ítaca, é preciso que viaje rumo ao Hades para indagar a Tirésias, o cego adivinho “cuja alma os sentidos mantém ainda intactos”, a rota segura para a cidade natal. Se Ulisses não sabe como chegar ao Hades, o sopro de Bóreas e as informações da deusa o farão alcançar o local desejado. Chegando lá, é necessário que Ulisses cave um fosso com sua espada e libe aos mortos, primeiro com mel, depois, com vinho, em seguida, com água e, por fim, com farinha. É preciso, entretanto, mais. Diz-lhe a deusa: &lt;em&gt;“Férvidos votos promete às cabeças exangues dos mortos,/ de que hás de em Ítaca, em casa, uma vaca imolar-lhes estéril,/ a de melhor aparência, queimando preciosos objetos,/ e que a Tirésias, também, ofertar hás de um belo carneiro,/ negro, sem mancha, o que em vossos rebanhos a todos exceda./ Mas, depois que suplicado tiveres ao coro dos mortos,/ deves, então, um carneiro matar e uma ovelha bem negra,/ pondo-os virados para o Érebo; mas nesse instante teu rosto/ deves torcer para o curso do rio; verás, nesse passo,/ que muitas almas afluem, de seres da vida privados./ Os companheiros exorta, depois, e lhes manda que as reses,/ que se acham mortas no chão, pelo bronze cruel abatidas,/ queimem, depois de esfolá-las, e os votos aos deuses dirijam,/ Hades, o deus poderoso, e a terrível e horrenda Perséfone./ Tu, porém, saca de junto da coxa teu gládio cortante,/ senta-te e espera; não deixes que as pálidas sombras dos mortos/ no sangue toquem, sem teres, primeiro, a Tirésias falado./ Logo há de a sombra te vir do adivinho, o pastor de guerreiros,/ que há de o roteiro apontar-te e a extensão do caminho a fazeres/ para voltares à pátria, cursando o oceano piscoso”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o canto X termina com Circe amarrando no barco de Ulisses um carneiro e uma ovelha, que serão sacrificados na hora oportuna, o XI começa com o colocar primeiro das reses à bordo. Quando chegam ao local desejado, de novo, são as reses as primeiras a serem retiradas do barco, mostrando o privilégio dos animais sacrificados, que têm de ser os de melhor aparência, os mais belos, os que excedam a todos os outros. Ulisses realiza o que a deusa o havia mandado fazer. A espada, o fosso, as libações, os votos, o sacrifício das reses, seus esfolamentos, a queima dos animais. Com o sangue, inúmeras almas imediatamente afluem (inclusive a de Anticleia, mãe do herói, morta pela saudade do filho), obrigando Ulisses a sacar sua espada para não deixar nenhuma tocar o sangue antes de Tirésias. Apenas Elpenor se antecipa ao vidente cego, mas é compreensível, pois acabou de morrer no castelo de Circe e ainda não recebeu as honras fúnebres – por isso, ele é o único a falar sem beber o sangue derramado. Mesmo a alma da mãe é, a princípio – só a princípio –, enxotada, pois urge a fala de Tirésias. Haverá tempo depois para a mãe e para os heróis mortos. Com o cetro de ouro em suas mãos, o adivinho afirma a Ulisses: “Mas, para o lado do fosso retira-te e a espada recolhe,/ para que eu possa do sangue provar e dizer-te a verdade”. A quem for permitido provar do sangue, falará, palavras infalíveis, sem erros. Para que os mortos falem, para que a verdade dos vivos fale pelos mortos, para que a verdade dos mortos fale para os vivos, é preciso o sacrifício do sangue dos vivos. Morto, Tirésias se aviva com o sangue dos vivos para dar vida aos vivos. Ele toma o sangue e diz como será o retorno de Ulisses a Ítaca. Daí, o uso da passagem por Proust, que precisa ofertar “um pouco de sangue” para que seus cem personagens de romances e mil ideias, ganhando corpo, venham à vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os teóricos da literatura, que voto os teóricos da literatura realizam? Que sacrifício os críticos e historiadores da literatura precisam fazer para lidar com os livros? O que os amigos e os amantes dos poemas ou da literatura de modo geral ofertam para obter o que desejam? Quais são suas obrigações para receberem o que recebem? O que recebem os teóricos literários? No fim do filme &lt;em&gt;Fahrenheit 451&lt;/em&gt;, cujo roteiro de François Truffaut – que o dirige – e Jean-Louis Richard parte da novela homônima de Ray Bradbury, somos apresentados aos homens-livros. Eles escaparam da sociedade de extremo controle cujos bombeiros são aqueles que queimam os livros, considerados subversivos, contra a lei, perturbadores da ordem, inimigos da paz, causadores da infelicidade e de posturas antissociais... Entre esses amigos da literatura, entre esses amantes da literatura, entre esses homens-livros, alguns foram presos e escaparam, outros foram soltos depois de presos, outros fugiram antes mesmo de serem presos. O que vale é que muitos desses homens-livros se escondem em paz fora da cidade, nas montanhas, por entre os bosques situados rio acima, onde a lei urbana não os consegue alcançar. Há também os que se perdem pelas estradas, os abandonados em canteiros de estações de trem, vagabundos por fora, bibliotecas por dentro. Onde moram, não fazem nada de proibido; caso adentrassem de fato a cidade, poderiam não durar muito tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como amostra disso, há na cidade o caso de uma das personagens, cuja família fora presa numa manhã, mas que, surpreendentemente, estava em casa justo na hora em que os bombeiros chegaram à sua casa em busca dos livros, mostrando que, por algum motivo, não estava com seus parentes quando foram levados pela polícia. No andar de cima de sua casa, uma biblioteca secreta; não uma biblioteca qualquer: o experiente capitão do corpo de bombeiros diz que apenas uma vez em toda sua vida vira tantos livros em um mesmo lugar, e já faz muito tempo que isso aconteceu. Significativamente, essa personagem não tem nome. Seus modos de chamamento são atribuídos apenas pelos bombeiros: “essa mulher”, “essa velha senhora”, “ela”, “madame”. Sabendo de seus destinos afins, ela recebe os bombeiros citando as palavras de Hugh Latimer a Nicholas Ridley: "Seja homem, Mestre Ridley. Neste dia, pela graça de Deus, nos iluminaremos como uma vela que – acredito – nunca mais vai se apagar". Anônima, trazendo-o para si, ela se apresenta com as palavras de um outro. Latimer e Ridley foram dois bispos e mártires pioneiros da Reforma Inglesa que, no dia 16 de outubro de 1555, por terem sido considerados hereges ao estenderem as ideias de Lutero e Calvino, foram acorrentados à estaca em Oxford e, quando a lenha começou a queimar, o primeiro disse a frase mencionada ao companheiro ao seu lado na mesma situação em que ele. Repetindo a frase do mártir, anunciando querer morrer como viveu e dizendo que os livros estavam vivos e falavam para ela, a senhora se recusa a sair do amontoado pronto para ser queimado e, depois do querosene lançado pelos bombeiros sobre os livros pelo chão, ela mesma risca o fósforo e acende a fogueira na qual queimará. Se o risco da permanência na cidade é o da morte, os homens-livros, nos arredores, escapam ao martírio, mantendo-se vivos, tranquilos e falantes por muito mais tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens-livros são amigos e amantes dos livros, já disse. Mas o que significa ser amigo e amante dos livros? Ser amigo e amante dos livros significa ser um homem-livro. Seja homem ou mulher, velho ou criança, cada um dos homens-livros decora um livro escolhido e se transforma nele. Eles sabem o livro de cor e o recitam, o interpretam, para quem quiser ouvir. Mais do que isso: deles, dos homens-livros, desses intérpretes da literatura, é dito: “Eles se tornam os livros”, “Eles são livros”. Sendo amigo do livro, sendo amante do livro, interpretar um livro não é nada menos do que se tornar, desde dentro, o livro que se interpreta, transformar-se, enfim, desde dentro, em um homem-livro. Como esses intérpretes dos livros, decorando-os, se tornam o livro que, desde dentro, recitam ou interpretam de cor, carregando consigo “o segredo mais precioso do mundo” e “todo conhecimento humano”? Qual oferenda que, para isso, eles têm de pagar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O preço que esses homens-livros pagam para se tornarem livros é seu próprio nome, seu nome próprio. As doações que esses intérpretes têm de oferecer para, desde dentro, serem os livros que amam são seus nomes próprios. Só se interpreta, de fato, um livro, só se torna, realmente, um homem-livro, quando o nome próprio do intérprete é queimado no ato de interpretação que faz com que o nome do livro passe a designar o intérprete que com ele, enfim, se confunde. Assim, não é alguém (Cláudio ou Francisco, Caio ou Renato) que interpreta, por exemplo, a &lt;em&gt;República&lt;/em&gt;, de Platão: “Bem, eu sou a &lt;em&gt;República&lt;/em&gt; de Platão. Eu irei me recitar para você assim que você desejar”, diz um dos homens-livros. Não nos enganemos, entretanto: para que os amantes dos livros sejam, desde dentro, homens-livros, é preciso igualmente que os livros se tornem, desde dentro, o corpo e a voz dos intérpretes que assumiram seus nomes. Nele mesmo, o livro é o que, junto ao nome próprio, se queima, para que haja o intérprete literário, quer dizer, para que haja o crítico literário, quer dizer, para que haja o historiador literário, quer dizer, para que haja o teórico literário, quer dizer, para que haja o crítico literário, quer dizer, para que haja o tradutor literário, quer dizer, para que haja o leitor literário, quer dizer, para que haja o verdadeiro amigo e amante da literatura, para que haja os homens-livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Alberto Pucheu é poeta e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre vários livros, acaba de publicar &lt;em&gt;O amante da literatura&lt;/em&gt; &lt;a href="http://www.oficinaraquel.com/" target="_blank"&gt;(Ed. Oficina Raquel)&lt;/a&gt;, que contém o texto aqui publicado. Contato:&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="mailto:apucheu@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;apucheu@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-174158034633961347?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/174158034633961347'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/174158034633961347'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/o-amante-da-literatura.html' title='O amante da literatura'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNWLxmsOxqI/AAAAAAAABNg/uWUezw7HXsg/s72-c/alberto_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-1841334759306443600</id><published>2010-11-07T13:48:00.000-08:00</published><updated>2010-11-07T13:48:01.760-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A TELA E O CONTO - Fernando Portela'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SOLO INSÓLITO'/><title type='text'>Transição</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNNBitZvQOI/AAAAAAAABNc/MpUZoQU6tmA/s1600/portela_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNNBitZvQOI/AAAAAAAABNc/MpUZoQU6tmA/s1600/portela_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fernando Portela*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a vê-los hoje. No começo, apenas um, parado em frente ao portão da empresa, olhando os passantes, que são milhares, àquela hora da tarde. Não me assustei, nem me sobressaltei, pelo contrário: à visão dele, que vestia roupas lisas e claras, e no rosto imberbe transmitia doçura e paz, senti-me realizado. Ver, enxergar outras realidades: isso, sim, era o maior dos privilégios. Será que atingira, finalmente, a sonhada transição? Perdera a conta dos anos em que me lamentei por não conseguir atravessar os portais da mente, de ser obrigado a conviver apenas com a matéria óbvia. Estava cansado de vislumbrar outros mundos através de sonhos confusos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri, então, olhando-o de perfil: no rosto moreno havia traços orientais, como se ele fosse um mestiço de japonês e brasileiro. Não se parecia com uma pintura renascentista. Era apenas um homem/mulher que se encantara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque era assexuado. Sua face de rapaz-moça-mestiço-jovem lembrava-me adolescentes indefinidos, de cabelos curtos, que tantas vezes observara em vários lugares do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já sabia da existência deles, por intuição, porque sentia sua presença nos lugares mais estranhos. Cheguei até a ver um deles, certa vez, mas não na forma basicamente humana que, pelo jeito, costumam usar quando nos visitam. Aquele tomou o corpo de uma gata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando Beatriz morreu. Era a minha amiga mais íntima, desde os nove anos de idade, no curso primário. No primeiro dia de aula nos encontramos e conversamos durante todo o recreio. Como se fôssemos irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguimos nossas vidas, a família dela era rica, tudo era fácil, tudo acontecia para Beatriz. Casamos mais ou menos na mesma época, o marido da minha amiga era bonito e influente, mas apaixonado por todas as mulheres, além dela. Beatriz foi obrigada a conviver durante décadas com o problema. Teve um único filho; o marido morreu cedo, intoxicado de tanta farra. Quando o filho cresceu e, por sua vez, casou, Beatriz lhe passou toda a fortuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, empobreceu. Não lhe davam tratamento médico, nem mesmo alimentação suficiente. Eu, que a visitava de vez em quando, desconfiava até que a espancavam. Nos últimos anos, sua única companhia, seu único prazer era uma gata branca, sem raça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Beatriz morreu, cheia de manchas roxas pelo corpo, e eu, em prantos, cheguei ao velório com mais alguns amigos comuns, vi exatamente uma gata branca deitada numa cadeira próxima ao caixão. Percebi, espantado, que não era a gata de Beatriz, que nem mesmo se tratava de um animal real, mas a forma que um daqueles resolveu usar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gata olhou para mim e trocamos uma breve comunicação. Todos a viram e estranharam o fato: como uma gata, tão parecida com o bicho de estimação da falecida, que com certeza permanecera no apartamento, poderia entrar num velório e acomodar-se daquele jeito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Será’, pensei comigo, ‘que eles, os algozes, estão percebendo a sutileza dessa mensagem?’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho minhas dúvidas. Mas, de verdade, a gata foi o primeiro deles que vi. Agora vejo este outro, na porta da empresa. Não olhou para mim, estava muito preocupado com os pedestres, como se orasse por cada um deles, enfrentando essa loucura que é viver na Terra, sobretudo em uma grande cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha surpresa maior aconteceu no estacionamento ao lado, quando fui pegar o carro. Havia dois, um negro e um branco, tão iluminados como seu colega ali perto. Observavam, também, as pessoas a pagar, nos dois caixas, e os manobristas a correr de um lado para o outro, recolhendo os carros. O negro chegou a trocar um olhar comigo, e não foi preciso dizer nada – eles transmitem toda a beleza do seu próprio mundo, de que temos tanta necessidade, mas que permanece tão distante, sempre, por nossa culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho de casa, vi outros, atravessando as ruas, sempre com as roupas leves, cabelos longos ou curtos, todos de sexo indefinido, quase lânguidos, como eu sempre imaginei que fossem. Talvez se materializassem daquela forma para atender às minhas expectativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Meu Deus’, pensei comigo, ‘o que fiz de bom para merecer isto?’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi estranho o trajeto do trabalho para casa; quase não o senti, distraído com as lembranças daquelas visões. De repente, “acordei”, andando pela minha própria rua, em direção ao prédio. Já não havia humanos por ali, somente eles. Em grupos de dois, três, ou andando sozinhos, cruzando comigo na calçada, sentados diante dos edifícios, ou ainda olhando o movimento através das sacadas das janelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a chorar, de pura felicidade, acho que pela primeira vez na vida. Na entrada do prédio, no lugar do porteiro, encontrei uma mulher de rosto jovial, sorrindo para mim. Era a única que não fazia parte da multidão angelical que tomara completamente o bairro. Era Beatriz, quarenta anos mais jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quantas saudades, meu querido!”, ela me disse somente com o olhar, sem pronunciar uma palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi aí que eu entendi tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*fatportel@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;fatportel@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-1841334759306443600?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/1841334759306443600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/1841334759306443600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/11/transicao.html' title='Transição'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TNNBitZvQOI/AAAAAAAABNc/MpUZoQU6tmA/s72-c/portela_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-3465118753594071160</id><published>2010-10-09T21:31:00.000-07:00</published><updated>2010-10-10T08:09:22.742-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>A criação</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEwCklAxiI/AAAAAAAABJQ/Y7g4hIfrmnI/s1600/jovino.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEwCklAxiI/AAAAAAAABJQ/Y7g4hIfrmnI/s1600/jovino.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jovino Machado*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro dia da criação&lt;br /&gt;eu era o último da fila&lt;br /&gt;nasci de improviso&lt;br /&gt;deus estava em crise&lt;br /&gt;minha alma é um lago à tarde&lt;br /&gt;não sei chorar pra fora&lt;br /&gt;vejo as estrelas&lt;br /&gt;meu desalento dorme&lt;br /&gt;e se encontra com o desespero&lt;br /&gt;no primeiro lugar da fila&lt;br /&gt;no último dia da criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;strong&gt;Jovino Machado (Belo Horizonte/MG). Formado em Letras (UFMG). Atua como &lt;em&gt;restaurateur&lt;/em&gt;. Publicou 10 livros, entre eles &lt;em&gt;Trint´anos Proustianos&lt;/em&gt; (Mazza Edições, 1995), &lt;em&gt;Disco&lt;/em&gt; (Orobó Edições, 1998), &lt;em&gt;Samba&lt;/em&gt; (Orobó Edições, 1999), &lt;em&gt;Balacobaco&lt;/em&gt; (Orobó Edições, 2002) e &lt;em&gt;Fratura Exposta&lt;/em&gt; (Anomelivros, 2005).&amp;nbsp;Menção honrosa na revista literária da UFMG (1991) e terceiro prêmio de Poesia Falada de Campos dos Goytacazes (RJ, 2002). &lt;em&gt;E-mail:&lt;/em&gt; &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:jovinomachado@yahoo.com.br"&gt;&lt;strong&gt;jovinomachado@yahoo.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-3465118753594071160?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3465118753594071160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3465118753594071160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/criacao.html' title='A criação'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEwCklAxiI/AAAAAAAABJQ/Y7g4hIfrmnI/s72-c/jovino.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7258880352023221980</id><published>2010-10-09T21:29:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T22:13:39.622-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='NOVOS NOMES'/><title type='text'>O signo do perneta</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLErbT3zTDI/AAAAAAAABJI/CW7rtDqq0TI/s1600/julia.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLErbT3zTDI/AAAAAAAABJI/CW7rtDqq0TI/s1600/julia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Júlia Gaspar*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei às 5h30min da manhã como todos os dias. Resmunguei com o despertador e cochilei mais 10 minutos. Levantei num impulso, tomei um demorado banho, me perfumei e tomei um farto café da manhã. Fui até o ponto de ônibus, reclamando minhas unhas mal feitas. Deixei o primeiro passar, estava muito cheio. Peguei o segundo e sentei na janela como sempre faço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutava o meu "MP3", quando entra, pela porta da frente, um homem de apenas uma perna. Comovi-me, mudei de estação. Numa rapidez incalculável, ele distribuiu papéis, pedindo dinheiro. Não tive tempo de negar. Para minha surpresa, ele senta ao meu lado. Para a minha repulsão, encosta seu braço no meu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico nervosa. Penso em mudar de lugar, penso no primeiro ônibus que era o que eu deveria ter pegado. Fico quieta e guardo o meu "MP3", que reproduzia os versos: "Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho tanto pra contar, dizer que aprendi." Ele ajeita o curativo da sua "metade perna", levanta com agilidade, recolhe os papéis e desce do ônibus. Alívio... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego à faculdade. Minhas amigas comentam os efeitos da "escova progressiva", alguns dos amigos matam aula para fumar maconha na esquina, outros se realizam contando as proezas das "nights". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No intervalo, vou à biblioteca folhear os jornais. Só dá grã-fino. Quase me esqueço de olhar o horóscopo. Vejo a previsão para o meu signo, para o da Claudinha, o da Renatinha, e é claro... Não podia deixar de olhar o do Fabinho. Leio tudo o que queria que estivesse lá. Ao fechar o jornal penso: "Qual seria o signo daquele perneta?”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para a aula. Assunto de filósofos, gente que pensa muito e acaba ficando louca. Depois... Sociologia. Esse cara acha que saca tudo do mundo. Será que ele saberia o signo daquele perneta? Não resisti. Perguntei mesmo, fui até educada. Mas a turma toda riu. O professor me mandou sair de sala. Quanta censura... E eu aposto que sabe o signo do Hegel, do Comte e dessa galera toda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei muito contrariada. Tentei negociar. O cara achou que eu tivesse falando de signo linguístico, mensagem, paradigma, índice, ícone, símbolo... Eu disse: "Nããão! Eu só queria saber a sacanagem que a astrologia armou para um mendigo que conheci." O diretor me mandou sair da sala, porque ele tinha coisas sérias para resolver. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei na cantina e fui para casa, desta vez de &lt;em&gt;van&lt;/em&gt;. Chegando, fui logo tomar outro banho e almocei tomando coca-cola&lt;em&gt; light&lt;/em&gt;. Depois dormi um pouquinho. Com a boa consciência dos justos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com o meu pai ligando de Brasília. Ele trabalha lá, rodeado de gente importante. Do capital e do poder. Antes que ele fizesse as mesmas perguntas, indaguei sobre o signo do perneta. Algum daqueles engravatados de Brasília deveria saber! Mas antes que eu terminasse de falar, me interrompeu dizendo que eu não andaria mais de ônibus. Por que as pessoas ficam com raiva quando eu falo do perneta? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei a tevê e assisti a todas as novelas. Acompanhei o telejornal, acreditando sempre em tudo. Fui dormir entre lençóis cheirosos e pensei: "Que injusta e desigual é a conjunção dos astros".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Júlia Gaspar é jornalista&amp;nbsp;e poeta.&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;Contato:&lt;/strong&gt; &lt;a href="mailto:gaspar.julia@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;gaspar.julia@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7258880352023221980?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7258880352023221980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7258880352023221980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/o-signo-do-perneta.html' title='O signo do perneta'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLErbT3zTDI/AAAAAAAABJI/CW7rtDqq0TI/s72-c/julia.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-6011465487960770156</id><published>2010-10-09T21:27:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:27:29.450-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A VERDADE DA MENTIRA - Paulo Lima'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Não são mais crianças</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEmOY2YRMI/AAAAAAAABJE/Cg58DDmzfd4/s1600/paulolima_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEmOY2YRMI/AAAAAAAABJE/Cg58DDmzfd4/s1600/paulolima_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Paulo Lima*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã de sábado Ed foi almoçar com a família, um típico programinha classe média. O restaurante estava calmo. Havia por lá apenas um grupo de adolescentes, rapazes já na puberdade, com uma grande semelhança entre eles. Primos e irmãos, Ed pensou. Todos pareciam muito educados, falavam em voz baixa e se entendiam muito bem. Em outra mesa tinha um casal, mas não dava pra saber se eram casados ou namorados. Não conversavam entre si enquanto esperavam pela refeição – na verdade, mal se olhavam, embora não houvesse qualquer sinal de tédio ou hostilidade entre eles. Ed achou isso de mau agouro, talvez um sinal de que as coisas não estivessem indo bem com eles. Ed era muito sensível para essas coisas. Ele deu uma olhada em sua mulher. Ela estava brincando com a mão da filha, numa cena de cumplicidade típica entre as duas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos aguardavam seus pedidos. Uma enorme TV tela plana estava mostrando um filme com imagens do fundo do mar. Ed fixou-se por algum tempo naquilo. Depois a coisa passou a ficar monótona. Ele voltou a olhar para o casal, depois para o grupo de adolescentes e então pousou o olhar sobre o filho. Notou suas espinhas e seus dentes grandes e brancos, enquanto ele falava. Então se deteve num detalhe. A barbicha e o bigode incipiente, que tanto o divertiam e lhe lembravam que o filho estava se tornando um rapaz. A barbicha e o bigode não estavam lá! Haviam sido removidos - uma remoção meio canhestra, mal feita. Ed tomou um susto. "Cadê a barbicha?", perguntou. "Tirei", respondeu o filho, dando de ombros. "E quem tirou?", quis saber. "Eu mesmo", o filho respondeu com desinteresse. Foi como um choque para Ed. O filho vivera um ritual de passagem e ele não tinha tomado conhecimento. Por que não fora ele a orientar o filho? Sentiu-se humilhado, desnecessário. Foi como se, numa foto familiar, tivessem apagado sua imagem. É como se um vendaval tivesse invadido aquela sala e revirado o ambiente. O orgulho paterno de Ed havia sido ferido, como se tivesse sido atingido por um objeto cortante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele voltou a olhar para o rosto do filho. Pensando bem, até que ele não fora tão inábil, levando-se em conta que aquela podia ser a primeira vez em que ele fazia a barbicha e o bigode. Pensando bem, ele ficara melhor sem aqueles traços. É como se tivesse retornado à infância – e Ed notou em sua observação um desejo consciente de que ele ainda permanecesse por lá, assim não teria de vivenciar agora os tormentos da adolescência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso, Ed notou, era também um desejo – igualmente consciente – de não ter de quebrar a cabeça com problemas. Ele sabe que filhos trazem muitos problemas. E todos dizem – seus amigos com filhos mais velhos viviam dizendo isso – que as broncas com os filhos começam pra valer na adolescência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ed sentiu-se vulnerável. Como é que pode uma coisa dessas? A manhã parecia tão calma, suas obsessões estavam todas lá em algum lugar da semana, não ali com ele, naquele momento. E agora, de repente, ele estava imerso naquele dilema. Como é que se explica isso?! Lembrou-se da infância dos filhos. Se ele corresse os olhos por sua biblioteca, ainda os encontraria por lá, os livros que comprou quando os filhos nasceram. Primeiro veio o menino. Depois a menina. Um intervalo de três anos. Cada fase com suas dificuldades e suas alegrias. “Crianças pequenas, problemas pequenos”. “Crianças grandes, problemas grandes”. É um ditado alemão que um professor alemão lhe havia ensinado. Na época, ele nem sonhava que seria pai um dia. Mas as frases ficaram armazenadas em sua mente. Tinha boa memória. Ele achava que coisas como a paternidade são um destino natural de todos os homens, assim como a maternidade um caminho óbvio para as mulheres. Havia um determinismo nisso – tipo uma sentença biológica. Ele não entendia aqueles que faziam uma opção consciente por não ter filhos. Considerava essa espécie de gente por demais hedonista. A elas se aplicaria uma palavrinha: egoístas. Sim, isso é o que eram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje ele sabe que os pais padecem de uma&lt;em&gt; ilusão pedagógica&lt;/em&gt;. Procuram acompanhar todas as fases dos filhos – isso quando são responsáveis. E a esperança é que esse acompanhamento lhes dê um controle sobre a vida dos filhos, evitando que o pior aconteça. Intenções edificantes; sonhos grandiosos; futuros brilhantes; sucesso, sucesso, sucesso; saúde e força física; beleza. Nisso é que consiste a tal ilusão pedagógica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais sérios leem Winnicott e Piaget. Os ultrazelosos (obcecados) mergulham em Melanie Klein – e até em Freud. É parte da ilusão pedagógica. O universo da criança tem de ser compreendido nos seus mínimos detalhes. Na estante não devem faltar compêndios instruindo sobre a natureza de cada etapa de vida da criança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez Ed estava aproveitando um feriado na praia. Seu filho ainda um bebê, coisa de meses. A mulher ainda se recuperava do parto, as marcas da maternidade rondando seu corpo como uma sombra - a cintura larga, os seios fartos, a barriga protuberante. Um casal se aproximou para uma conversa. Eram os únicos hóspedes da pousada além de Ed, a mulher e o pequeno filho. O casal era experiente, filhos crescidos no mundo. O viés da conversa não poderia ser outra: filhos. Ed desanda a fazer citações, conhecimentos de algibeira sobre crianças e filhos que ele tinha lido nos livros. Mas aquele casal experiente estava em outro nível. Eles &lt;em&gt;sabiam&lt;/em&gt; por terem vivido, era o tipo de conhecimento que se aprende na pele, por meio dos erros e acertos. Eles não tinham mais a &lt;em&gt;ilusão pedagógica&lt;/em&gt;. Ed ouvia a música que vinha do quarto do casal. Um som romântico. Estavam saboreando uma pequena lua de mel, sua pequena ilha de prazer. Os filhos deviam estar no mundo. Os dois casais se encontravam nos horários das refeições ou ao cair da tarde, quando Ed e a mulher levavam o filho para pequenos passeios dentro da própria pousada. A mulher do casal era mais gentil, mais aberta. Ela espiava o bebê dentro do carrinho. Olhava e dizia um ou outro elogio, mas não ia além desse ponto. Ela já vivenciara sua cota. Um dia essa mulher disse a frase fatal, que até então Ed não tinha lido em nenhum livro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Criamos os filhos para nós, com zelo e carinho. Mas acontece que os filhos devem ser criados para o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi dessa maneira que ela falou. Assim, com tanta simplicidade, mas com o impacto de uma rocha que se move montanha abaixo. É como se ela estivesse retirando o filho de Ed do ninho em que estava para oferecê-lo a pássaros famintos. Uma mãe sem coração e distante, ele pensou. Uma &lt;em&gt;egoísta&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garçom acaba de servir os pratos. A fome que Ed sente o faz esquecer temporariamente o assunto da barbicha e do bigode, uma espécie de capítulo do livro inegostável &lt;em&gt;Pais&amp;amp;Filhos&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ed relembra. “Na minha adolescência fiz uma leitura devastadora. Li o livro &lt;em&gt;Pais e filhos&lt;/em&gt;, de Ivan Turgueniev. Para um filho rebelde e contestador como eu era, foi como alimentar um incêndio, acrescentando combustível às labaredas. Nesse romance, o russo Turgueniev criou um personagem que questionava as relações familiares, criticando o autoritarismo dos pais. Vivi &lt;em&gt;turguenievianamente&lt;/em&gt; durante muito tempo, pronto para atear fogo em qualquer pessoa que se valesse de sua autoridade para impor condições ou valores, e isso incluía pais e professores.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ed reflete: “Se meu filho fora independente para fazer sozinho sua primeira barba, o que não poderia fazer (ou estaria fazendo) sob seu livre-arbítrio, sem carecer do pai? Não era um adolescente rebelde (ainda não), não teria seu momento Turgueniev. Mas como garantir? A voz de homem já estava praticamente lá. Era só erguê-la para cantar de galo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O almoço estava apenas passável. O peixe estava puxado a sal. A esperança de Ed agora era a sobremesa. O filho, com o apetite típico dos 15 anos, limpou o prato. Limpinho da silva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os novos teóricos das relações familiares incorporaram uma expressão, que utilizam a três por quatro. &lt;em&gt;Família disfuncional&lt;/em&gt;. É o apelido da família moderna, que se contrapõe à família à moda antiga. Esta era a &lt;em&gt;família nuclear&lt;/em&gt;. (Ou é, não se sabe bem).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família disfuncional representa o desregramento das relações familiares. Filhos que moram apenas com o pai ou a mãe. Filhos que moram sozinhos. Casais de mesmo sexo pleiteando o direito à paternidade/maternidade. Etc. Um vale-tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família nuclear é como o nome diz, &lt;em&gt;per si&lt;/em&gt;. É (ou era) algo coeso, um arranjo clássico: pais e filhos vivendo sob o mesmo teto em harmonia, todos fazendo parte de um mesmo núcleo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ed divaga: “Na galeria de pais tremendos - verdadeiros horrores históricos - figura um sujeito chamado Hermann Kafka. Quem se deu ao trabalho de ler &lt;em&gt;Carta ao pai&lt;/em&gt; (como eu) detestou o velho Hermann, o pai de Franz Kafka. Eu não teria admitido um pai tão autoritário. Não entendo por que Kafka foi tão subserviente e tolerante. Ler a &lt;em&gt;Carta&lt;/em&gt; foi algo muito edificante. Fiz a mim mesmo um juramento solene de que jamais seria como Hermann, caso um dia viesse a pôr um filho no mundo. Mas nunca se sabe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os pais, os filhos são eternas crianças. Mas quando se dão conta, eles cresceram. Os primeiros sinais são os que vêm do corpo – como o primeiro barbear. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela foi uma manhã e tanto. Ed pagou a conta e deixaram o restaurante. Ele tinha certeza de que algo havia mudado, uma transformação silenciosa tinha ocorrido. Sabia que não estava longe o dia em que sua mulher iria avisar (não sem uma pontinha de ciúme mal disfarçado): &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nosso filho está de mudança, quer saber o nome dela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*paulo_val@uol.com.br"&gt;&lt;strong&gt;paulo_val@uol.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-6011465487960770156?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6011465487960770156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/6011465487960770156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/nao-sao-mais-criancas.html' title='Não são mais crianças'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEmOY2YRMI/AAAAAAAABJE/Cg58DDmzfd4/s72-c/paulolima_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2816229972835973011</id><published>2010-10-09T21:25:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T22:03:29.221-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Duas margens</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEVT9028qI/AAAAAAAABJA/0K5Xv6QiMEk/s1600/rinaldo.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEVT9028qI/AAAAAAAABJA/0K5Xv6QiMEk/s1600/rinaldo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rinaldo de Fernandes*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Por um incerto lado,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;o do Nascente – ensejo do Acaso,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;tudo é mesmo perigoso&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;as fendas dos cajus&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;o amor cantando.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Mas por um outro certo lado,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;o do Poente – beira do Ocaso:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;o amor caduco e velho&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;desacriançando.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Uma margem cobrando&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;a outra margem.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(Edônio Alves Nascimento)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que ocorre comigo, mas a verdade é que aciono a seta indicando que vou entrar à direita e deixo o carro seguir devagar pela pista vazia, sem casas, restaurantes, muros, eu indo e escutando o som baixo do rádio, eu andando ainda mais lenta e cruzando a estrada de ferro onde à margem direita estende-se o areal, o branco areal que segue até os cajueiros, um tanto distantes, com suas folhas secas girando ao vento no espaço entre os postes altos da outra pista, uma delas presa ao fio da corrente elétrica. O céu está amarelado, o sol já vai descendo sobre os matos ao fundo da pista e também sobre o teto de um armazém abandonado, e eu aqui, eu não devo, algo me conduzindo para a beira do rio onde alguns turistas vêm ver o pôr-do-sol, uma Van afinal aparecendo na curva e me ultrapassando, eu agora indo muito lenta e olhando o areal e os cajueiros e desconfiando que tudo é muito perigoso, essa cidade está cheia de canalhas, de estupradores. E não dou por mim quando chego ao mais pobre dos bares, de tábuas fendidas, o garçom cochilando numa cadeira à entrada, o bar de onde vejo sozinha, diante de um copo de cerveja (mas por que faço isso, se não posso beber?), o poente tomando toda a outra margem do rio, encardindo as águas e as lanchas com suas cordas presas às estacas fincadas na lama. E é desta mesa do canto, ao lado da grade rompida, escura, sem enxergar muito, encandeada pelo sol, é daqui, mandando nomes, maldizendo tudo o que o peste do Marcos fez com a minha vida, é daqui, apertando nos olhos o lenço de papel, bebendo a cerveja e mordendo sem sabor um fiapo de batata frita (mas por que estou comendo essa porcaria?), que vejo no meio da escada de madeira (um pequeno quarto ali no primeiro andar?), os olhos parados nas águas do rio, a mulher com um menino no colo. Olho em volta e noto que o garçom voltou para a sua cadeira à porta do bar, seu sono agora dando cabeçadas, vejo o balcão vazio, as poucas garrafas nas prateleiras, a réstia vermelha de sol caindo no tampo da mesa perto da caixa-d’água emborcada e ferindo meus olhos. O cachorro vira o rabo para o crepúsculo, vai dobrar o corpo embaixo da cadeira do garçom e fica dando patadas contra os mosquitos. O garçom vez por outra passa a mão no bigode, sopra forte, parecendo que a qualquer momento vai desabar no chão com nódoas e pontas de cigarro. Percebo que a mulher chora, passando a mão na cabeça do menino. Vejo que ela avança e, logo em seguida, recua, para não aparecer no campo de visão do garçom. Vai e vem na escada, indecisa. Esconde-se mesmo do garçom ou tem receio de que o cachorro a descubra ali e vá fazer festa na sua saia, roçar o rabo com rasgões em suas pernas? A saia é velha, remendada. De repente ela sobe, entra no quarto e, em poucos minutos, usando agora um vestido, sai com o menino todo enrolado numa toalha. O garçom pende a cabeça para o lado, o cachorro lambe-lhe o sapato. Ela afinal desce a escada e, atenta no garçom e no cachorro, rápida, abraçada ao menino, cruza o bar sem ser vista por eles, escorrega por trás das plantas num pequeno cercado, anda com cuidado, olhando sempre pros lados, sobre as palhas secas de um coqueiro e, à frente, toma a pista por onde eu vim. Mas o que ela vai fazer com aquela criança? Está fugindo de quem? Mordo a batata e mando o Marcos pra puta que pariu – a água do rio treme. Volto a olhar o pôr-do-sol, já agora uma ponta do céu escurecendo, lá pros lados do centro da cidade, os prédios sob uma nuvem arroxeada. Era então aquela maldita, meu Deus?! E como eu pude ficar o tempo todo bobeando? Era uísque pro Fernando, era presente pra canalha... Ah, os bons e melhores amigos. Sim, tratar bem. Vai, mosca morta! Age! E a puta dando em cima do meu marido. Sei lá se ela, se ele, canalha, aquilo é um malicioso, esperto, deve ter sido primeiro ele. Cretinos! A Sílvia vai aniversariar, não comprou a blusa dela? Ah, se te apanho, peste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lanço um último olhar para a escada, me levanto da cadeira – o cachorro se assusta, empina as orelhas. Pago a cerveja e a batata frita, sigo para o carro, ando lenta ao lado do cercado com as plantas, a areia enroscando-se em minhas sandálias. Quem descobriu a data do aniversário dela foi ele, muita folia, bebidas, bolo que encomendei (a velinha que pendeu na hora do parabéns retirada e enfiada com zelo pelo cretino!). Que delícia ela deve ter achado. E não foi ali que ela usava a bendita da saia branca? Não foi ali que percebi que ele, quando voltava da pia, reparava nas coxas da donzela? Sou uma imbecil. E bota imbecil nisso! Fazendo sala pros dois, o corno do Fernando pedindo tudo do bom e do melhor, ela retardando a ida, pode ser mais um pouquinho, bem? Hein?! Aqui, com os meninos, só mais um pouquinho? Meninos... Meninos? Eu menina. Eu. E também o triste do Fernando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piso com ódio na ponta da palha seca do coqueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento ouvir uma música, a cerveja me deixou um pouco tonta, não, Marcos, você não pode fazer assim comigo, ai, meu pai, mas que coisa! O que aconteceu? E não viajamos juntos no último verão, você disse que queria ir pro Rio ou então conhecer a Europa, fomos pra Europa, dei um jeito, financiei a maior parte, tudo muito bom na Espanha, o jogo do Real Madrid contra o Barcelona (no quarto do hotel você falou “que dia inesquecível”), como podia desconfiar de alguma coisa? Eu te dei carinho, cuidei bem de mim e de nossa filha, há um ano tenho em minhas costas a maior parte das despesas... Ah, meu pai, o que foi isso? Ah, Marcos, o que você quer? Enxugo as lágrimas na manga da blusa, ligo o carro. Na outra margem do rio, resta apenas uma ponta laranja do sol. Sigo devagar pela pista, paro adiante, depois de andar alguns minutos, baixo a cabeça no volante, as lágrimas pulam no banco, sobre as minhas pernas, ai, meu pai, mas por que isso? E a Juliana, Marcos, você não disse que ama demais a nossa filha? Dou pancadas no volante, eu preciso, e fecho os vidros, eu preciso gritar, não posso prender isso, ai, meu Deus!, ai, Marcos!, ai, que ódio! Você não podia fazer essa coisa comigo, pelo amor de Deus, não podia! Você não podia ter me deixado, ah, cretino, logo por aquela podre! Passo a mão na barriga, tiro a cabeça do volante. Encaro a pista: um vulto surge lá na frente, saindo do mato. Olho, atentamente, e descubro quem é: a mulher, ainda com o menino no colo. Ligo o carro novamente, parto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vê que me aproximo, que vou parando o carro no acostamento, a mulher, desconfiada, caminha na direção do areal. Desço do carro, digo que ela espere um pouco. Ela só para à frente, debaixo de um dos cajueiros. Resolvo ir até onde ela está, retiro as sandálias, vou andando pela parte mais limpa da areia. Quando vou chegando, a mulher ainda tenta se esconder atrás de uma moita, mas falo para ela ter calma, ela fica quieta. Digo para ela se aproximar, ela vem, os olhos no chão, encosta-se no tronco do cajueiro, sempre abraçada ao menino, que permanece enrolado. A areia aqui é bem alva, sinto-a fresca sob meus pés. Pergunto por que ela veio, ela fica calada, olhando para o teto do armazém do outro lado da pista. Insisto, quero saber por que ela fugiu. Ela continua calada, o dedão do pé, fora da chinela, desencavando uma folha seca enfiada na areia. Mas o que houve? – pergunto. Ela aperta ainda mais o menino e lágrimas começam a rolar no seu rosto. Em seguida, levanta os olhos para o galho baixo do cajueiro, me evita. O que está acontecendo? – pergunto de novo, me encostando de vez nela. Ela vai retirando a toalha, deixando aparecer o rosto do menino. Mas ele está muito doente! – eu digo, roçando a ponta dos dedos no queixo da criança. A mulher soluça, esfrega o nariz nas costas da mão. Volta a ficar compenetrada, arredia. Ajeita a posição do menino no colo. O ombrinho dele se mexe. As pestanas se abrem um pouco, talvez curioso por minha presença aqui. O que é que ele sente? – falo e afasto um pouco a toalha, o corpo frágil da criança surgindo sob o resto de claridade. Um pássaro se agasalha nas folhas do cajueiro. Toco de novo no rosto do menino. Ele tem uma expressão aberta, contente. Agora ficou alegre, o danado, acho que está gostando de mim – digo, tentando descontrair um pouco. Ela cobre o peito da criança com a toalha. Respira forte, lança um olhar para os fundos do areal, e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ele está morto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então me adianto, tomo o menino nos braços e noto que ele não tem movimentos. Meu pai, que coisa! Observo a mulher, o seu semblante. Este menino está mesmo morto? – tenho dúvida. Está – ela confirma. Em seguida, a mulher puxa a toalha e, virando-se, afastando com os pés uns garranchos, estira-a no chão. Vem, pega o menino e o põe com muito cuidado sobre a toalha. Ajoelha-se, alisa a cabeça da criança, e recomeça o choro. Mas por que você fugiu de casa? – quero detalhes. Ela fica silenciosa, passa a mão na perna do menino. Sim, me diga, o que foi mesmo que aconteceu? – agacho-me diante dela, o menino, os olhos ainda semi-abertos, deitado entre nós duas. Ela olha para um poste da pista, a lâmpada começando a acender. Me diga, minha senhora, o que lhe fizeram? – me irrito um pouco. Ela fecha a toalha sobre o corpo do menino, tira um cisco pregado no vestido, volta a soluçar. Ai, Marcos, você tinha necessidade de fazer isso comigo? Tinha necessidade de eu me deparar com uma situação dessas? Eu aqui, já quase escurecendo, no mato, diante de uma mãe com um filho morto, não, Marcos, você não devia ter feito isso comigo! A mulher afinal começa a falar. Ela diz que o marido, o garçom lá do bar, sempre foi uma pessoa muito boa para ela – foi, minha filha, sempre me deu tudo o que eu precisava. Nunca faltou nada em nossa casa. Ficamos cinco anos sem ter filho, até que veio este menino. Ele é maluco por essa criança, você nem imagina! Mas aí arrumou uma bandida e passou a ir toda noite pra casa dela. Ah, mas quando eu soube, desabei, meus pés fugiram de mim! Você não sabe como a partir daí minha vida virou um inferno. Ela é mais nova do que eu, é quase uma menina. Aí ele passou a chegar de madrugada, o bar fechado a noite toda, começou a faltar comida em casa, eu com medo de ladrão e sozinha com essa criança, ah, mas não gosto nem de lembrar! O menino foi ficando fraco, doentinho, você não imagina, moça, o que é a pessoa no desespero sair no escuro atrás do marido, andar por essas pistas mal iluminadas, isso aqui é cheio de gente ruim! Então uma noite eu peitei ele, disse que ia dar uma surra na infeliz. Ele, meio tomado, veio pra cima de mim, me deu um soco, disse que se eu tocasse o dedo nela ia me matar. Ele é muito violento, moça! Eu nunca pensava que ele fosse capaz de me bater. Mas me bateu muito, não pude fazer nada, ele ficou aí me ameaçando. Você imagina ele agora saber que essa criança tá morta? Ah, não quero nem tá perto, Deus me livre! Vai berrar que eu sou mesmo desajeitada, que deixou o menino comigo e o menino morreu. Aí não vai me perdoar, tenho quase certeza, ele me mata. E por que estava entrando no mato, escapando de mim? – pergunto. Não sei, pensei que a moça queria me levar de volta, mas não adianta, nunca mais quero ver aquele patife – ela responde, retocando o cabelo do menino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Van passa na pista, o motorista olhando em volta, curioso por ver meu carro no acostamento. O menino ainda entre nós duas, pergunto – ele sentia mesmo o quê, não deu para saber? Um outro pássaro chega, também se abriga nas folhas. Veja, ele pode falar o que falar, aquele ordinário, mas eu nunca descuidei dessa criança – ela diz, com ar de revolta. Bate na toalha, espantando um mosquito que parou no rosto do menino, agora ainda mais branco. E o que você vai fazer agora? – fico curiosa. Vou enterrar ele aqui – ela diz, olhando para as estacas adiante, sobras de uma cerca arruinada. Gira o corpo e, os movimentos firmes, começa a cavar com as mãos a cova. A respiração forte, enfia os dedos na areia, puxa-a com energia. Sinto pena da mulher fazendo o serviço sozinha. Dobro-me e, os joelhos fincados na terra, meto as mãos e começo a cavar também. Nossas mãos se chocam, retiramos folhas deterioradas, umedecidas. Após alguns minutos, paro e observo, aproveitando o restinho de claridade, as minhas unhas encardidas. Eu merecia isso, peste?! Em certo momento, meio tonta, vou me sentar numa pedra. Ela, os braços ágeis, suados. Em pouco tempo, o buraco raso, de meio metro, está pronto. Ela segue, apanha duas estacas à frente e, os olhos entre as moitas em volta, cata na areia um pedaço de arame. Vem, prende as estacas, improvisa uma cruz. Viro o rosto para um enorme caju no galho para não vê-la, aos prantos, pôr o menino na cova. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após enterrar a criança, ela diz que está precisando ir – vai para a casa de uma irmã no interior. Pergunta se posso deixá-la na rodoviária. Digo que não há problema. Seguimos para o carro, evitando as moitas e os garranchos, ela sempre voltando a vista para a sepultura debaixo do cajueiro. Depois que acelero o carro, ela fica silenciosa no banco ao meu lado. Vez por outra, virando o rosto para os matos já escuros da margem, limpa a lágrima na mão. Após andarmos uns dez minutos, de cruzarmos ruas e avenidas iluminadas (um último trecho vermelho do céu lá pras bandas do aeroporto), ela pergunta se tenho filhos. Digo que tenho uma filha. E seu marido, ele é bom pra você? – ela quer saber. Como? – eu tusso. Seu marido já bateu em você? – ela pergunta, tirando terra da unha. Ah, sim, nunca, ele é muito bom pra mim – respondo, desviando de uma moto. E nunca quis ter um menino? – ela esfrega os dedos. Eu estou grávida de um – digo e paro no sinal. Começo a chorar, a mão na barriga. As pessoas passando na faixa me observam. Ô Marcos! Ah, pilantra! Tiro um lenço da caixa no porta-luvas, limpo o rosto. A mulher me olha, põe a mão no meu braço. Seguimos e, ao lado da rodoviária, encosto o carro. Você foi muito boa comigo – ela diz. Dou-lhe um lenço, ela também limpa os olhos, ajeita o cabelo, o vestido triste, sujo. Depois que ela desce do carro, e quando vai colocando a cabeça na janela para me agradecer, pergunto – você esqueceu de me dizer, o menino morreu de quê? Ela fecha o rosto e, já sem nenhum sinal de dor na voz, diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu matei ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viro-me, acomodando o braço no outro banco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você matou o menino como? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se afasta um pouco, olha para o ônibus que acabou de girar na direção da plataforma e, baixando a cabeça, sopra para quase eu não ouvir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Enterrei vivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;strong&gt;Rinaldo de Fernandes é contista, romancista e antologista. Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura com o romance &lt;em&gt;Rita no pomar&lt;/em&gt;. Entre as antologias de contos que organizou, destaque para &lt;em&gt;Contos cruéis&lt;/em&gt; (Geração Editorial, 2006) e &lt;em&gt;Capitu mandou flores&lt;/em&gt; (Geração Editorial, 2008). Está saindo, pela 7Letras, o seu mais novo livro: &lt;em&gt;O professor de piano e outros contos&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;E-mail&lt;/em&gt;: &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:rinaldofernandes@uol.com.br"&gt;rinaldofernandes@uol.com.br&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2816229972835973011?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2816229972835973011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2816229972835973011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/duas-margens.html' title='Duas margens'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLEVT9028qI/AAAAAAAABJA/0K5Xv6QiMEk/s72-c/rinaldo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7921816732112125946</id><published>2010-10-09T21:24:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:24:46.508-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='DA BOCA PRA FORA - Joaquim Moncks'/><title type='text'>O eu à flor da memória</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDiwrXHKuI/AAAAAAAABI8/ejq4UOljMf8/s1600/joaquim.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDiwrXHKuI/AAAAAAAABI8/ejq4UOljMf8/s1600/joaquim.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Joaquim Moncks*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;“... Hoje corre-te um rio dos olhos&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;e dos olhos arrancas limos e morcegos. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;e que há certezas, firmes e belas, &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;que nem os olhos vesgos &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;podem negar. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Hoje é o dia de amanhã.”&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(&lt;em&gt;Poema para iludir a vida, &lt;/em&gt;Fernando Namora&lt;em&gt;)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Deixa um pouco de ti em minha imensa solidão, deixa palavras ao ouvido e corpo colado. Ando triste e preocupado com o andejar dos dias. Não encontro motivos para continuar andando sem rumo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os caminhos da primavera me contam de flores, mas eu só vejo tristezas e injustiças à minha volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta quadra dos sessenta (maturidade?), pensei num mundo melhor equilibrado, mais criativo, porém o que observo e transcrevo, não anima a perspectivas mais promissoras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que tanto aprecio a alegria, me contento com as tristezas da enfermidade grassando nos afetos e o ambiente que me acolhe é um palco de sofrimentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que Deus existe, que consola e acode, mas está tão longe de mim, que sou um reiterado pecador. Acho que estou doente, porque ele estaria dentro de mim como um pássaro e eu o sentiria voejar nas artérias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, mais uma vez te peço: tinge a minha vida de belezas e me dá um beijo com paixão. Cada vez mais percebo que a vida se resume à modorra do passar do tempo. Vale pouco o estar no mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O afeto tem várias nomenclaturas e muitos estágios para a condição humana, na aflição dos dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Amor tem variados rostos. E o que se leva para o dia seguinte é o calor das palavras e do corpo. Nem o silêncio é mudo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À ardência fogosa segue-se um estado de crise, de mudança de valores e hábitos. Haverá algo tão efêmero e, ao mesmo tempo tão duradouro quanto o desejo de amar? O mastigar dos afetos, no limiar dos corpos, é saudade ensaiada ou o retorno ao útero? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa-me nadar na tua placenta... Talvez seja este o elemento instintivo de todo o vivente: boiar, tal uma cortiça, à flor da memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou eu sou eu mesmo dentro Dele numa permanente fagocitose? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;– Do livro &lt;em&gt;O novelo dos dias&lt;/em&gt;, 2010. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Publicado também no &lt;/strong&gt;&lt;a href="http://recantodasletras.uol.com.br/pensamentos/2511273" target="_blank"&gt;Recanto das Letras&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:*joaquimmoncks@gmail.com"&gt;*&lt;strong&gt;joaquimmoncks@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7921816732112125946?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7921816732112125946'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7921816732112125946'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/o-eu-flor-da-memoria.html' title='O eu à flor da memória'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDiwrXHKuI/AAAAAAAABI8/ejq4UOljMf8/s72-c/joaquim.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-7760382367877029537</id><published>2010-10-09T21:22:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:22:50.422-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A TELA E O CONTO - Fernando Portela'/><title type='text'>A confissão</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDcAqhjNKI/AAAAAAAABI4/WpFV5LJcesw/s1600/portela_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDcAqhjNKI/AAAAAAAABI4/WpFV5LJcesw/s1600/portela_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fernando Portela*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim da vida, vou ser obrigado a confessar que devo todo o meu sucesso, prêmios internacionais e outras homenagens ao ditador Porfirio Luz. E, se o meu país realmente me considera um dos seus símbolos, possui, por consequência, uma certa dívida para com “O Sanguinário”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de dizer isso e ouço, agora, esse “uuuuuu” surdo da plateia. Pensei que seria assim mesmo, que vocês se chocassem e que até imaginassem este meu ato como um delírio próprio da decrepitude. Mas tenho testemunhas do que vou lhes dizer e, se for o caso, eu as recrutarei. Acho que possuo alguma credibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nenhum momento, senhores, demonstrarei simpatia política pelo ditador. Pelo contrário. A memória dos “mortos queridos da resistência” pautou minha vida de ativista e formou meu caráter. Não esquecerei, jamais, também, os anos de exílio a que fui submetido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade sempre faz bem aos anciãos e realmente não posso conviver, neste meu fim de vida, com a culpa do meu encontro secreto com o “Papá Morte”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia publicado, com dinheiro emprestado do meu padrinho, o meu primeiro livro de poemas, um livro modesto, fino, que eu mesmo distribuí pela universidade, vendendo-o a um dólar e meio. Um dos poemas, não exatamente o mais fraco deles, mas um dos mais discretos, chamava-se “Porfirio no Espaço”. Quando o escrevi, tinha em mente apenas um personagem de ficção, alguém que por acaso se chamava “Porfirio”. Não pensei, jamais, no “Monstro Engalanado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era poesia, pós-lírica, ingênua e quase juvenil, aquele texto em que Porfirio, o personagem, vagava por entre galáxias, como um Pequeno Príncipe sul-americano, só que em busca de uma saudade que deixara de sentir. Vejam vocês que coisa boba, um produto do sentimentalismo antiquado do jovem romântico que eu era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses após ter lançado a obra, ou seja, ter vendido o primeiro exemplar no diretório central dos estudantes, justamente a Maria Almeja, minha querida professora de Idiomas, um oficial à paisana bateu lá em casa. Era um homem cordial que só se assemelhava a um dos cães do ditador por causa do corte de cabelo à escovinha. Nesse tempo de terror, qualquer estranho que batesse à nossa porta, ainda mais um homem bem vestido e bem alimentado, não podia ser boa coisa. Minha mãe tremeu quando ele pronunciou meu nome, apesar de ele tê-lo dito com respeito, sem qualquer traço de agressividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O rapaz deve voltar dentro de meia hora”, disse minha mãe. “Foi comprar pão e leite. É meu filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem perguntou se poderia aguardar um pouco, minha mãe lhe ofereceu a cadeira de balanço do terraço e perguntou se aceitaria um copo de água, que ele recusou discretamente. Anos depois, esse homem, que se chamava Afonso Corados, viria a ser o todo-poderoso ministro do Interior, acusado de corrupção e exilado em Miami. Morreu há uns três anos, com mais de noventa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei e vi Corados me esperando, senti-me dentro de uma masmorra, talvez pendurado numa das famosas máquinas de tortura. Minha mãe leu meus pensamentos e começou a chorar. O homem ficou constrangido. E foi direto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se a senhora pensa que seu filho está preso, acalme-se. Eu vim até aqui convidá-lo a conhecer algumas pessoas no palácio, em função do seu último livro de poemas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe agradeceu apoiando-se no braço de Corados, que ainda lhe disse “Não se preocupe”. E só aí ele se apresentou a mim, pegou o leite e o pão das minhas mãos e levou-os até a mesa da sala, sem que o tivéssemos convidado a entrar. Depois, enlaçou-me pelos ombros. Era um homem imenso, de quase dois metros de altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu rapaz, você terá a honra de conhecer o nosso presidente”, ele disse. “Talvez o nosso presidente seja o seu maior fã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, senhor, eu tenho vinte e dois anos e escrevi apenas um livro na minha vida...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, ‘Pássaros sem Paisagem’: é o livro de cabeceira do nosso presidente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí eu me lembrei de “Porfirio no Espaço”, imaginando que o poema tivesse acendido o ódio do “Sanguinário”. Mas, se fosse verdade, por que ele mandaria um assessor importante me convidar a visitá-lo? O pânico não fazia sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedi licença para trocar de roupa, pus meu único terno e lá fui, junto com Corados, a pé mesmo, pois nossa casa ficava a uns três quarteirões do palácio e os assessores ainda andavam pela rua sem escolta. Depois é que a guerrilha começou a matá-los em qualquer lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ditador me recebeu pessoalmente à porta imensa do palácio. Era diferente da imagem dos jornais, talvez porque as fotos fossem em preto e branco e mal definidas. O que parecia cor morena nas fotos, por exemplo, era um bronzeado intenso, de quem passa as manhãs na praia. Nas fotos, ele jamais sorria, e ali, pessoalmente, ostentava uma dentadura alvacenta, de dentes pequeninos, que me pareceu artificial. Ninguém, naquele idade, e ele já teria uns setenta anos, possuiria dentes assim tão bem tratados. Havia, junto a ele, outros assessores, uns quatro, rapazes muito jovens, mais até do que eu, e lembrei-me de que a oposição costumava falar da predileção do “Papá Morte” por meninos. Foi uma outra preocupação que tive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu poeta!”, o general abriu os braços para me abraçar. Tinha a minha altura, mas estava muito além do peso. O abraço foi apertado e íntimo, e eu retribuí do jeito que pude. Senti um cheiro forte e agradável de raízes, ele não economizava perfumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venha, venha”, ele me puxou pelo braço, fez um gesto com a cabeça para que todos se afastassem e foi me levando pelo amplo saguão, de pé direito de oito metros, ou mais, onde se destacava um lustre art noveau com milhares de lamparinas acesas. Muito bonito. Havia ali, perdidas no meio do imenso espaço, duas poltronas e uma mesinha; foi para lá que me levou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu querido filho”, me disse, olhando-me diretamente nos olhos, “todos os dias eu choro mais de uma vez por causa de ‘Porfirio no Espaço’. Tenho certeza de que você não o fez para mim, mas o poema evoca a minha própria infância, que passei fora do nosso país, como você sabe, e os voos de Porfirio, que você descreve com tanta maestria e sensibilidade, são, ou melhor, foram os meus próprios voos na juventude”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um momento, procurei recordar o poema, imaginando que ele se prestasse às fantasias de um jovem homossexual, mas o meu Porfirio era apenas um garoto sonhador, com o sexo no lugar certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não vai me dizer nada? Nem uma palavra?”, o general sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou muito surpreso”, lhe respondi com sinceridade, “jamais pude imaginar que um trabalho meu pudesse causar este efeito...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Os caminhos da arte são mágicos, meu rapaz. Acho que você merece uma editora de peso, uma boa distribuição e até versão para outras línguas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui replicar, mas ele delicadamente pôs a mão na minha boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nã, nã... Nada diga, meu rapaz. Sei que você se preocupa com seu futuro, em parecer um poeta oficial, protegido do ‘Papá Morte’... Eu sei quem sou e o que represento para o nosso país. Sei o que os estudantes pensam de mim. O que você pensa de mim. Não se preocupe. Venha, quero lhe mostrar uma coisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O general pegou-me pelo braço, novamente, e me levou a um longo corredor, de portas cerradas a cada lado, até que encontramos a maior de todas as portas, feita em carvalho trabalhado. Entramos. Era um pequeno teatro de uns cem lugares que, pelo jeito, também servia de sala de projeção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique aqui, rapaz. Eu vou para o palco.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez tenham sido os minutos mais longos da minha vida. Eu, no escuro, sentado num teatro vazio à espera do “Sanguinário”. Mas as luzes se acenderam e lá estava ele, de jeans e camiseta, pronto para a performance. E começou a declamar “Porfírio no Espaço”, com talento próximo da genialidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou confessar a vocês: eu aplaudi. Não para bajulá-lo ou coisa parecida. Aplaudi pela sua sensibilidade e, por que não dizer, competência dramática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de me despedir, disse-lhe, com a gentileza que me foi possível, que fazia parte da oposição não exatamente ao seu governo, mas ao regime autoritário que representava. Que não concordava com as mortes de revolucionários e o gigantesco aparelho de repressão de que fomos vítimas por tantos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não seria um jovem de vinte anos se não pensasse assim”, me disse. “Fico feliz que tenha dito isso, eu ando cercado de mentiras agradáveis, de falsidades e ganâncias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijou-me na testa ao se despedir de mim. Foi assim, de repente; eu não esperava aquele gesto. “Desculpe-me, não pude evitá-lo”, ele se desculpou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo depois fui descoberto pela editora Lapax, que imaginava de oposição ao governo, pela obra destemida que, aparentemente, tentava publicar. Ganhei muitos prêmios, sempre ligado à oposição, fui traduzido para oito línguas antes de completar vinte e sete anos, e todos os críticos me idolatraram naquela época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais vi o “Papá Morte”. Sabem, até hoje não consigo responder a mim mesmo qual a extensão da sua influência sobre minha carreira. Eu precisava dizer tudo isso um dia, publicamente, e me livrar de alguns pesadelos pessoais que sempre me perseguiram. Agradeço muito a atenção de vocês. E fiquem à vontade para vaiar-me ou jogar ovos podres sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:*fatportel@gmail.com"&gt;*&lt;strong&gt;fatportel@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-7760382367877029537?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7760382367877029537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/7760382367877029537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/confissao.html' title='A confissão'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDcAqhjNKI/AAAAAAAABI4/WpFV5LJcesw/s72-c/portela_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8708600034120666253</id><published>2010-10-09T21:21:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:21:27.852-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A PRÁTICA NA TEORIA - Márcio Almeida'/><title type='text'>Uma leitura de Conto dos dias</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDO1izLZMI/AAAAAAAABIg/73o7kGuZWSA/s1600/marcio_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDO1izLZMI/AAAAAAAABIg/73o7kGuZWSA/s1600/marcio_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcio Almeida*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concentrado como uma pílula, o opúsculo &lt;em&gt;Conto dos dias&lt;/em&gt;, lançado recentemente por Adriana Versiani, traz em si a dificuldade, hoje, de agrupar sob rótulos genéricos as tendências da narrativa curta produzida no País.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livreto, no entanto, tange convergências para a identificação de uma literatura biológica, subjetiva, monológica, emocional sob rígido controle, feminina, urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma experiência intimista como elemento do saber. “Uma escrita”, diria Heloísa Buarque de Holanda, “que não quer ser literatura”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fragmentária, em tom introspectivamente confessional, a micronarrativa de Versiani insere-se no “índice da impossibilidade da confissão total” praticado, por exemplo, por Ana Cristina César; da impossibilidade das relações humanas, da cidade como ameaça, mesmo olhada do alto da janela, a provocar desejos de um salto no espaço, como, aliás, ocorreu com a poeta de &lt;em&gt;Inéditos e dispersos&lt;/em&gt; e de outros livros, em 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Conto dos dias&lt;/em&gt; tem três dimensões estruturais de leitura: a primeira, alusiva à literatura como referência de si mesma, agora sob produção de uma nanonarrativa de que são autores Marçal Aquino e Mauro Pinheiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Universo da palavra (...) essência da palavra (...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;oco da palavra (...) com quantas palavras se&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;desvenda um enigma?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda, caracterizada por uma linguagem física e orgânica, incomum, originária, por exemplo, na linhagem de uma Clarice Lispector. Nela, com palavras de Lúcia Helena, “caberia à literatura ir além do seu próprio corpo, embora a partir dele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não flui não toca células impermeáveis abrigam&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mitocôndrias e seu ciclo. Não flui não troca esgo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;tam-se as possibilidades de produção de energia.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Inércia. Não flui não troca enzimas engolem enzi –&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mas que engolem enzimas que engolem enzimas...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira, marca a presença periclitante da paisagem e do cenário urbano: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No centro dessa praça onde tudo reverbera:&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;pássaro, rosa, chuva, verbo. Morro, topo do&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;mundo, coração disparado na linha de tiro(...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;no coração do mundo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tríade linguístico-temática põe em choque e xeque a condição humana, a situação anódina, a recepção de um texto em seu contexto agônico. Como se a autora assumisse Ferreira Gullar: “uma parte de mim é só vertigem, outra parte linguagem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A consciência visceral de estar escrevendo, vindo (de novo) do fundo de um abismo para cima, após a vivenciação real e em tempo idem de um conflito de vida/sobrevivência agora veladamente explícito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que originou essa situação-problema no conto diário de um abril fatídico (ou quase?) “Medo da morte e da violência, constatação da solidão inevitável, da impossibilidade da família, do consolo impossível de ser encontrado”, como Beatriz Resende elenca entre as especificidades da narrativa curta na produção brasileira contemporânea?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Uma saída de vida”, como arrestou Ana Cristina César com a própria vida? Impactos de emoções em suspenso(e) é que não faltam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sobressalto. Sensação que desliza pela cintura&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;e ganha as plantas dos pés. (...) Com o coração&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;na boca digo sim. (...) Cérebro, não me abando&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ne nessa nuvem (...) Vi um bebê de meio palmo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;que respirava...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Conto dos dias&lt;/em&gt; tem essa profundidade de quem busca cantar “para o furacão dormir”; da sublimação do “realce de uma coisa que o entender da gente por si só não alcança”; “uma luz enorme que devora” emoções cansadas, eivadas de fastio e previsíveis, e uma certeza felizmente muito bem vinda para leitores exigentes – a revelação de Versiani: “permaneço escrevendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;This van der Lee tem razão: “o menos é mais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mais amostras de &lt;em&gt;Conto dos dias&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;18 de abril de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8:00 h&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;universo da palavra massa escura antimatéria: corrente que arrasta esse mistério&lt;br /&gt;essência da palavra cristal turvo, luz que dilacera toda luz: treva&lt;br /&gt;oco da palavra, abismo que o abismo ronda. grandes dentes, margem que devora &lt;br /&gt;barriga do mundo músculo teso vaso sagrado que te abriga&lt;br /&gt;essência, procura, palavra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDP2TPjM4I/AAAAAAAABIk/fhVWPHiiweo/s1600/adriana_2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDP2TPjM4I/AAAAAAAABIk/fhVWPHiiweo/s1600/adriana_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8:10 h&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No parque, o jardineiro adolescente cuida do viveiro de mudas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O que vocês fazem com elas, quando elas crescem?&lt;br /&gt;-Elas não crescem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O viveiro de mudas é a Terra do Nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDQmfQO3gI/AAAAAAAABIw/b9a_6bhJ7AQ/s1600/adriana_3.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDQmfQO3gI/AAAAAAAABIw/b9a_6bhJ7AQ/s1600/adriana_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23 de abril de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7:20 h &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presa em um cubículo e uma situação aterradora lá fora.&lt;br /&gt;Uma amiga me salva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ás vezes o inconsciente me apavora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16:58 h&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tigre, dizem.&lt;br /&gt;Percebo um milhão de feras dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes o inconsciente me apavora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18:08 h&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mapa do céu, dragão solto na lua&lt;br /&gt;Uma grande batalha se insinua&lt;br /&gt;Valei-me São Jorge, guerreiro da fé!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, o inconsciente me apavora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDRfOt4bqI/AAAAAAAABI0/vERo1dpwYsk/s1600/adriana_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDRfOt4bqI/AAAAAAAABI0/vERo1dpwYsk/s1600/adriana_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18:34 h&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantos escuros cercas de espinhos ondas gigantes&lt;br /&gt;Nado de costas para ver o céu e beber a chuva e sentir o vento&lt;br /&gt;Músculos tesos empurram a água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inconsciente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma luz enorme que devora.&lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:*marcioalmeidas@hotmail.com"&gt;*&lt;strong&gt;marcioalmeidas@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8708600034120666253?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8708600034120666253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8708600034120666253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/uma-leitura-de-conto-dos-dias.html' title='Uma leitura de &lt;i&gt;Conto dos dias&lt;/i&gt;'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDO1izLZMI/AAAAAAAABIg/73o7kGuZWSA/s72-c/marcio_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-8689807603891826279</id><published>2010-10-09T21:20:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:20:14.845-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ROENDO A PÁGINA - Cristiano Silva Rato'/><title type='text'>Durante um instante, longo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDCwhQWvqI/AAAAAAAABIc/OGTC1jm8xSc/s1600/cristiano.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDCwhQWvqI/AAAAAAAABIc/OGTC1jm8xSc/s1600/cristiano.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cristiano Silva Rato*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;Para Catharina Rocha&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pairei meus lábios próximos a seu ouvido,&lt;br /&gt;a brisa ensandecida sussurrou, &lt;br /&gt;Amo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pausa. Há flores enlaçando fios, &lt;br /&gt;o movimento enquadrado, em segundo plano,&lt;br /&gt;senti um arrepio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio forte o cheiro, seu &lt;br /&gt;torso, sempre procurando,&lt;br /&gt;através do tato, olfato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante um instante, longo,&lt;br /&gt;a brisa ensandecida sussurrou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:*cristianorato@caoseeletras.com"&gt;&lt;strong&gt;*cristianorato@caoseeletras.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-8689807603891826279?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8689807603891826279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/8689807603891826279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/durante-um-instante-longo.html' title='Durante um instante, longo'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TLDCwhQWvqI/AAAAAAAABIc/OGTC1jm8xSc/s72-c/cristiano.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-3097651279134980323</id><published>2010-10-09T21:19:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:19:11.197-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='PALAVRAS ENCALACRADAS - Márcia Barbieri'/><title type='text'>Os quatro cavaleiros</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TK4iLMhPybI/AAAAAAAABIY/rclEyFFljIA/s1600/marcia_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TK4iLMhPybI/AAAAAAAABIY/rclEyFFljIA/s1600/marcia_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Márcia Barbieri*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;"Dez minutos atrás, foi como uma premunição. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Dois moleques caminharam em minha direção. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Não vou correr, eu sei do que se trata. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Se é isso que eles querem. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Então vem, me mata". &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(&lt;em&gt;Tô ouvindo alguém me chamar,&lt;/em&gt; Mano Brow)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;157. Mal o dia amanhecera e eu enxerguei o primeiro cavaleiro. Primeiro me assustei — os homens maus costumam se assustar por quase nada. Imaginei que fosse um daqueles delírios provocados pela raiva. Nessas horas gafanhotos saíam da minha boca. Não, não era. Vinha vestido de branco, trazia um chapéu de feltro na cabeça e um 38 na cintura. Sua cara tinha a fúria dos assassinos que já sentaram à minha mesa, já compartilharam do meu ódio, já vomitaram do meu pão. A guerra começara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pôsteres de mulheres peladas se misturavam ao cheiro de mijo, café e carne crua. As paredes testemunhavam promessas de vingança. Camisetas e cuecas sujas esbarravam nos meus pensamentos: as grades, os cavalos, o tiro, a faca e o resto da merda toda que me colocou aqui. Poluem a minha mente meus inimigos de escola, os sempre foda, os sempre bons e eu sempre no fundo do poço remendando rancores velhos e recentes com linha imprestável. &lt;em&gt;"Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. / E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia está claro, ofuscante, e os ponteiros do relógio riem sarcásticos da minha cara de idiota. Embora aqui seja tudo tão imundo, eu sei que lá fora o sol queima o câncer de algum suicida. Os cavalos brancos me perseguem. Agora os párias brigam por restos, lá fora eu podia colher, do pé, frutas de mil reais, aqui eu espero a luta parar e recolho as migalhas. Não ligo pra eles, não os encaro, é arriscado demais. 157. Se não fossem os números já teria saído. O julgamento já teria acabado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol se põe, adivinho pelo barulho dos ratos, eles preparam-se para sair das tocas. Esfreguei os olhos com os punhos fechados. Inútil, ele insistiu em aparecer, não pude fazer nada. Corpos suados e fedorentos aglomeravam-se ao meu redor. Era o segundo cavaleiro. Galopava coberto de sangue e vinha em minha direção. Trazia na mão esquerda um canivete. Alguns homens são fracos e corruptíveis. Meu corpo tremeu, não era medo do corte, era preguiça da luta, era nojo da lama do vale dos mortos. 157. O inferno batia à minha porta. Cabala, mau presságio. É preciso saber ler os sinais. O rosto era anguloso, disforme. Tentei segurá-lo, abocanhei o seu braço musculoso, entretanto ele era forte demais. Caí, o canivete entrou entre minhas costelas, encostou-se em um dos meus rins. Apaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite chegou, estava com a boca seca e amarga, era preciso beber, mastigar, rasgar um pedaço de uma coisa qualquer. Passavam um algodão molhado na minha boca. Queria socá-los, não podia, estava amarrado. Estava com fome e uma sonda enorme invadia meu corpo. Foi nessa hora, por volta das 11 da noite que eu avistei o terceiro cavaleiro. Ele vestia um terno negro e trazia dois soros, um em cada mão. Minha fome aumentava. Ele soltava gargalhadas. Ele parecia pesar meus pecados e contabilizá-los. 157. Esse é o número da minha desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A madrugada estava no fim e ainda não tinha dormido. Meu corpo queimava como brasa. Litros de suor e remorso atravessavam minha pele. O corte fedia, estava coberto por um líquido amarelo-esverdeado, uma espécie de decomposição precoce. Entrei em estado de delírio. Foi então que toquei meu dedo no quarto cavaleiro. Ele virou-se e pude ver seu rosto desfigurado. Era chegada à hora. 157. Esse foi o número do meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;a href="mailto:marcia_barbieri@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;marcia_barbieri@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-3097651279134980323?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3097651279134980323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3097651279134980323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/os-quatro-cavaleiros.html' title='Os quatro cavaleiros'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TK4iLMhPybI/AAAAAAAABIY/rclEyFFljIA/s72-c/marcia_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4449666799532685264</id><published>2010-10-09T21:17:00.000-07:00</published><updated>2010-10-09T21:17:35.027-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='QUASE SEM MISTÉRIO - Alessandro Faleiro Marques'/><title type='text'>Ouvi o canto dos antigos</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TK3Wqu9XIII/AAAAAAAABIU/yb87W5nW7Fo/s1600/alessandro_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TK3Wqu9XIII/AAAAAAAABIU/yb87W5nW7Fo/s1600/alessandro_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alessandro Faleiro Marques*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para protesto de meus amigos, que ficaram semiprivados de minha audiência nas filosóficas e vitais microassembleias etílicas de sexta-feira à noite, deixei-me ser enfeitiçado pelo canto da sereia linguística. Meus ouvidos encheram-se de palavras sonoras como declinação, acusativo, particípio futuro, gerundivo e muitas outras. E, impelido pela genética de minhas células curiosas, já estou de pé quase todo sábado, bem cedo. Com ou sem gosto de cabo de guarda-chuva na boca, coloco minha maletinha debaixo do braço e vou para o curso de latim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estou quase no fim, e isso me deixa um pouco mais atrevido para opinar sobre a tal língua-mãe. A primeira coisa é questionar a simplória ideia de o idioma de Virgílio ter dado origem ao português. Não é bem assim. Entre outros “empréstimos”, os romanos pegaram muito da gramática dos gregos, cuja brilhante cultura nem a poeira das sandálias dos centuriões conseguiu ofuscar. A vítima desse clichê parece ter se esquecido da vasta contribuição indígena, árabe e anglo-saxônica, por exemplo, ao nosso léxico. Seja como for, admito: a cada aula, fico mais impressionado com a nossa herança do Lácio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de loucura para os de fora, considero esse estudo um bom programa. Passo um bom tempo tentando descobrir e reordenar vocábulos metamorfoseados conforme sua função na frase. Posso garantir, é muito melhor do que palavra cruzada. Cérebro funcionando, dizem, ajuda a combater doenças como o mal de Alzheimer, por isso o latim é, no mínimo, um remédio anticaduquice. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os termos latinos são uma mescla de exótico e sagrado, selvagem e belo. Enquanto as palavras se deixam amansar para nosso idioma, sinto uma entorpecente sensação de crescimento, de respeito, de um refinado “sei-que-nada-sei”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro encanto foi apreciar a Vulgata, a tradução do texto bíblico para o latim conduzida por São Jerônimo. Até onde eu vi, o método é um exemplo para os escritores de hoje. O santo procurou divulgar, de modo muito claro, uma mensagem profunda. Tudo sem firulas, sem eruditismos. Para ele, quanto mais gente conhecesse a boa-nova, melhor. Também me impressionei com a sabedoria das fábulas de Fedro, uma legítima coletânea de “causos” atualizáveis no meu dia a dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O idioma em si é um espetáculo à parte. Em poucas palavras, aquele povo dava o recado. O latim pede raciocínio, paciência e uma mesa enorme, para que se abram livros e livros para consulta simultânea, uma forma de fugir das traquinagens dos vários falsos cognatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esse estudo, caiu, pelo menos para mim, mais um mito. O fato de estudar latim não faz ninguém entender o português, até porque nós, falantes nativos, já o sabemos bem. Ao contrário, conhecer um pouco da nossa gramática me ajudou muito a encarar as aulas da manhã de sábado. Os professores também me surpreenderam. São de bem com a vida, jovens e transmitem segurança. Bem diferente de alguns ranzinzas e adoradores do antigo decoreba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha decepção foi ver o descaso que as editoras brasileiras têm com o idioma de Ovídio. Uma delas, entre as menos acomodadas, simplesmente fez uma cópia de um dicionário da década de 1920. Em caminho inverso a outros países, como os da Europa, há pouca coisa nova por aqui. Por isso, vida longa aos sebos! Outra chatice foi ter de justificar para alguns o motivo de meu estudo. Ora, pois sou das letras e fui escolhido por elas! E o papo de língua morta? Vejo o latim, junto com outros sistemas antigos, sobreviver em nossas palavras e no cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje existe uma estrutura bem montada para não aprendermos com os mais velhos. A principal lição do curso, contudo, é o retorno ao antigo costume de ouvir o outro, mesmo que este tenha vivido dezenas de séculos atrás. Que a sereia continue a cantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* &lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:faleimar@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;faleimar@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4449666799532685264?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4449666799532685264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4449666799532685264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/10/ouvi-o-canto-dos-antigos.html' title='Ouvi o canto dos antigos'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TK3Wqu9XIII/AAAAAAAABIU/yb87W5nW7Fo/s72-c/alessandro_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-3725420696332915599</id><published>2010-09-04T13:29:00.000-07:00</published><updated>2010-09-04T13:29:53.517-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ARLEQUINAL - Eduardo Sigrist'/><title type='text'>Rubi</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIKSOqg0W0I/AAAAAAAABFY/c0JnZpbLRbw/s1600/sigrist.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIKSOqg0W0I/AAAAAAAABFY/c0JnZpbLRbw/s320/sigrist.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sigrist*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cadeira preferida de meu pai estava tombada e silenciosa. No quarto escancarado, nem sinal do velho. O cigarro proibido pelo médico ainda soltava uma envergonhada fumaça. O par de sandálias enrugadas aguardava o par de pés enrugados. Um copo de leite fervido esfriava na mesinha, junto com os óculos. No chão, toda a roupa jogada. Tudo por ali indicava uma ausência desmedida, uma ausência apressada. Será que ela veio buscá-lo, pensei, já quase acreditando na história que ele não parava de contar nos últimos tempos. Mas e o rádio, e Ray Charles, e &lt;em&gt;Ruby&lt;/em&gt;, onde estão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que ele ouviu Ruby... Quantos anos, já? Eu o levava a uma consulta ao cardiologista, falávamos das chuvas, ou da falta das chuvas. Devia ser da falta, porque ele usava seu cachecol azul tricotado por minha já falecida mãe, então provavelmente era inverno. Mas ele sempre usava aquele cachecol para “guardar a memória da melhor mulher do mundo”, então podia ser verão, e o assunto seriam as chuvas. O fato é que falávamos da chuva, de seu excesso ou de sua falta, ou da falta de assunto, quando meu pai ouviu, pelo rádio do carro, a voz cega de Ray Charles:&lt;em&gt; They say, Ruby you’re like a dream...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parou de falar, parou de se preocupar com os exames, me mandou ficar quieto. Imaginei que conhecesse a música, que ela lhe trouxesse recordações, porque fechou os olhos e até balançou a cabeça devagar, seguindo o ritmo. Um sorriso apareceu em seu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Conhece Ray Charles, pai? ‒ perguntei, assim que a música acabou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Quem? Não, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Eu pensei que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Essa é a melhor música do mundo! Por que eu nunca tinha ouvido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ É&lt;em&gt; Ruby&lt;/em&gt;, do Ray Charles. Ela fala sobre...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Fica quieto. E eu não sei do que ela fala, oras? É a história de um casal de apaixonados que se saem pelo mundo para encontrar um lugar onde possam se amar sem serem incomodados por essa gente sem amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não questionei. Ele não sabia inglês ou qualquer outra língua, por isso é claro que não entendera a letra. Deixei meu pai pensar que eu acreditara na história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ O nome da mulher é Rubi. É como eu chamava a sua mãe. Nos primeiros dias de nosso namoro... Ei, para onde está me levando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Ora, pai, para o médico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Tá louco? Vira ali, na 11 de Junho tem uma loja de cd. Eu preciso desse cd. Depois a gente vai para aquele carniceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi ali que começou sua paixão por Ray Charles. Ou melhor, por&lt;em&gt; Ruby&lt;/em&gt;, pois era a única faixa que ele ouvia do cd que lhe comprei. Ele dizia que as outras músicas eram assim, assim, e que só aquela lhe trazia de volta o perfume de minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certa forma, aquela música o acalmou. Meu pai passou a se alimentar melhor, a dormir bem, e até voltou a se barbear, o que não fazia desde a morte de minha mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas a sanidade mental parecia ter sido um pouco abalada. A cada dia ele inventava uma letra diferente para a música, e jurava que a nova era verdadeira. Ele se trancava no quarto, ligava o cd e repetia &lt;em&gt;Ruby&lt;/em&gt; centenas de vezes. Então saía de lá dizendo que minha mãe estava em Casablanca esperando por ele; depois dizia que ela estava em Paris, no Rio, na igreja em que se casaram, no café do centro da cidade, na rodoviária, na lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia propus matriculá-lo em uma escola de inglês, para que ele pudesse entender a letra real da música. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Pra quê? O importante é a melodia. O que o cantor fala é só recheio. A melodia já me conta tudo que eu preciso saber. E se o cantor falar um palavrão ou disser asneiras? Estragou a música. Não quero, não quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com tantas histórias na cabeça, sua vida seguia sem contratempos e a saúde melhorara muito. Em todo caso, meu apartamento era perto da praia em que ele morava; então, se houvesse qualquer problema, em minutos eu estaria lá. E todos os dias eu passava por ali, para ouvir suas histórias e comer robalo, “o melhor peixe do mundo”, que ele mesmo pescava e preparava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos tempos, no entanto, a história mudou. Ou melhor, a história da música, a letra inventada ou sonhada por meu pai, não mudou, passou a se repetir sempre. Não mais Paris, não mais Casablanca, não mais viagens românticas. &lt;em&gt;Ruby&lt;/em&gt; só dizia uma coisa: minha mãe vinha buscá-lo, estava com saudade de quando eles nadavam juntos, nus, e queria levar meu pai para nadar lá no fundo do mar, onde esse mundo sem amor não podia importuná-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, na tarde em que encontrei o quarto abandonado, só consegui pensar nessa história e corri para o mar. Eu não acreditava em nada daquilo, mas me preocupava com o que meu pai pensava. Para ele, era tudo verdade, ele me dizia que sua hora de reencontrar minha mãe estava chegando. Fiquei arrependido por não ter-lhe dado ouvido, por não ter pensado em interná-lo ou levá-lo para minha casa. Agora não tinha mais jeito. Talvez se eu corresse poderia ainda salvá-lo da avidez do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol já estava baixo, mas me ofuscava e me impedia de enxergar com nitidez. Entrei com roupa e tudo na água. Gritei de frio e desespero. Só as ondas respondiam: &lt;em&gt;I hear your voice and I must come to you&lt;/em&gt;.&lt;em&gt; I have no choice, so what else can I do&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei nadar mais para o fundo, mas o terno me agarrava e me prendia. Chorei. Então notei que algo como uma tripa azul boiava mais adiante: o cachecol, que sumia agora em direção ao horizonte. Não tentei pegá-lo, não conseguiria, pois sabia que as mãos de minha mãe e de meu pai o puxavam lá para o poente e nenhuma força seria capaz de impedi-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta à praia, sentei na areia para olhar pela última vez o cachecol. Não enxergava quase nada; aos poucos o crepúsculo tomava conta de meus olhos e de minha mente. E só conseguia pensar em Ray Charles, na música, nas histórias de meu pai. Por quê? Como podia uma canção transtornar uma pessoa? &lt;em&gt;Ruby&lt;/em&gt; era realmente uma bela canção, como poderia ter trazido consequências tão trágicas? O que se passara na cabeça de meu pai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Está doido de nadar com roupa, meu filho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o lado e vi um corpo nu, branco, branco, que agitava um objeto perto do ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Pai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele chegou mais perto e notei um &lt;em&gt;cd player&lt;/em&gt; portátil em sua mão. De dentro do aparelho escorria um fio de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Que droga. Você me compra um novo? Essa porcaria não é à prova d’água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ E seu cachecol? Eu vi uma coisa boiando e achei que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Ah, o cachecol. Era o melhor cachecol do mundo. Acabei perdendo no fundo do mar. Agora ele vai agasalhar tubarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ E a história da mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Mãe? Sua mãe já morreu. Você acredita em cada lorota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou para o mar, deu um suspiro e completou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‒ Aquele curso de inglês ainda tem vaga?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosigrist@gmail.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosigrist@gmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-3725420696332915599?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3725420696332915599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/3725420696332915599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/09/rubi.html' title='Rubi'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIKSOqg0W0I/AAAAAAAABFY/c0JnZpbLRbw/s72-c/sigrist.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4387300528111017588</id><published>2010-09-04T13:26:00.000-07:00</published><updated>2010-09-04T15:47:24.693-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ESTANDARTE - Eduardo Sabino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Ba-ba</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIJ9hf32T5I/AAAAAAAABFQ/e6yixDAmOps/s1600/eduardo.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIJ9hf32T5I/AAAAAAAABFQ/e6yixDAmOps/s320/eduardo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eduardo Sabino*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto chegava e dava o bote. Eu lhe tirava as botas, beijava sua boca, acariciava a barba. Debatíamos feito duas baleias. Botávamos para quebrar até o tempo cambalear de velho. Depois ouvíamos bolero, bossa nova, duas bestas olhando para o teto. Os afetos eram intercambiáveis. As boas carícias voltavam dobradas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amor sem embustes, sem algemas, um código binário para todas as combinações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beleza não era burla até a voz dele ficar cambota, ao telefone, um “eu te amo” que mais parecia “câmbio”. Uma semana em Brasília, e eu aqui em brasas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou sem a beleza no sorriso, não era mais o Beto aquele ser abduzido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sexo não abarcou, desde então, as sensações do Paraíso. Era antes uma barca me levando fria para um lugar abandonado. “Bebê? Onde está você?” Beto fechava os olhos, dizia baixinho alguma baixaria e viajava, em cima de mim, para Brasília ou vai saber para onde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruna, o nome da baranga. Descobri na letra B da agenda do celular. “Apenas uma colega de trabalho”, jurava o abutre, mas na festa da empresa dele, no biênio passado, notei o quanto a vagaba lhe dava bola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contratei um inspetor e suas bugigangas fotográficas. Precisava de fotos, bem tiradas, para saber se as ausências eram de fato o boteco, o jogo de baralho, as horas extras descambando pela noite afora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar biônico do fotógrafo trouxe até mim as assombrações: o beijo, a mão na bunda, o baile das pernas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorei pouco. O bastante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei ele ir ao banheiro. Excluir o que havia de mais sincero em si. Como sempre, o Bosta apagou sobre a privada. Cansaço. A baranga havia lhe arrebentado. Apoiei na banca e desabei um abajur na cabeça de bagre. Chegou de acordar, balbuciar meu nome, “Bárbara...”, mas a segunda pancada lhe abateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, está perdoado. Virou, mais do que nunca, o meu bebê. Só meu. E eu sou uma boa babá. A melhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto conversa com batatas, bananas, bancos, certa vez até com a barata que lhe subiu pelas pernas. Não muda tom nem sílaba. É só “ba, ba, ba...” e a baba escorrendo no avental. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Beto, você me ama?”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ba, ba...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendo como um sim. Isso me basta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;a href="mailto:*eduardosabino@caoseletras.com"&gt;&lt;strong&gt;eduardosabino@caoseletras.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4387300528111017588?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4387300528111017588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4387300528111017588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/09/ba-ba.html' title='Ba-ba'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIJ9hf32T5I/AAAAAAAABFQ/e6yixDAmOps/s72-c/eduardo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-4526747770991674841</id><published>2010-09-04T13:25:00.000-07:00</published><updated>2010-09-04T13:25:30.541-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='QUASE SEM MISTÉRIO - Alessandro Faleiro Marques'/><title type='text'>Candidato, cuidado com o eleitor ficha suja</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIGl7TzIIuI/AAAAAAAABEw/uSYjppno-1s/s1600/alessandro.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIGl7TzIIuI/AAAAAAAABEw/uSYjppno-1s/s320/alessandro.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alessandro Faleiro Marques*&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como torço por sua vitória nas eleições, já vou chamar-lhe de Excelência, para o senhor ir se acostumando com o justo título. Sinceramente, não tenho medida do quanto é difícil disputar esse vestibular da democracia. Muitos comícios, argumentos, contra-argumentos, e o pior, ter de viver num ambiente repugnante para a maioria das pessoas. Tenha paciência e seja persistente. Excelência, em muitas nações, há lutas sangrentas para a conquista do direito que, nós, eleitores, muitas vezes desdenhamos por aqui. Aproveitemos bem essa oportunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor é honesto, trabalhador, consciente da missão de serviço a qual se propõe. Se me permite, Excelência, gostaria de dar-lhe um fraternal conselho: cuidado com o eleitor ficha suja, corrupto, de alma imunda, propagador das misérias e das injustiças de cada dia. Semana passada, outro candidato merecedor do título com que lhe honro confessou-me estar revoltado. Foi abordado por uma senhora, e esta lhe pediu um caminhão de areia em troca do voto. Ainda chocado pela imoralidade da mulher até outrora respeitável, ele me disse tê-la mandado para o inferno. Achei isso maravilhoso! O senhor também faria isso, mesmo com outras palavras, tenho certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ouvi de alguns vizinhos a queixa de que não ganham mais nada, perderam o “direito” de ver aquela dupla sertaneja famosa aqui, bem perto de casa, de graça. “Não se fazem eleições como antigamente”, dizem. Pois é, Excelência, agora posso ouvir, sem confetismos, o que o senhor e outros candidatos têm a dizer. Suas propostas para cuidar da “&lt;em&gt;res publica&lt;/em&gt;”, a coisa de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava pensando... o desonesto deve adorar essa história de todo político ser chamado ladrão. Isso serve para enfraquecer as propostas de mulheres e homens sérios e fortalecer os adoradores do egoísmo, da antivida e da injustiça. Quando se generaliza, colocam-se todos como “farinha do mesmo saco”, abafando-se quem quer trabalhar. Mais uma vez, suplico ao senhor: tenha persistência e coragem. Sou testemunha de seu empenho em favor da vida em abundância, sobretudo para os mais fracos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu apoiarei seu protesto contra o eleitor corrupto, principalmente contra aqueles com esclarecimento suficiente para ter ideia dos próprios atos. Prometo não render mais conversa quando alguém chegar falando mal dos políticos. Denegrirei quem deixa de votar em pessoas como o senhor e escolhe os que se corrompem. Se uma pessoa eleita é ruim, muitas vezes ela o era assim antes. Pilantra é quem, sabendo disso, insiste em mantê-la em tão honorável serviço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá entre nós, o senhor acharia ser preciso existir uma lei contra candidatos “ficha suja”? Se os cidadãos levassem a sério a importância da escolha dos próprios representantes, a legislação seria apenas um apoio para proteger os mais débeis ou distraídos. O mesmo candidato que xingou a mulher corrupta me contou que, no partido em que é filiado, sobraram apenas sete candidatos de uma lista de oitenta. Se o povo fosse mais cuidadoso, os setenta e três barrados sequer tentariam se inscrever, pois teriam a certeza de não serem eleitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejo ao senhor muita sorte e, aos meus irmãos eleitores, muito juízo. Quanto aos sujos, todos eles, vassoura! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;a href="mailto:faleimar@hotmail.com"&gt;&lt;strong&gt;faleimar@hotmail.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-4526747770991674841?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4526747770991674841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/4526747770991674841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/09/candidato-cuidado-com-o-eleitor-ficha.html' title='Candidato, cuidado com o eleitor ficha suja'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIGl7TzIIuI/AAAAAAAABEw/uSYjppno-1s/s72-c/alessandro.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-2680974524787767703</id><published>2010-09-04T13:23:00.000-07:00</published><updated>2010-09-04T13:23:08.969-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='NOVOS NOMES'/><title type='text'>A casa do caracol</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIGIMMzQwqI/AAAAAAAABEo/kCJzXxnhHAM/s1600/ana_paula_santos_rodrigues.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIGIMMzQwqI/AAAAAAAABEo/kCJzXxnhHAM/s320/ana_paula_santos_rodrigues.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Ana Paula Santos Rodrigues&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Suspense&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um prédio velho e cinza&lt;br /&gt;De sacadas secas&lt;br /&gt;E janelas descascadas&lt;br /&gt;Uma porta se abre&lt;br /&gt;Uma velhinha se arrasta&lt;br /&gt;Apoiando-se nas paredes&lt;br /&gt;Caminha para a varanda&lt;br /&gt;Levanta os braços, e de repente&lt;br /&gt;Com suas mãos trêmulas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rega&lt;br /&gt;Uma minúscula flor que cresce&lt;br /&gt;De todas as cores do mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Anoitece&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho pesca estrelas&lt;br /&gt;Na rede da varanda&lt;br /&gt;A menina pesca sonhos&lt;br /&gt;Sentada na calçada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O moço destila dores&lt;br /&gt;Num copo de bebida&lt;br /&gt;E a mulher abandonada&lt;br /&gt;Destila-se em lágrimas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda noite há um gato&lt;br /&gt;Correndo assustado pela rua.&lt;br /&gt;A liberdade, o alento&lt;br /&gt;Ou a ameaça noturna&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que é mortal se cala&lt;br /&gt;Mas o tempo continua&lt;br /&gt;E no céu todo cravejado&lt;br /&gt;A eterna rainha lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Sutil&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio a escombros de guerra&lt;br /&gt;Nascem frágeis flores&lt;br /&gt;Olhando a maldade&lt;br /&gt;Com um olhar triste&lt;br /&gt;Quietas e pequenas&lt;br /&gt;Um pequeno colorido&lt;br /&gt;No preto e branco destruído &lt;br /&gt;De um tempo queimado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos todos os motivos&lt;br /&gt;Para sermos maus, para sermos bons.&lt;br /&gt;Toda beleza vem recheada de insensatez&lt;br /&gt;É irracional ser extremo&lt;br /&gt;Mas o meio do muro não é tão belo&lt;br /&gt;E é irracional ser humano&lt;br /&gt;De verdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequenas flores&lt;br /&gt;São jardins que não percebemos&lt;br /&gt;E fica apenas a intuição&lt;br /&gt;De que em meio às ruínas&lt;br /&gt;Há algo que nos observa&lt;br /&gt;E nos trás como um perfume&lt;br /&gt;A esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Ana Paula Santos Rodrigues tem 16 anos, reside em Oliveira-MG, e estreou em livro, neste ano, com os poemas de &lt;em&gt;A casa do caracol&lt;/em&gt;. Contato: &lt;a href="mailto:anapaulalegiao@hotmail.com"&gt;anapaulalegiao@hotmail.com&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7399657280870008717-2680974524787767703?l=www.caoseletras.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2680974524787767703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7399657280870008717/posts/default/2680974524787767703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.caoseletras.com/2010/09/casa-do-caracol.html' title='A casa do caracol'/><author><name>Caos e Letras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07051028404765388974</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIGIMMzQwqI/AAAAAAAABEo/kCJzXxnhHAM/s72-c/ana_paula_santos_rodrigues.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7399657280870008717.post-1264741377584993856</id><published>2010-09-04T13:21:00.000-07:00</published><updated>2010-09-05T09:02:37.336-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A VERDADE DA MENTIRA - Paulo Lima'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Todas as postagens'/><title type='text'>Um amor nos trópicos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIBOTmrHZQI/AAAAAAAABEM/3bupuKuQetQ/s1600/paulo_1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_xTRXJNl8I6M/TIBOTmrHZQI/AAAAAAAABEM/3bupuKuQetQ/s320/paulo_1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Paulo Lima*&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano era 1960. O avião vindo de Paris sobrevoou Recife, um pequeno desvio na rota antes de aterrissar no aeroporto dos Guararapes. Era uma deferência do piloto a um casal ilustre que estava a bordo visitando o Brasil pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Sartre, a primeira visão das pontes atravessando a cidade lembrou-lhe o Sena. Essa inesperada semelhança deu-lhe uma sensação de familiaridade, de pertencimento. Já se sentia, de algum modo, em casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentada ao lado de Sartre, um pouco mais afastada da janela, Simone esgueirou-se para olhar lá embaixo o traçado de Recife. Não, aquilo não condizia com sua amada Paris. Estava mais para Veneza, e nesse ponto ela mostrou mais perspicácia do que o companheiro. Conforme os clichês turísticos da época, por causa de sua paisagem pontilhada por rios e pontes, Recife era chamada de “Veneza brasileira”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardava o casal um pequeno comitê de boas-vindas, que se esmerou nos salamaleques e no francês empostado e sem sotaque, tudo devidamente preparado para causar a melhor impressão aos filósofos famosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com um jornal: “O casal existencialista (sic) foi recebido de braços abertos pela mais fina flor (sic) da inteligência pernambucana”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucederam-se rápidas apresentações, quem faz o quê não sei onde, homens de fala grossa fazendo biquinhos improváveis e carregando nos erres amaneirados,
